Expedição percorre os passos de Charles Darwin no Rio

tataraneto do grande naturalista veio ao Brasil como convidado especial da viagem pela rota de Darwin

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo,

27 Novembro 2008 | 14h31

Uma expedição de estudantes, professores e pesquisadores da área de biologia está refazendo os passos de Charles Darwin no Rio de Janeiro. A caravana, que partiu do Jardim Botânico na quarta-feira, 26, vai percorrer 12 municípios até sábado, indo pela costa e voltando pelo interior do Estado.   Veja também  Tataraneto refaz o caminho de Darwin pelo Rio de Janeiro (com mapa da expedição)   Em cada local de parada - os mesmos onde Darwin parou durante sua expedição de 15 dias pela mata atlântica fluminense, em 1832 - será inaugurada uma placa comemorativa com o mapa do trajeto e a reprodução de anotações que o naturalista fez em seu diário durante a viagem. A idéia é resgatar a história da passagem de Darwin pelo Rio, que foi onde ele conheceu e se encantou pela primeira vez com as maravilhas de uma floresta tropical.   Placas de trânsito também já foram instaladas ao longo das estradas que cortam o percurso, para orientar futuros turistas e curiosos que queiram refazer o caminho de Darwin por conta própria.   O convidado de honra da expedição é o simpático Randal Keynes, de 60 anos, tataraneto de Darwin. Trata-se de uma viagem de descoberta para ele também, que conhece a história do tataravô como a palma da mão, mas que nunca esteve no Brasil. "Estou muito feliz de estar aqui", disse Keynes. "Quando Darwin deixou o Brasil, ele sabia que provavelmente nunca mais voltaria. Sinto agora que posso dar a ele essa experiência novamente."   ORQUÍDEAS E BROMÉLIAS   A reportagem do Estado acompanhou a primeira etapa da expedição. O ponto de largada foi o Jardim Botânico do Rio, onde a placa comemorativa foi inaugurada aos pés de uma velha árvore de fruta-pão que possivelmente foi observada por Darwin em sua passagem por lá.   Na época, o jovem naturalista, de apenas 23 anos, ficou decepcionado com o também jovem Jardim Botânico (da mesma idade), que em 1832 ainda era pouco mais do que um canteiro de árvores exóticas, trazidas de outros continentes para serem adaptadas ao Brasil - e suprirem os desejos gastronômicos da família real. A fruta-pão era uma dessas espécies, assim como a jaca, a manga, canela e pimenta.   "Darwin não encontrou um jardim botânico como os que conhecia na Inglaterra, encontrou um jardim de especiarias", disse ao Estado o pesquisador Gilberto Amado, diretor da Escola Nacional de Botânica Tropical do Jardim Botânico.   O naturalista chegou a registrar que o nome "Jardim Botânico" deveria ter sido dado ao lugar "muito mais por cortesia" do que por qualquer outro motivo, segundo o pesquisador da instituição Cyl Farney, que acompanha a expedição.   Quase 180 anos depois, o tataraneto de Darwin caminhou pelas estufas e pelos corredores de palmeiras e se impressionou com a diversidade de plantas que viu - principalmente com as orquídeas, bromélias e plantas carnívoras, pelas quais Darwin tinha um interesse especial. "Ele ficaria muito feliz de ver que o Jardim Botânico se transformou numa verdadeira instituição científica", disse Keynes. A instituição hoje tem um herbário com 450 mil amostras de plantas e 8.300 espécies representadas em seu arboreto.   FEIJOADA E CAPOEIRA   De lá, o ônibus da expedição cruzou a ponte Rio-Niterói em direção à Fazenda Itaocaia, em Maricá, onde Darwin parou no início de sua jornada para comer e descansar. No caminho, Keynes se impressionou não só com a beleza da mata atlântica ao redor, mas também com a pobreza das comunidades à beira da estrada RJ-106. "Não sei como todo esse cenário se encaixa, Copacabana e isso", lamentou. Na chegada à fazenda, Keynes foi recebido com uma tietagem digna de um astro de Hollywood. O bom velhinho não podia dar um único passo sem ser agarrado por algum bando de alunos, professores ou outros curiosos entusiasmados. Todos queriam tirar uma foto ao lado do tataraneto de Darwin. Estudantes locais prepararam apresentações temáticas sobre evolução e fizeram uma maquete de papelão do navio Beagle, recheada com bichinhos de pelúcia. O almoço teve feijoada e demonstração de capoeira. Keynes, sempre sorrindo, assistiu a tudo e deu atenção a todos, maravilhado com a recepção que recebeu.   Hoje, a Fazenda Itaocaia é um hotel. O interior do casarão foi bastante modificado e muitas peças históricas foram vendidas pelo antigo proprietário, mas a fachada da casa e as ruínas do antigo engenho, onde Keynes comeu sua feijoada, ainda dão uma idéia do que Charles Darwin viu em 1832.   O novo proprietário, Claudio Santos, de 41 anos, disse que vai preservar e restaurar o máximo possível da propriedade. Ele conta que tomou um susto - no bom sentido - quando descobriu pela internet, há apenas 20 dias, que Darwin tinha estado na fazenda. "Quando trouxe meus filhos aqui e contei a história para eles, seus olhinhos brilharam", contou Santos. "É muito diferente do que colocar a criança na frente de um livro e um quadro negro na escola."   EDUCAÇÃO E CULTURA   O educador e pesquisador Ildeu de Castro Moreira, que ajudou a organizar a expedição, espera que muitas outras crianças e adultos ainda sintam a mesma emoção que os filhos de Santos sentiram. A idéia é que o trajeto da expedição se torne um roteiro de turismo, cultura, pesquisa e educação, que as pessoas possam percorrer para aprender mais sobre Charles Darwin, sobre a teoria de evolução e sobre a história do Brasil.   "Independentemente da ciência, isso tudo é parte da história brasileira", afirmou Moreira, que trabalha com divulgação científica no Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Segundo ele, professores da região já disseram que vão incluir a história de Darwin em seus currículos. "O ensino de ciência tem de ser feito assim, em contato com o mundo natural e com a história. O ensino da biologia, especificamente, não pode ser tão deficiente num país que tem uma biodiversidade como a nossa. Porque não se discute isso de uma maneira mais interessante nas escolas?"   Darwin era assim: tinha uma curiosidade insaciável sobre o mundo natural. "Ele nunca estava só observando, estava sempre tentando entender como as coisas funcionam, como tudo se conecta", diz a bióloga Sandra Salles, professora da Universidade Federal Fluminense e presidente da Associação Brasileira de Ensino de Biologia, que também acompanha a caravana.   A expedição Caminhos de Darwin é uma iniciativa do MCT, Casa da Ciência (UFRJ), Projeto Caminhos Geológicos e DRM-RJ.

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