Gaspar Nóbrega/Fundação SOS Mata Atlântica
Gaspar Nóbrega/Fundação SOS Mata Atlântica

Expedição mostra níveis elevados de metais pesados no Rio Paraopeba

Contaminada pela onda de rejeitos da barragem da Vale que se espalhou por Brumadinho, água tem concentrações elevadas de ferro, manganês, cobre e cromo. Elementos podem provocar doenças em pessoas e animais

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 03h00

A contaminação do Rio Paraopeba pela onda de rejeitos de minério de ferro da Vale elevou a concentração de metais pesados a níveis muito acima dos limites fixados pela legislação e do tolerável à saúde. É o que revelam os resultados das análises feitas em expedição da Fundação SOS Mata Atlântica logo após o rompimento da barragem da empresa no Córrego do Feijão, em Brumadinho, no dia 25 de janeiro. 

O relatório será apresentado nesta quarta-feira, 27, à nova Frente Parlamentar Ambientalista e também à comissão externa criada para avaliar o rompimento da barragem.

O trabalho, que foi acompanhado pelo Estado nos primeiros dias, já tinha apontado que o alto nível de turbidez, que deixou a água mais parecida com um "tijolo líquido". A lama, aos poucos, vai matando o rio, deixando-o sem sem condições de uso ou de dar suporte para a vida aquática. Estudos posteriores feitos em laboratório da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), parceira do projeto, deixam claro agora que o problema é ainda mais complexo.

Nos 22 pontos analisados em 305 km do rio, desde o Córrego do Feijão até Felixlândia, no Reservatório de Retiro Baixo, todos apresentaram níveis elevados de ferro, manganês, cobre e cromo. "São elementos que não fazem mal à saúde em pequenas quantidades, tanto que os vemos em suplementos, mas em altas concentrações podem trazem problemas à saúde humana e também às dos animais, podem entrar na cadeia alimentar e continuar causando danos com o passar dos anos", afirma a bióloga Marta Marcondes, que coordena um grupo de análise de poluentes hídricos na USCS.

"O metal pesado é cumulativo no ambiente. Ao longo do tempo, toda vez que a população comer o peixe, tomar a água, vai aumentando a concentração no corpo. Isso vai trazer problema no médio, longo prazo", complementa Malu Ribeiro, especialista em recursos hídricos da SOS e coordenadora da expedição.

De acordo com resolução do Conama para rios como o Paraopeba, a concentração máxima de cobre deveria ser de 0,009 mg/l, mas em alguns pontos foram registrados mais de 4 mg/l. O metal em níveis mais elevados pode provocar náuseas e vômitos. Já o manganês foi encontrado em concentrações de até 3 mg/l, quando o limite é de 0,1 mg/l. Em quantidades altas, o metal está associado a rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza.

O cromo também está relacionado a interferências no metabolismo e efeitos mutagênicos. Sua concentração máxima deveria ser de 0,05 mg/l, mas foi encontrado em alguns pontos em mais de 2 mg/l.

Segundo Marta, análises anteriores feitas no rio pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) não apontavam essas concentrações, o que deixa claro que se trata de mais um impacto do rompimento da barragem da Vale, que contabilizava até esta terça-feira 180 mortos.

"Nós humanos ainda podemos procurar o recurso hídrico em outros mananciais, mas e os animais que dependem desse rio para sobreviver? O manganês acumulado pode levar à esterilidade. Além das mortes já causadas pela onda de lama, principalmente de peixes, os animais que sobreviveram ou que começarem a reocupar o rio quando o sedimento baixar, podem não conseguir se reproduzir", alerta a bióloga.

Os pesquisadores não conseguem estimar ainda quanto tempo deve levar para o rio conseguir depurar essa contaminação. "Mas se fizermos um paralelo com o Rio Doce (atingido pela lama da Samarco após o rompimento da barragem em Mariana), lá se passaram mais de três anos e ele ainda não se recuperou", comenta Malu, que afirma que será necessário um monitoramento permanente, além de um tratamento de água mais complexo. 

Ela faz uma ressalva de que as condições do Rio Doce em sua extensão eram piores que as do Paraopeba há três anos, principalmente pelo alto nível de degradação das matas ciliares e contaminação por esgoto. "O Paraopeba tem uma condição um pouco melhor, até porque esse trecho afetado é de manancial, usado para abastecer a Região Metropolitana de Belo Horizonte, e passa por áreas urbanas menores que o Doce, que é margeado por grandes cidades com menos saneamento. Mas ele é mais raso, tem baixo volume de água. Uma carga dessas de rejeito reduz muito sua capacidade de diluir poluentes", explica.

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