Alex Tristante
Alex Tristante

Fazendas já conseguem reduzir as emissões de metano no Brasil

Biodigestores e a integração de alguns sistemas produtivos mostram que existe um caminho para diminuições maiores

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 05h00

Após pressão dos Estados Unidos, o Brasil assinou acordo que prevê reduzir as emissões de metano em 30% até 2030, na Conferência do Clima (COP-26). Por aqui, buscar um corte dessa escala exige adaptar a pecuária, com técnicas que permitam melhor manejo dos rebanhos. Entre as estratégias que já funcionam em fazendas do Brasil, estão biodigestores e integração de sistemas produtivos. 

No País, 71,85% das emissões de metano vêm da agropecuária, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Remoções de Gases de Efeito Estufa. O relatório apontou que a "fermentação entérica" (arroto do boi) é responsável por quase dois terços (65%) de todas as emissões. A maior parte, 96,9%, é proveniente de rebanhos de bovinos de corte e de produção de leite, o que inclui também o manejo dos dejetos dos animais.

"Na pecuária, não há um furo no meu gasoduto que possa consertar. A fermentação entérica não é um gás que se possa impedir de ser emitido, é um processo que evoluiu com os animais", diz o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Pecuária Sudeste, Alexandre Berndt. Ele aponta que a mitigação de metano se dá por meio de tecnologias que atacam em três pilares: aperfeiçoamento da dieta dos animais, alterando diretamente o processo químico no rúmen; mais eficiência na produção (intensificação sustentável), que reduz o tempo para que o boi seja terminado; e compensação, pelo sequestro de carbono.  

Um método que propicia mais eficiência, atacando principalmente o segundo pilar, aponta o técnico, é o de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que mistura ao menos dois desses sistemas produtivos em uma mesma propriedade. Conforme explica Berndt, a maior produtividade está ligada ao melhor manejo do pastejo e adubação das lavouras. Ele é utilizado há mais de dez anos na Fazenda Santa Silvéria, na região de Bauru, no interior paulista. 

Além de 37% de sua área ocupada por reserva nativa, a propriedade parceira da Embrapa integra a lavoura de soja à pecuária de corte, conforme conta o gerente da fazenda, Fulvio Domenek. A Santa Silvéria tem cerca de 1.300 hectares de terra, com cerca de 1.800 cabeças de gado. 

"O principal benefício do sistema integrado foi o aumento da arroba (sistema de pesagem do boi) produzido por hectare no ano. Porque se entrega uma melhor fertilidade do solo", diz o médico veterinário. "Com uma maior produção de volumoso, diminui-se a necessidade de suplementação por ração. O gado se desenvolve com pasto, principalmente, e o ciclo de produção, no caso de engordar, ficou mais rápido." 

Domenek conta que o gado do tipo Bonsmara, produzido ali, em dois anos já está fora da fazenda, como touro ou carne. Queiroz indica que o tempo médio de abate no Brasil é de 36 meses. Menos tempo no pasto significa menos fermentação entérica.

O técnico da Embrapa destaca, porém, que os maiores ganhos do ILPF estão na redução da emissão de dióxido de carbono (CO2). "Nos nossos sistemas, da Pecuária Sudeste, temos um sequestro de carbono muito significativo, a ponto de conseguir além de neutralizar as emissões, restar um saldo positivo", declara.

Utilizando os dejetos do gado, em Rondônia, o projeto Energias Renováveis da Amazônia (ERA), do Centro de Estudos Rioterra, busca mitigar os impactos climáticos e melhorar a qualidade de vida no campo. Para isso, desde 2017, foram instalados 28 kits biodigestores em fazendas de produção leiteira das cidades de Itapuã do Oeste, Cujubim e Rio Crespo.

A instalação do equipamento nas fazendas não é completamente gratuita, mas o custo é acessível, conforme explica Alexandre Queiroz, biólogo e coordenador de Educação da Rioterra. Com financiamento da Misereor, fundação da Igreja Católica alemã, os agricultores precisam arcar apenas com 20% do valor do equipamento - um montante que gira em torno de R$ 800, que pode ser pago em 12 vezes - mais a mão de obra para instalar o biodigestor.

O equipamento permite fazer a gestão de resíduos da propriedade. Acrescidos de água, o esterco do gado e resto de alimentos são transformados em biogás e adubo. A mitigação da emissão de gases estufa, principalmente, do metano, se dá pelo uso do esterco que, quando fresco e a céu aberto, ao decompor-se, libera o poluente, explica Queiroz.   

"Utilizamos, em nosso projeto, um biodigestor com um tamanho de 2m³ que produz em média 21,6 m³ de biogás ao mês, o que equivale ao menos a uma botija de gás de cozinha (GLP)", estima Queiroz. "Ao todo, com os 28 biodigestores, em três anos, já evitamos a emissão de 10.7 toneladas de CO2 e 6.1 toneladas de CH4." 

Ao mesmo tempo, o biodigestor permite a geração de renda para a família, que economiza na compra de botijões de gás de cozinha e fermento químico - uma economia mensal de R$220, nos cálculos de Queiroz. Os produtos são substituídos, respectivamente, pelo biogás e pelo biofertilizante gerados com o manejo de resíduos da pecuária da propriedade no equipamento. 

A iniciativa também ajuda as famílias a reduzirem o uso do fogão à lenha. "Existe a problemática da saúde da mulher no campo, que têm uma uma maior incidência de problemas pulmonares devido à inalação de fumaça”, diz Queiroz. O biólogo afirma que, na região amazônica, elas, na maior parte das vezes, são responsáveis pela produção do alimento da família, ficando mais expostas ao risco. Além de aumentar a qualidade de vida no campo, ao diminuir a queima de madeira, o biogás ajuda também a reduzir a emissão de dióxido de carbono (CO2). 

"É muito simples implementar essa iniciativa em qualquer lugar do País", avalia Queiroz. O biólogo aponta que também é possível utilizar esterco de suíno nos biodigestores, a preferência pelo de origem bovina no projeto ERA têm mais a ver com a cultura produtiva da região de abrangência.

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