Saulo Souza
Saulo Souza

Exploração de madeira avança em três Estados da Amazônia, mostra estudo

Levantamento feito por entidades aponta Mato Grosso, Rondônia e Amazonas como os mais afetados; falta de detalhamento de dados públicos impede diferenciar o que é extração regular e a ilegal

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 22h47

A área de divisa de três Estados – Mato Grosso, Rondônia e Amazonas – está sofrendo uma pressão de desmatamento que já começa a alterar o chamado "arco do fogo" da destruição da floresta no bioma amazônico. A extração de madeira avança sobre o território da floresta, mostra levantamento que avalia o impacto na área. O trabalho mostra o impacto da retirada de madeira na área central daquela divisa tríplice, atingindo também áreas públicas de preservação.

Os dados são de uma parceria das entidades Imazon, Imaflora, Idesam e Instituto Centro de Vida (ICV) com a Rede Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Rede Simex). O levantamento mostra que a exploração de madeira se concentra fortemente na região no norte do Mato Grosso, que lidera a exploração com 236 mil hectares afetados, metade da área de extração (51%).

Depois, aparece o Amazonas, que registra com quase 72 mil hectares (15,3%), e Rondônia, com 69,7 mil hectares (15%). Em quarto lugar na pressão da exploração madeireira está o Pará, à direita no mapa, com 50 mil hectares, 10,8% do total da extração. O Acre (em quinto lugar, com 27,4 mil hectares) e, no fim da linha, no extremo norte do País, Roraima (2%) e Amapá (0,2%).

"É a primeira vez que estendemos essa medição do impacto na exploração de madeira na Amazônia. Antes, o algoritmo media apenas dois Estados, Mato Grosso e Pará, mas agora abrange sete Estados", explica Marco Lentini, do Imaflora.

Segundo o especialista, o mapa da exploração de madeira mostra que a pressão das derrubadas na floresta para a sua retirada aponta uma alteração no "arco de fogo". Essa é uma faixa de terra que no mapa vai do Acre, passando por Rondônia e sul do Amazonas, norte de Mato Grosso, chegando ao Pará e o Amapá. A extração agora atinge fortemente também áreas mais centrais dessa curva, principalmente na altura da fronteira do Amazonas.

Estudo mostra extração em unidades protegidas

Lentini destaca que os dados apontam um forte impacto da exploração em áreas públicas. O ranking da atividade madeireira sinaliza o ataque em áreas que deveriam estar livres da ação predatória. A retirada de madeira atinge 28.112 hectares, 6% do total explorado na Amazônia, acontecendo dentro das Unidades de Conservação.

A ação ocorre também em 24,8 mil hectares de Terras Indígenas (5%). A área indígena mais atingida, entre as dez que registraram exploração de madeira, foi Tenharim Marmelos, no Amazonas, com 6.330 hectares afetados pela retirada de madeira. "Esse é um dos principais pontos do levantamento", diz Lentini. "Pelo menos um quarto da extração já acontece em terras públicas, unidades de conservação e terras indígenas", avalia o pesquisador.

Ele argumenta ainda que os governos estaduais dificultam o acesso aos dados. Para o pesquisador, isso impede a leitura exata do que é desmatamento legal, autorizado em áreas privadas, e a ação ilegal nas fazendas. "Esse é um ponto de dificuldade na obtenção das informações, mas já é possível ver que a pressão sobre a floresta avança pelo centro do 'arco de fogo'", pondera Lentini.

Pelo levantamento, Aripuanã e Colniza, ambos em Mato Grosso, são as áreas que concentram a maior pressão de exploração de madeira por município no ano. Porto Velho, capital de Rondônia, foi a terceira colocada, seguido pelos amazonenses Manicoré e Lábrea. Depois aparecem outras três cidades da fronteira pressionada pela extração de madeira no MT: Nova Maringá, Feliz Natal e Marcelândia. Por último, entre os dez mais afetados, estão Feijó, no Acre, e Paragominas, no Pará.

Procurados para comentar os resultados do levantamento, o Conselho Nacional da Amazônia Legal não se manifestou até as 21 horas deste sábado, 4.

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