AFP
AFP

EUA descartam novo tratado climático na conferência de Paris

John Kerry disse que Washington não deseja que COP 21 resulte em acordo que substitua Protocolo de Kyoto

Andrei Netto, Correspondente

12 Novembro 2015 | 23h10

PARIS - A 18 dias da abertura da 21º Conferência do Clima (COP 21) das Nações Unidas, o secretário de Estado americano, John Kerry, descartou nesta quinta-feira, 12, que o evento vá resultar em um acordo obrigatório, na forma de um tratado para limitar o aumento médio da temperatura na Terra. A declaração é uma ducha de água fria nas expectativas de sucesso da conferência, porque o que se esperava até aqui era um acordo internacional, à imagem do Protocolo de Kyoto, que obrigasse governos a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A declaração de Kerry foi feita em entrevista ao jornal Financial Times. O secretário de Estado afirmou que a COP 21 deve decidir pelo investimento de "montantes significativos" na luta contra o aquecimento global, mas descartou que haja um caráter obrigatório no documento.

"Definitivamente não será um tratado", disse Kerry, reforçando a seguir que "não será um acordo legalmente obrigatório de metas redução de emissões como Kyoto". O Protocolo de Kyoto foi firmado na 3ª Conferência do Clima (COP 3), realizada no Japão em 1997.

Dezoito anos depois, é um acordo com a mesma força legal que a comunidade internacional negociará na COP 21, que será realizada e Paris a partir de 30 de outubro. Por isso as declarações de Kerry geraram estranheza e críticas na França, país-sede do evento, cujo governo terá a missão de intermediar as negociações diplomáticas. Ainda pela manhã, o chanceler francês, Laurent Fabius, lamentou a declaração do americano. "Eu creio que é uma formulação que poderia ser mais feliz", disse o ministro em tom diplomático. "O fato de que um certo número de disposições deverá ter efeito prático e ser legalmente vinculante é óbvio. Logo, não vamos confundir as coisas, o que talvez Kerry tenha feito."

Mais tarde coube ao presidente da França, François Hollande, demonstrar as divergências entre a expectativa dos Estados Unidos e a da União Europeia. "Se um acordo não for legalmente vinculante, não haverá um acordo, porque isso significaria que seria impossível verificar e controlar os compromissos que serão assumidos", justificou o chefe de Estado francês, advertindo para as dificuldades nas negociações. "Eu sei o quanto é difícil, mas nós devemos dar ao acordo de Paris, se jamais houver um acordo, um caráter obrigatório no sentido de que os engajamentos que serão assumidos devam ser respeitados."

À noite, a Casa Branca não quis comentar a polêmica entre os dois governos.

Nas últimas semanas, uma atmosfera de otimismo pairava sobre as reuniões preparatórias da COP 21, a tal ponto que chefes de Estado e de governo de 117 países - inclusive Barack Obama, presidente dos Estados Unidos - confirmaram presença em Paris para a abertura do evento.

Na segunda-feira, Christiana Figueres, secretária-executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (UNFCCC), reiterou ao Estado que "haverá um acordo" em Paris - mas ainda resta saber a sua amplitude. Dados da ONU indicam que as metas nacionais de cortes voluntários nas emissões de gases de efeito estufa seriam suficientes apenas para conter o aquecimento médio da temperatura na Terra a 2,7ºC até 2100. Esse patamar fica além do limite de 2ºC, considerado mais seguro pela comunidade científica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.