Família de catador de latas sueco briga por herança milionária

Homem abandonou a escola, mas lia jornais financeiros todos os dias e investiu em ações

Claudia Varejão Wallin, BBC

31 Março 2010 | 08h54

A família de um sueco que havia passado as três últimas décadas de sua vida catando latas vazias nas ruas da cidade de Skellefteå, no norte da Suécia, acabou tendo que brigar na Justiça para dividir uma inesperada fortuna deixada por ele, informou a imprensa sueca.

De acordo com os jornais suecos, Curt Degerman, conhecido como "Burk-Curt" ("Curt da Lata", em tradução livre) pelos moradores de Skellefteå, era uma figura solitária, que circulava pelas ruas em uma bicicleta velha, recolhendo latas e garrafas das latas de lixo da cidade.

Mas quando morreu em 2008, aos 60 anos de idade, os familiares descobriram que ele tinha deixado uma herança de mais de 12 milhões de coroas suecas (aproximadamente US$ 1,4 milhão).

O que ninguém sabia era que, quando não estava vasculhando as latas de lixo, Curt ia à biblioteca da cidade para ler o noticiário financeiro dos jornais e estudar o mercado de ações.

"Ele ia à biblioteca todos os dias, porque não comprava jornais", disse um primo de Curt, Torgny Tjernlund, ao jornal sueco Expressen na época de sua morte. "Ali ele lia o Dagens Industri (o principal jornal financeiro da Suécia). Ele sabia tudo sobre as ações da bolsa", acrescentou.

"Curt da Lata" usou o que aprendeu no noticiário do mercado de valores para transformar as modestas somas que juntava, vendendo suas latas e garrafas, em um portfólio de ações e fundos mútuos avaliados em mais de 8 milhões de coroas suecas.

Além disso, ele comprou 124 barras de ouro estimadas em 2.6 milhões de coroas suecas. No banco, tinha quase 47 mil coroas suecas. Curt também tinha casa própria, o que elevou o valor total de sua herança para 12.005.877 milhões de coroas.

Em seu testamento, Curt Degerman deixou toda a sua fortuna para Torgny Tjernlund, o primo que costumava visitá-lo regularmente em seus últimos anos de vida.

Mas ao tomar conhecimento da surpreendente herança, um tio de Curt decidiu contestar nos tribunais o direito do primo de herdar a fortuna sozinho. Pela lei sueca, o tio tinha de fato direito de herdar o dinheiro do sobrinho.

A briga foi parar então na corte distrital de Skellefteå. Mas esta semana, o tio e o primo de Curt finalmente chegaram a um acordo extra-judicial para dividir a herança.

Depois de aproximadamente duas horas de negociações, os dois concordaram em dividir a fortuna - mas nenhuma das partes revelou o teor do acordo.

O tio de Curt, Gunnar Karlsson, de 92 anos, foi representado no tribunal por seu filho, Stig Karlsson.

"Estamos satisfeitos com o acordo. Felizmente isto acabou", disse Stig Karlsson, segundo a TV sueca SVT.

"Também estou satisfeito com o acordo. As duas partes ganharam, e ninguém perdeu", disse à SVT Torgny Tjernlund, o primo mencionado no testamento de Curt.

De acordo com o jornal Expressen, Curt Degerman foi, segundo familiares, uma criança inteligente, que no entanto abandonou a escola na adolescência em virtude de uma crise pessoal e optou por um estilo de vida alternativo.

Mesmo depois de se tornar um homem rico, acrescenta o jornal, Curt nunca gastava dinheiro: chegava a comer restos de comida das latas de lixo de restaurantes.

"Curt da Lata" morreu de um ataque cardíaco enquanto dormia, em outubro de 2008. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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