Cláudio Rossi/Divulgação
Cláudio Rossi/Divulgação

Fazendo a cabeça da elite e do MST

Casal largou tudo para salvar mico-leão, negociou com sem-terra e criou pós para líderes ambientais

Andrea Vialli, de O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2009 | 00h01

Fundadores do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), Claudio e Suzana Padua já moraram num casebre no Pontal do Paranapanema para ajudar a salvar o mico-leão-preto da extinção. Negociaram com o Movimento dos Sem-Terra (MST). Inovaram na busca de parcerias com empresas. Agora, veem um sonho se concretizar: neste fim de ano, forma-se a primeira turma de 23 mestres da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (Escas), empreendimento idealizado pelo casal e financiado por investidores como Guilherme Leal, um dos donos da Natura.

 

Há mais coisas em comum entre uma etapa e outra da trajetória do casal. “Percebi que a chave era a educação ambiental”, diz Suzana, lembrando dos tempos espartanos do Pontal. “Sobrevivi porque passei a atuar nisso.” O trabalho de formação desembocou mais tarde no Ipê e na Escas, ambos com sede em Nazaré Paulista (SP). A diferença é de escala – e ambição. “Queremos criar um centro de referência em sustentabilidade para o mundo, que forme lideranças para a nova economia de baixo carbono que está emergindo”, diz Leal, da Natura.

 

A primeira guinada na vida do casal ocorreu em 1977, quando Claudio, aos 30 anos, decidiu largar o emprego de administrador de laboratório de produtos veterinários para estudar biologia. Suzana, designer, teve de assumir as despesas da casa.

 

Claudio começou a trabalhar com o especialista em primatas Ademar Coimbra-Filho. Quando Coimbra descobriu que havia remanescentes do mico-leão-preto, dado como extinto, na reserva do Morro do Diabo, no Pontal, Claudio não teve dúvidas. Mudou-se para lá.

 

“Tínhamos três filhos pequenos e fomos morar em um casa de madeira de dois quartos, com a parte elétrica inacabada”, conta Suzana, que ficou deprimida e depois pegou leishmaniose. “O Pontal não era conhecido pelos conflitos agrários. Era um lugar de gente simples, mas que tinha uma visão distorcida do ambiente. Achava preferível derrubar a reserva para dar lugar a fazendas de gado.” O casal apostou em programas de educação ambiental, que, em pouco tempo, cobriam 100% das escolas da região.

 

No fim da década, começaram as ocupações de sem-terra no Pontal. Claudio e Suzana tiveram várias conversas com o então líder do MST na região, José Rainha, para envolver os assentados nos programas conservacionistas. Criaram em conjunto um viveiro de árvores nativas, culturas agroflorestais (café orgânico e buchas cultivados com a mata nativa) e unidades de negócios sustentáveis – parcerias que geram renda para a comunidade, caso do beneficiamento da bucha, vendida para empresas de cosméticos.

 

O projeto engloba hoje mais de 400 famílias. “Isso levou a um ‘esverdeamento’ do Pontal. Foi a única região paulista a ter acréscimo de cobertura florestal nos últimos anos”, diz Suzana. Ao mesmo tempo, o mico- leão-preto passou de espécie criticamente ameaçada para espécie ameaçada – um enorme avanço conservacionista.

 

Claudio e Suzana fizeram mestrados simultâneos nos Estados Unidos nos anos 90. Na volta ao Brasil, o engajamento de Suzana com educação ambiental aliado aos trabalhos de Claudio como pesquisador formaram a semente do Ipê, fundado em 1992.

 

O instituto saiu em busca de parcerias com universidades e instituições internacionais para formar pesquisadores em conservação. Também fechou acordos comerciais com empresas como a Alpargatas – o que deu origem à linha Havaianas Ipê, estampada com animais da fauna brasileira, um sucesso de vendas. As parcerias trouxeram visibilidade e fontes de financiamento. “A verdade é que sempre quis mudar o ambientalismo, considerado contra o progresso”, diz Claudio.

 

Essa veia empresarial dos Padua ajudou a atrair investidores para a Escas, atual menina dos olhos do casal. "A hora de construir lideranças é agora”, afirma Claudio.

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