Estudos focam doenças tropicais

Plantas e animais são esperança contra Chagas, leishmaniose e malária

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2008 | 22h09

Avanços da Bioprospecção   A biodiversidade brasileira pode não ser a farmácia a céu aberto que muito já se alardeou - talvez esteja mais para agulha no palheiro -, mas certamente esconde riquezas que podem, sim, trazer soluções para doenças ainda sem tratamento. Para encontrá-las, porém, é preciso saber procurar. O conhecimento tradicional é de grande valia, como mostram os estudos com antimaláricos, mas ele é fonte de apenas parte dessas respostas. É preciso investigar a fundo a biologia de plantas e animais, entender seus modos de ação na natureza e aprender com eles antes mesmo de pensar em achar uma nova droga. É um processo de garimpo biológico, que, como tal, é demorado, pede paciência, muita pesquisa e investimentos pesados. Os textos abaixo mostram alguns resultados promissores obtidos em universidades e institutos do País.         Veja também: Especial completo sobre biodiversidade Biodiversidade, essa desconhecida Droga contra câncer em teste Para vasculhar a Amazônia, quanto mais coleta, melhor Peixe venenoso pode render antiasmático para grávidas Múltiplas ações na vegetação paulista O duro caminho até a indústria Remédios que vêm das toxinas Reinventar relações respeitosas Proposta de nova lei segue sem acordo Natureza inspiradora   Plantas e sapos da caatinga e árvores da Amazônia estão se mostrando eficazes contra agentes infecciosos causadores de doenças características das regiões onde eles vivem: leishmaniose, doença de Chagas e malária. Pelo menos três pesquisas identificaram substâncias capazes de matar ou inibir a ação dos protozoários e que podem ser candidatas para novas drogas.   O trabalho mais avançado envolve uma planta encontrada no semi-árido conhecida como camapu ou mata-fome (Physalis angulata). Pesquisadores da Fiocruz-Bahia, liderados por Milena Soares, isolaram esteróides que se mostraram ativos contra o protozoário leishmânia e desenvolveram um medicamento de uso tópico que pode vir a ser utilizado contra a forma mais comum da doença, a cutânea.   Segundo Milena, a eficácia do produto já foi comprovada nos testes pré-clínicos em animais. Agora a equipe investiga sua segurança, ao mesmo tempo em que faz a propagação da molécula, para que não seja necessário extraí-la da natureza. Os pesquisadores estão empolgados porque não existem bons medicamentos contra a leishmaniose. "As drogas que temos hoje são antigas, de baixa eficácia e alta toxicidade. São necessárias várias injeções intramusculares que são muito dolorosas", diz.   Não tão adiantado, mas também promissor, é o trabalho feito por pesquisadores dos Institutos Adolfo Lutz e Butantã com o sapo cururu (Rhimella jimi). Na secreção da pele do animal, eles encontraram dois esteróides também capazes de matar a leishmânia - um deles destrói ainda o Trypanosoma cruzi (causador da doença de Chagas). Ambas não se mostraram tóxicas a células de mamíferos.   As moléculas já eram conhecidas em plantas da região, mas nunca haviam sido observadas no anfíbio ou testadas contra os dois protozoários. Provavelmente, foram incorporadas no animal pela alimentação, mas os pesquisadores ainda não sabem se o sapo faz uso desses esteróides para sua proteção.   "Mas, se pensarmos como o animal vive, é de esperar que encontremos boas soluções. O ambiente seco da caatinga vai contra a biologia do anfíbio, que pede água em parte da sua vida. As adaptações pelas quais teve de passar para poder viver fazem com que seja muito eficiente. Quanto mais inóspito o local onde vive, mais interessantes são suas moléculas", diz o biólogo Carlos Jared, do Butantã.   Segundo o pesquisador André Gustavo Tempone, do Adolfo Lutz, principal autor do estudo recém-publicado na revista Toxicon, o instituto tem como foco as chamadas doenças negligenciadas. "Não vamos parar na divulgação desses resultados. As moléculas são modelos interessantes. Agora queremos sintetizá-la, testando outros desenhos que possam ser ainda mais eficientes. Se conseguirmos, aí podemos passar para testes com animais", explica.   BUSCA DE ANTIMALÁRICO   Em outra linha, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia estão checando a real eficácia de plantas tradicionalmente usadas por comunidades amazônicas para o alívio dos sintomas da malária. E têm encontrado uma taxa de sucesso considerável: "Cerca de um terço das plantas indicadas pela população já mostrou em laboratório alguma atividade contra o plasmódio", conta o químico Adrian Pohlit. Em buscas aleatórias, a chance de encontrar algum efeito contra uma doença costuma ser de menos de 1%.   Mas isso não quer dizer que todas essas plantas sirvam para tratar a doença. Algumas são muito fracas. Outras, muito tóxicas. As mais promissoras tiveram os princípios ativos isolados, que agora estão sendo modificados para se tornarem mais eficientes. Uma delas, que Pohlit preferiu não revelar, já gerou um composto forte, que deve seguir para testes em animais.

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