Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Falta de água pode se tornar constante no Estado de São Paulo

Mudança do clima mantém sinal amarelo aceso; para cientistas, região deve continuar sofrendo com as oscilações extremas

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 03h30

SÃO PAULO - A crise hídrica que afetou a Região Sudeste do Brasil, em especial São Paulo, a partir de 2013 e com mais força entre 2014 e 2015, pode ter sido um evento extremo único no registro histórico da meteorologia paulista. Mas em um cenário em que as temperaturas estão cada vez mais altas - afetando a evaporação dos reservatórios -, e a tendência de chuvas sobre o Sistema Cantareira é de queda, as condições para a ocorrência de novas crises hídricas continuam sobre a mesa. 

Soma-se a isso o fato de que, apesar de a crise hídrica ter diminuído o padrão de consumo das famílias, parte da população retomou gastos de água que estão acima do esperado. 

Especialistas que se debruçaram sobre as causas da crise apontam que, considerando as séries históricas de chuvas e temperaturas que existem para a região, tratou-se de um evento único. E dizem que ainda não é possível afirmar que seja uma consequência ou tenha sido mais grave por causa das mudanças climáticas que afetam o planeta. Tampouco, porém, significa que o aumento das emissões antrópicas de gases de efeito estufa esteja fora da equação.

“Quando se avalia a frequência e a tendência de eventos extremos, pode se supor que a estiagem registrada no Sudeste faz parte das mudanças que estamos sentindo em função do aquecimento global”, afirma Tercio Ambrizzi, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Como a temperatura média global tem aumentado sistematicamente, inclusive batendo recordes globais nos anos mais recentes, segundo Ambrizzi, o sistema climático como um todo passa a sentir este aumento de energia e reage para manter um equilíbrio global. 

“Existe uma grande probabilidade de a região Sudeste do Brasil, e também a região metropolitana de São Paulo, continuarem a sofrer oscilações de extremos climáticos em decorrência da elevação da temperatura global, podendo levar à ocorrência de secas ou inundações”, diz o pesquisador.

Segundo ele, o fato de as precipitações no Sudeste brasileiro estarem abaixo da média desde 2011 já é suficiente para que o sinal amarelo sobre a falta de água na região permaneça ligado. “Somente este dado é preocupante e teríamos que pensar em ações de adaptação”, afirma. Para o especialista, educar a população sobre a importância da água e discutir maneiras de usá-la com consciência é um ponto importante de qualquer estratégia para se combater a escassez de água. 

“Mas também temos de investir em tecnologia e equipamentos para economizar água, tanto em níveis residenciais quanto em empresas de forma geral”, diz. Ambrizzi também defende a importância de reutilizar a água e do desenvolvimento de projetos de infraestrutura para aumentar as reservas de água para a população. 

Nova cultura

“Para combater o risco de desabastecimento hídrico é preciso promover uma nova cultura da água, com a participação mais efetiva da sociedade, do setor privado e dos governos”, complementa Samuel Barreto, gerente de água da ONG The Nature Conservancy (TNC).

Ele cita como exemplo de novos caminhos que começaram a ser trilhados após o quase colapso do abastecimento público de água em São Paulo a criação, em 2015, do programa “Coalizão Cidades pela Água”. De acordo com o especialista em recursos hídricos, a plataforma de ação coletiva atuou para unir os esforços da ONG com os do setor privado para buscar formas de promover segurança hídrica. 

O projeto identificou 25 regiões metropolitanas na América Latina que sofrem de estresse hídrico. Destas áreas, 12 estão no Brasil - onde vive 31% da população brasileira e está 45% do PIB nacional. O principal objetivo do programa é investir na chamada infraestrutura verde, ou seja, em restauração florestal, para preservar a qualidade dos reservatórios de água.

No Brasil, segundo Barreto, empresas que dependem da água para os seus negócios aderiram ao projeto. É o caso de Ambev, Coca-Cola Femsa, PepsiCo, Fundación Femsa e Klabin. No total, pelas contas da TNC, cerca de 30 mil hectares foram restaurados nas cabeceiras de bacias hidrográficas, com mais de 2.500 famílias beneficiadas. Nos três anos da iniciativa, R$ 200 milhões foram aportados em projetos em seis regiões metropolitanas brasileiras: Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Belo Horizonte e Espírito Santo. O que engloba uma população de 27 milhões de pessoas.

Avaliação

Especialistas em recursos hídricos defendem uma mudança de cultura por parte de empresas e da população para evitar novas crises.

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