Experimento de queimadas ficava em local isolado no MT

Sem acesso fácil a telefone ou cuidados médicos, pesquisadores querem ficar na fazenda até 2018 para ver floresta se regenerar

Carolina Stanisci, enviada especial a Querência, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2010 | 12h35

Por mais que vislumbrasse os cenários mais devastadores, quando o cientista americano Daniel Nepstad implantou o experimento com fogo controlado no Cerrado mato-grossense, em 2004, não conseguiria prever a intensidade com que o seu objeto de estudo – incêndio em floresta – consumiria largas porções do bioma seis anos depois.

 

Nesptad, que não conseguiu ver de perto a conclusão do seu projeto Savanização na semana retrasada, quando houve a última queimada do ciclo, foi quem convenceu anos atrás os pesquisadores Jennifer Balch, Paulo Brando e Oswaldo de Carvalho Junior a tocar o experimento  na fazenda Tanguro, perto de Querência, no nordeste do Mato Grosso.

 

Convenceu, no caso, não é modo de dizer. O lugar é isolado, e a linha telefônica e a enfermaria mais próximas ficam a mais de 20 quilômetros de lá, na sede da fazenda. Para chegar ao experimento, a Reportagem passou por um périplo: 1h10 dentro de um avião de São Paulo para Goiânia, 12 horas de ônibus de Goiânia para Canarana (MT). E, dessa cidade para a fazenda do grupo Amaggi, que fica em Querência, foram mais 74 quilômetros, percorridos em uma picape em 1h30. Detalhe: a estrada que dá acesso à fazenda era tão poeirenta, que às vezes não era possível enxergar nada.

 

“Gosto muito daqui. Esses campos (de plantação de soja) me lembram minha infância no Winsconsin”, conta uma das coordenadoras do projeto Savanização, a americana Jennifer Balch. Loira, alta, de olhos claros e sotaque carregado, Jennifer passou por situações tragicômicas na região. "Um dia me vi numa reunião com uns cem fazendeiros. Eles apontavam o dedo para mim e perguntavam: ‘Por que essa americana está tacando fogo na nossa floresta?'. Respondi: 'Estamos colocando mais gás carbônico na floresta'", brincou ela, que cuida justamente de botar fogo nas plantas.

 

No início das queimadas monitoradas, que são feitas com um aparelho chamado ali de “pinga-fogo” (lembra um pequeno aspirador, que joga querosene com fogo no mato), alguns animais se assustaram e fugiram. Outras espécies até “perseguiam o fogo”, como o macaco-prego. “Havia uma fila de macacos atrás de insetos que estavam perdidos com o fogo na floresta”, conta Oswaldo de Carvalho Junior, coordenador regional do Ipam.

 

Em estudos feitos por estudantes na área, descobriu-se que o fogo não acabou com nenhuma espécie de insetos, mas diminuiu sua abundância. “Porcos e antas usam muito a mata queimada, e as saúvas também aumentaram na área do fogo.”

 

Além de Jennifer, Oswaldo e Paulo, outras 39 pessoas estão envolvidas na iniciativa. Algumas só o frequentam durante as queimadas e há os que estão lá no dia a dia, como os técnicos do Ipam Gracildo Cordeiro Cunha e Osvaldo Firmino Portela.

 

Gracildo trabalha com o viveiro de plantas – o Ipam planeja plantar mudas no ano que vem, para ajudar na regeneração da floresta. Já Osvaldo é considerado, informalmente, o gerente do projeto. “Ele diz para a gente até onde podemos ir queimando tudo”, brinca Brando. Todas as medições antes, durante e depois da queimada controlada têm que ser feitas em horários padrão; qualquer erro exige outra queima. "Isso não é bom, a gente tenta evitar esse tipo de coisa", explica Osvaldo.

 

A parceria entre o Instituto de Proteção à Amazônia (Ipam) e a ONG Woods Research Center que fez as queimadas monitoradas desde 2004 tem financiamento previsto até 2013, mas deseja ficar por ali até 2018, para checar a restauração completa da floresta.

 

"Todos os resultados da queimada mostram a importância de se reduzir a frequência de incêndios na região”, diz Jennifer, lembrando que os impactos causados pelo fogo na vegetação da Amazônia são ainda pouco conhecidos. Outros parceiros do projeto são a Universidade Estadual do Mato Grosso, a Esalq, o Museu Paraense Emilio Goeldi, a Universidade Federal do Pará, a Universidade da Flórida, a Yale University e a RainFor, da Oxford University.

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