Estudo americano descarta 'hiato' no aquecimento global

Pesquisadores da Agência Oceânica e Atmosférica afirmam que não há desaceleração do aumento da temperatura no planeta neste século como apontou painel climático em 2013

Das agências internacionais

04 Junho 2015 | 18h14

SÃO PAULO - Um estudo feito por pesquisadores da Agência Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, sugere que a desaceleração do aquecimento global apontada em recentes relatórios climáticos "é uma ilusão". A partir de dados atualizados, o relatório divulgado nesta quinta-feira, 4, na revista Science afirma que não encontrou nenhuma ruptura na tendência de aumento da temperatura na superfície da terra. 

Em 2013, o quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), apontou a existência de um "hiato" no aquecimento da terra desde cerca de 1998, destacando que a temperatura não teria aumentado nas últimas décadas, apesar do crescimento das emissões humanas de gases de efeito estufa. A tese forteleceu o grupo de pesquisadores que nega o fenômeno climático. 

Baseado em uma nova análise de dados de temperatura em todo o mundo, o novo estudo na Science afirma não ter encontrado nenhuma pausa no aquecimento. O relatório afirma que a taxa de aumento de temperatura entre 2000 e 2014 foi 0,116 grau Celsius a cada dez anos, ante 0.113 grau por década entre 1950 e 1999. Para o pesquisador Thomas Karl, um dos autores do estudo, os dados mostram que há um aquecimento "aparente" da superfície da terra de "alguns centésimos de um grau Celsius" por década durante este século. 

"Não há nenhum diminuição discernível na taxa de aquecimento entre a segunda metade do século 20 e os primeiros 15 anos do século 21", afirma o estudo, que usou bóias flutuantes não-tripuladas para medir a temperatura do mar nos últimos anos. Para os pesquisadores, isso pode ter levado à subestimação do aquecimento do oceano uma vez que água medida pela bóia é, em média, 0.12 graus Celsius mais fria do que a medida por navios antigamente, porque o calor dos motores distorciam os termômetros. 

Foi graças às recentes melhorias nos dados observados e a existência de novas conclusões, incluindo recorde de calor no mundo registrado em 2014, que os especialistas reavaliaram a suposta pausa no aquecimento global. Eles disseram que, além de melhorias nas medições ocorridas desde o relatório do IPCC, as análises mostraram que a cobertura incompleta no Ártico no relatório de 2013 levou a subestimar o aquecimento recente. "Podemos estar falando de aquecimento mais rápido do que na última parte do século 20", afirma Karl. 

Outros especialistas disseram, no entanto, que apesar dos novos dados a idéia de um hiato ainda é válida, uma vez que o aquecimento desacelerou neste século se comparado às taxas das décadas de 1980 e 1990, quando o aumento da temperatura por década foi maior. "É curioso que uma comparação com essas décadas não foi incluído neste novo estudo", disse Richard Allan, professor de ciência climática na Universidade de Reading, no Reino Unido. 

Thomas Stocker, um cientista suíço que co-liderou o relatório da ONU em 2013 que detectou o hiato, advertiu que é difícil de definir causas exatas do aquecimento durante curtos períodos devido a grandes oscilações naturais.

Nesta semana, os governos de vários países estão reunidos em Bonn, na Alemanha, para discutir os termos de um novo acordo da ONU para conter o aquecimento globol, previsto para ser concluído em dezembro, em Paris.

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