Fenômenos climáticos extremos são 'coerentes' com aquecimento global

Para Michel Jarraud, chefe da Organização Meteorológica Mundial, órgão do clima da ONU, não houve inversão na tendência de aquecimento global

Robert Evans, Reuters

24 Março 2014 | 20h26

GENEBRA - Não houve inversão na tendência do aquecimento global e ainda são consistentes as evidências de mudanças climáticas provocadas pelo homem, disse Michel Jarraud, o chefe da Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão climático da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta segunda-feira, 24.

A desaceleração no ritmo médio de aquecimento da superfície do Planeta neste século tem sido citada por "céticos do clima" como uma evidência de que as mudanças climáticas não estão acontecendo no ritmo potencialmente catastrófico previsto por um painel de cientistas da ONU. Mas Jarraud disse que as temperaturas do oceano, em particular, foram crescendo rapidamente e extremos eventos climáticos, previstos por cientistas do clima, mostraram que a mudança climática é inevitável para os próximos séculos. "Não há nenhuma paralisação no aquecimento global", disse Jarraud enquanto apresentou a revisão anual da OMM sobre o clima do mundo, que concluiu que 2013 empata com 2007 como o sexto ano mais quente desde 1850, quando a gravação de dados anuais começaram.

"O aquecimento dos oceanos está acelerado. Mais de 90% do excesso de energia retido pelos gases de efeito estufa é armazenado nos oceanos. Os níveis desses gases de efeito estufa estão em um recorde, ou seja, a nossa atmosfera e os nossos oceanos continuarão aquecendo nos próximos séculos. As leis da Física não são negociáveis", disse Jarraud, em coletiva de imprensa.

O estudo, de 21 páginas, diz que a temperatura da superfície terrestre e do mar em 2013 foi de 14,5ºC, ou 0,5ºC acima da média de 1961-1990. Foi também 0,03ºC acima da média de 2001-2010.

A declaração anual da OMM sobre o clima apontou secas, ondas de calor, elevação dos mares, inundações e ciclones tropicais em todo o mundo no ano passado como provas do que o futuro pode trazer.

Flutuações. O relatório foi lançado na véspera do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), conferência sobre o clima da ONU que reunirá cientistas e políticos de mais de cem países no Japão entre os dias 25 e 29 de março para aprovar um relatório sobre os efeitos sobre o futuro aquecimento global e como isso pode ser reduzido ou evitado.

Um rascunho do relatório diz que o aquecimento global pode por fim aos estoques de comida, diminuir o crescimento econômico mundial e já pode estar causando danos irreversíveis à natureza.

O presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, disse à Reuters na última semana que o relatório torna ainda mais convincentes os argumentos para que haja uma redução das emissões de gases de efeito estufa.

Cerca de 200 países concordaram em tentar limitar o aquecimento mundial para 2 ºC acima era pré-industrial, em grande parte pela redução das emissões da queima de combustíveis fósseis como o carvão, petróleo e gás.

Os céticos argumentam que as mudanças no clima global são o produto de flutuações naturais ou outras causas naturais. Mas tais argumentos foram rejeitados por Jarraud.

Fenômenos naturais como vulcões ou El Niño e La Niña, originários do aumento da temperatura do Oceano Pacífico, mudam o clima do planeta, afetando os níveis de calor e causando desastres como secas e inundações, disse ele.

"Mas muitos dos eventos extremos de 2013 foram coerentes com o que se esperava, como resultado de uma mudança no clima induzida pelo homem", declarou o chefe da OMM, Jarraud, apontando para a destruição causada pelo tufão Haiyan nas Filipinas.

Outro exemplo foi recorde de temperaturas no verão em 2012-13 na Austrália, que trouxe enormes queimadas e destruição de propriedades. As simulações de computador mostram que a onda de calor é cinco vezes mais provável de ter sido causada pela influência humana sobre o clima, disse Jarraud.

Entre outros eventos extremos de 2013, provavelmente por causa da mudança no clima, foram invernos congelantes no sudeste dos EUA e na Europa, fortes chuvas e inundações no nordeste da China e leste da Rússia, neve em todo o Oriente Médio e seca no sudeste da África.

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