Expansão do biocombustível pode aumentar emissão de CO2

Pressão das plantações de cana e soja pode empurrar criação de gado para áreas de floresta, adverte estudo

Carlos Orsi, do estadao.com.br, e Afra Balazina, de O Estado de S. Paulo ,

08 Fevereiro 2010 | 18h00

Se não for feita com cuidado, a expansão da área plantada para elevar a produção nacional de biocombustível até 2020 pode forçar criadores de gado a avançar sobre o Cerrado e a Amazônia, gerando desflorestamento e uma consequente emissão de gases do efeito estufa que o País levaria mais de 200 anos para compensar, diz estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

 

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O trabalho, realizado por pesquisadores de instituições da Alemanha e das Nações Unidas, foi encabeçado por um brasileiro, David Lapola, que já atuou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e atualmente está no Instituto Max Planck da Alemanha.

 

"O débito de carbono significa que o biocombustível, em vez de reduzir as emissões de carbono, se comparado a combustíveis fósseis na verdade aumenta as emissões por meio de mudanças de uso da terra", explica Lapola.

 

O estudo simula cenários em que, para elevar a produção de biocombustíveis em 35 bilhões de litros até 2020, a área plantada com soja aumentaria de 191.000 km², em 2003, para até 285.000 km², em 2020. A de cana iria de 55.000 km² para 90.000 km². "A maior parte da expansão de cana-de-açúcar no Brasil, nos últimos 5 anos, ocorreu em terra previamente usada como pastagem nos Estados do Sudeste", diz o artigo. "O mesmo é verdade para mais de 90% das plantações de soja na Amazônia após (...) 2006".

 

Se esse padrão de substituição do gado por plantações que servem como fonte de biocombustível se mantiver, e a produção de carne continuar a aumentar para suprir a demanda da população crescente, os autores argumentam que serão necessários quase 3 milhões de km2 de pastagens no Brasil em 2020 - 44% a mais que em 2003 - e que parte dessa área possivelmente será subtraída do Cerrado e da Floresta Amazônica. A devastação resultante geraria emissões de CO2 que só seriam compensadas por séculos de uso de biocombustíveis.

 

"Uma possibilidade seria diminuir as exportações de carne, talvez", diz o pesquisador. "Mas também acho isso improvável, pois as exportações vêm aumentando bastante nos últimos anos e é um setor bastante lucrativo."

 

Variação proporcional estimada na área ocupada pelos tipos de vegetação e de produtividade da pecuária entre 2003 e 2020, se acordo com os dados apresentados no estudo publicado na PNAS

 

Ele explica ainda que "o tempo, em anos, para se pagar o débito de carbono varia dependendo do tipo de biocombustível". "Por exemplo, o biodiesel de dendê geraria, até 2020, um débito de carbono bem menor que o biodiesel de soja, e o tempo de pagamento também seria bem menor para o dendê, por conta do maior conteúdo de biodiesel que pode ser produzido em cada hectare, comparado com a soja", afirma.

 

As alternativas para evitar que as culturas de biocombustível acabem agravando o problema que deveriam evitar, de acordo com o artigo, seriam incentivar o uso de biodiesel de dendê em vez do de soja - "a produção no Brasil ainda é pequena e pode ser expandida para áreas sem florestas", diz o texto - ou por um aumento na produtividade da pecuária, com cada hectare sustentando mais reses, o que reduziria a pressão pela abertura de novas fronteiras para a criação de gado.

 

Apesar das dificuldades à frente, Lapola se diz otimista. "Esse problema de mudanças de uso da terra e biocombustíveis pode ser resolvido com uma intensificação da criação de gado no Brasil", afirma. "Já existe uma discussão, anterior ao artigo, no sentido de se otimizar a criação de gado no Brasil."

 

PECUÁRIA

 

Segundo o professor da Universidade de São Paulo José Goldemberg, ex-secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, já tem ocorrido um aumento da produtividade na pecuária.

 

 "No caso do Estado de São Paulo, onde 60% do total de etanol no Brasil é produzido, passou-se de 1,28 cabeça por hectare em 2001 para 1,56 em 2008", disse Goldemberg.

 

Lapoas afirma que esses números marcaram um efeito evidenciado em seu estudo: "A substituição de pastos por canaviais no Estado tem poupado os pastos mais produtivos, aqueles com mais cabeças de gado por hectare. Como resultado a intensidade média aumentou passivamente, e não como resultado de ações específicas para intensificação da criação de gado", explica.

 

Apesar da falta de estatísticas em nível nacional, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2006, havia 1,29 cabeça por hectare", diz. Assim, de acordo com ele, os dados apresentados numa das tabelas do estudo, de 0,7 cabeça por hectare, está incorreto.

 

Laopla nega que haja incorreção, afirmabdo que o estudo se vale de dados da FAO (Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). "Segundo a FAO, a extensão de pastos no Brasil é maior que a apresentada pelo IBGE, por isso a densidade de gado é menor no nosso estudo comparado aos numeros do IBGE", diz.

Goldemberg faz outras críticas ao estudo. Uma delas é que não fica claro se os autores estão cientes de que "metade da área de cana é dedicada à produção de etanol e os outros 50% para a produção de açúcar".

 

"Obviamente que sim", responde Lapolas. "O estudo considera o aumento da área de cana dedicada somente à produção de etanol".

 

O ex-secretário afirma que, atualmente, uma área de 4 milhões de hectares de cana é utilizada para produzir 25 bilhões de litros de etanol no Brasil. "Os autores afirmam que, até 2020, e uma área adicional de 5,7 milhões de hectares seria necessária para cumprir as metas de produção do governo. O aumento por ano é muito menor que as taxas de desmatamento na Floresta Amazônica, que são da ordem de 2 milhões de hectares por ano. A produção de soja e pecuária são indutores do desmatamento em si, não relacionados à expansão da cana."

 

"O estudo diz que a cana causa desmatamento indiretamente, através do deslocamento de pastos, que são realocados em regiões distantes das plantações cana (Amazonia e Cerrado), e não diretamente, como a soja e pecuária. Se a área de cana não se expandisse certamente haveria um pouco menos de desmatamento. Essa é a conclusão do estudo", aponta Lapolas.

 

AVAL AMERICANO

 

 

Goldemberg considera que o estudo não irá atrapalhar a imagem do etanol brasileiro no exterior. Ele lembra que a EPA (agência ambiental americana) classificou na semana passada o álcool produzido a partir da cana-de-açúcar como "biocombustível avançado". "O etanol reduz as emissões de gases de efeito estufa em 61% em comparação com a gasolina."

 

Ele também ressalta que o governo federal e alguns governos estaduais criaram um zoneamento ambiental que determina as áreas onde as lavouras de cana podem ser cultivadas. Além disso, as novas áreas, em cada caso, devem ser licenciadas pelos órgãos ambientais.

 

Lapola lembra que se tem se falado muito em rastrear toda a cadeia produtiva do gado. "Assim, o consumidor teria o poder de recusar carne proveniente de desmatamento, e os desmatadores seriam, mais cedo ou mais tarde, excluídos da cadeia produtiva, como aconteceu com a moratória da soja na Amazônia a partir de 2006. Se foi possível para a soja, também é possível para o gado", opina.

 

Desde o início do mês os frigoríficos, curtumes e exportadores do Pará só podem comprar gado de fornecedores que apresentarem a inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Esse é o resultado de um acordo feito entre o Ministério Público Federal do Pará e as empresas por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em julho de 2009.

 

Até agora, porém, menos de 6 mil das cerca de 110 mil fazendas do Pará (cerca de 5%) se registraram. Segundo o Greenpeace, "o cadastro é o primeiro passo para regulamentar a propriedade do ponto de vista ambiental, e o número demonstra o descaso com que uma parte do setor ainda trata a questão".

Texto ampliado às 13h43 de 9/2/2010

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