EUA e emergentes fecham acordo insatisfatório na COP

Sarkozy confirma que todos os países concordaram com texto proposto, mas documento 'não é perfeito'

estadao.com.br

18 Dezembro 2009 | 19h41

Um acordo sobre mudanças climáticas foi fechado entre os Estados Unidos e potências emergentes, nas últimas horas da Conferência do Clima da ONU, em Copenhague. Segundo o presidente da França, Nicolas Sarkozy, todos os países da Conferência do Clima concordaram com o texto proposto. "Nós temos um acordo", disse. "Mas o texto que temos não é perfeito."

 

No entanto, o presidente do Secretariado de Mudanças Climáticas da ONU, Yvo de Boer, disse que a proposta ainda precisa da aprovação formal das 193 nações em uma reunião especial. "Se isso acontecer em algumas horas, então vejo isso como um sucesso modesto. Mas nós poderíamos ter alcançado muito mais." O texto prevê a limitação do aumento de temperatura em 2º C, mas sem prever metas para países desenvolvidos.

 

O presidente americano, Barack Obama, afirmou logo após a decisão que um "avanço significativo e sem precedentes'' havia sido alcançado entre os Estados Unidos, a China e outros emergentes (Brasil, Índia e África do Sul), em um esforço global para frear as mudanças climáticas. Ele lembrou, porém, que muito trabalho ainda será necessário para chegar a um tratado juridicamente vinculativo. 

 

Veja também:

linkTexto da COP-15 não prevê prazo nem metas para acordo 

blog Blog da COP: o dia a dia na cúpula

especial COP-15, acompanhe os principais fatos

 

especial Glossário sobre o aquecimento global

especial Entenda as negociações do novo acordo 

 

"Vai ser muito difícil, e isso vai levar algum tempo'', disse Obama. "Temos um longo caminho, mas temos muito mais a fazer.''  Sarkozy adiantou que o documento falava que todos os países, incluindo a China, deverão submeter metas para reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa até janeiro de 2010. O presidente francês também falou que todos os países aceitaram a proposta para providenciar US$ 100 bilhões anuais para nações em desenvolvimento até 2020.  

 

Uma fonte do governo Obama chamou de o documento de "significativo", mas disse que ele fica aquém até mesmo das expectativas mais modestas para a cúpula do clima de Copenhague. Um funcionário do governo Obama admitiu: "não é suficiente para combater a ameaça da mudança climática."

"Nenhum país está totalmente satisfeito com cada elemento," disse a fonte. "Mas este é um passo em frente significativo e histórico e uma base da qual partir para fazer mais progressos futuros."

 

As nações chegaram a um denominador comum para que cada país informe suas emissões através de "comunicações nacionais", com possíveis consultas internacionais. Além disso, os líderes também concordaram na formação de um mecanismo de financiamento e em limitar o aquecimento global a 2º Celsius.

 

 

O negociador da delegação brasileira Sergio Serra falou com jornalistas logo após a partida do presidente Lula de Copenhague. "Depois de uma negociação bastante intensa, e de consultas a assessores, chegou-se a uma redação que acabou sendo aceita", disse. "Não será o resultado que todos esperávamos, porque muita coisa deverá ser deixada para uma reunião ou uma série de reuniões que ocorrerão no ano que vem."

O acordo foi selado após um momento dramático em que Obama entrou sem avisar em uma reunião dos líderes chineses, indianos e brasileiros, de acordo com funcionários do governo. Houve protesto dos negociadores chineses protestaram, e Obama disse que não queria que eles negociassem em segredo. A invasão levou a novas negociações que consolidou termos-chave do negócio, segundo o New York Times.

O negociador brasileiro Sergio Serra confirmou ao jornal americano que Obama tinha "se juntado" a uma reunião de brasileiros com funcionários indianos, chineses e outros, embora não tenha dito que Obama entrou sem ser convidado.

"Depois de várias discussões o presidente Barack Obama se juntou a nós", disse Serra. "Várias decisões importantes foram tomadas, que esperamos que venha trazer um resultado - se não o que nós esperamos - que pode ser uma maneira de salvar alguma coisa e abrir o caminho para uma outra reunião ou série de reuniões para recomeçar o resultado completo do presente processo."

Acredita-se que o novo acordo siga as previsões de um rascunho que estava circulando em Copenhague na noite passada. Neste projeto, os países desenvolvidos se comprometeriam com uma meta de longo prazo de redução de 80% das suas emissões de gases de efeito estufa até 2050. Nenhum alvo específico a médio prazo foi definido.

O rascunho de ontem derrubava a tese do esboço anterior, que dizia que um acordo vinculativo deveria ser atingido "o mais rapidamente possível", no máximo até a próxima reunião, na Cidade do México em novembro de 2010. Em vez disso, o texto não definia nenhum prazo específico, dizendo apenas que o acordo deve ser revisto e posto em prática em 2016.

O texto incluiu também alguns números sobre os cortes rígidos de 50% das emissões até 2050. Ele incluiu uma dezena de pontos enumerados afirmando um compromisso geral dos países com a idéia de que "a mudança climática é um dos maiores desafios do nosso tempo" e afirmou que "cortes profundos" nas emissões globais são necessários. Ele também sugeria a verificação dos compromissos de emissões pelos países em desenvolvimento e estabelecer um organismo para avaliar as contribuições financeiras dos países ricos para ajudar os países pobres a se adaptarem às alterações climáticas e limitar as suas emissões.

Sexta de manhã, o presidente Obama, falando aos líderes do mundo reunidos na plenária, convidou todos a chegarem a um acordo - não importa se imperfeito - para enfrentar o aquecimento global e verificar se os países estão em conformidade com o corte das emissões prometido.

Seus comentários pareceram uma alusão à resistência da China sobre a questão da vigilância, que provou ser um obstáculo teimoso nas negociações e uma fonte de tensão entre a China e os Estados Unidos, os dois maiores emissores de gases de efeito estufa.

Depois de fazer o discurso para uma plenária de 119 líderes mundiais, Obama se reuniu com o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, em uma sessão privada de uma hora que um funcionário da Casa Branca descreveu como "construtiva".

No entanto, em um dia de altas expectativas, Wen não compareceu a duas reuniões menores e improvisadas que Obama e representantes dos Estados Unidos realizaram com os líderes de outras potências mundiais, um gesto de indiferença que desagradou negociadores americanos e europeus e acrescentou mais incerteza ao processo. Às 19h (de Copenhague), Obama e Wen se encontraram novamente, reunidos pelo primeiro-ministro indiano Mammoghan Singh, e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

(Com informações do The New York Times e Reuters)

 

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.