Exemplo precisa vir de cima
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Exemplo precisa vir de cima

Por mais que a pressão dos consumidores por produtos e processos sustentáveis seja relevante, as mudanças dependem sobretudo das ações institucionais e estruturais

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2022 | 08h00

O sociólogo norte-americano Everett Rogers (1931-2004) criou a Curva da Inovação após identificar um certo padrão nos processos de absorção de novas ideias e práticas pela humanidade. Ele catalogou as pessoas em cinco níveis – 2,5% de inovadores por excelência; 13,5% de early adopters, os adeptos iniciais; 34% de maioria inicial; 34% de maioria tardia; e, por fim, 16% de retardatários. Se você conhece alguém que ainda resiste ao uso do WhatsApp, por exemplo, pode incluir essa pessoa no grupo dos retardatários.

Para o especialista em marcas e consumo Jaime Troiano, da Troiano Branding, a preocupação genuína e profunda com sustentabilidade entre os brasileiros ainda está na fase dos early adopters, em transição para a maioria inicial – momento em que uma ideia deixa de estar restrita ao grupo dos “iniciados” e começa a ganhar escala. “Em teoria todo mundo é a favor da conservação do meio ambiente, mas estamos falando aqui de pessoas que realmente mantêm hábitos e fazem escolhas que possam ser considerados sustentáveis”, ele observa.

Essa ressalva é importante, pois a sustentabilidade ainda está longe de ser o principal critério das escolhas de consumo no País. “Por mais que haja um certo nível de consciência por parte dos consumidores e a inclusão da sustentabilidade na agenda dos líderes de marcas, o preço continua a ser o fator principal na decisão de compra do consumidor brasileiro”, lembra Carlos Coutinho, sócio e líder de Consumer Markets na PwC. 

Riscos financeiros

Além do mais, sustentabilidade é um daqueles típicos assuntos em que as pessoas dizem levar em consideração muito mais do que fazem na prática. O próprio Troiano constatou isso a partir de uma pesquisa que conduziu. 

Para a pergunta “você fecha a torneira enquanto escova os dentes?”, quase 70% das pessoas responderam afirmativamente. Já para a pergunta “você acha que as pessoas, em geral, fecham a torneira ao escovar os dentes?”, apenas 20% responderam que sim.

No caso da mudança climática decorrente do aquecimento global, a tendência é de que as pessoas só comecem a agir com mais efetividade a partir do momento em que se sintam ameaçadas por um risco claramente identificável e próximo. Embora a maior incidência de eventos catastróficos já esteja sendo identificada pela ciência, essa constatação continua enfrentando um alto índice de indiferença ou de negacionismo.

No caso dos governos e das empresas, os riscos parecem mais imediatos porque são de outro tipo: financeiros. Trata-se da ameaça iminente de perder negócios e investimentos. Por isso o mundo corporativo demonstra um nível de preocupação maior com as questões ambientais do que a média da população. “É justo que seja assim, porque dependemos muito mais de mudanças institucionais e estruturais do que das contribuições individuais”, observa Caroline Rocha, gerente de clima do instituto de pesquisas WRI Brasil, doutora em Direito Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP).

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Em teoria todo mundo é a favor da conservação do meio ambiente, mas estamos falando de pessoas que realmente mantêm hábitos e fazem escolhas que possam ser considerados sustentáveis
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Jaime Troiano, Especialista em marcas e consumo

Ficha limpa é essencial

Descuidos com os parâmetros ESG podem causar danos irreversíveis à reputação

Cada vez mais, as empresas e as pessoas querem saber com quem estão fazendo negócios – especialmente no que diz respeito à conformidade ambiental, social e ética, os pilares que compõem a sigla ESG. Em casos mais sensíveis, isso pode envolver uma investigação aprofundada sobre o CNPJ ou o CPF.

No ano passado, a legaltech Kronoos registrou um aumento de 468% nas pesquisas sobre as condições legais das empresas – foram 9.109 encomendas de dossiês de compliance, ante 1.602 solicitações no ano anterior. Crescimento semelhante foi registrado nas pesquisas sobre pessoas físicas envolvidas em negócios – 317%.

Os números refletem a crescente preocupação com os riscos de se relacionar com empresas ou representantes de empresas que tenham problemas em seus históricos. “Além disso, esse aumento tão expressivo se deve também à própria evolução tecnológica, que viabiliza a localização de dados complexos das mais variadas origens em questão de minutos e com custos incomparáveis em relação aos benefícios”, diz Alexandre Pegoraro, CEO da Kronoos.

Em busca de informações sobre possíveis casos de fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro, terrorismo, crimes ambientais ou emprego de força de trabalho escrava e infantil, entre outras situações, a legaltech realiza pesquisas em mais de 3.500 fontes. O processo inclui mineração de dados e crawling na Receita Federal e em Tribunais de Justiça, Diários Oficiais, Listas Restritivas, Birôs de Crédito, Dados Cadastrais, sites da ONU, Interpol e outras instituições.

Caderno Especial Brasil Verde - Carbono Zero

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