Alex Silva/Estadão
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Estudo internacional revela ligação entre carne brasileira e desmatamento da Amazônia

Mapeamento da plataforma Trase estima que demanda interna e externa pelo produto levou ao desmate de até 5.800 km² por ano entre 2015 e 2018; carne para exportação responde por cerca de 13% da perda florestal

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 11h42
Atualizado 18 de setembro de 2019 | 13h25

SÃO PAULO - A demanda nacional e mundial por carne brasileira levou ao desmatamento de até 5.800 km² (cerca de 3,8 cidades de São Paulo) por ano, entre 2015 e 2017, na Amazônia. E cerca de 13% a 14% disso foi ligado às exportações para locais como Hong Kong, China e Rússia.

É o que mostra uma análise do risco de desmatamento provocado pela exportação de carne conduzido com base no mapeamento da cadeia de suprimento. O trabalho - feito pela plataforma Trase, um projeto dos institutos de pesquisa Global Canopy e Stockholm Environment - considera o caminho desde que o animal é criado até o alimento chegar ao consumidor final.

O Stockholm Environment Institute faz estudos sobre mudanças climáticas e uso da terra com objetivo de ajudar em políticas públicas. Já o Global Canopy é mais focado em florestas tropicais e nas cadeias de suprimentos dos alimentos que acabam sendo produzidos após o desmatamento.

A ideia é analisar quem está na ponta, consumindo os produtos gerados com a perda de vegetação. A Trase é uma ferramenta de transparência focada em avaliar o risco para a floresta das cadeias de suprimento. Essa mesma análise já tinha sido feita no ano passado para a soja.

O trabalho fez a ligação entre os cerca de 3 mil municípios onde o gado é criado no Brasil e por onde as pastagens estão se expandindo com mais de 200 empresas que exportam carne, gado vivo e miúdos (como fígado). Do outro lado, estão cerca de 3 mil companhias que importam esses produtos para 150 países.

"Fazendo o link entre onde o gado é criado com onde é comprado, identificamos entre 650 km² e 750 km² de risco de desmatamento por ano. Isso somente para a exportação, não para o mercado doméstico", disse ao Estado Erasmus zu Ermgassen, pesquisador da Trase e da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.

"O Brasil exporta cerca de 19% a 20% de sua carne, e descobrimos que isso está ligado a cerca de 13% a 14% de todo o desmatamento relacionado à produção de gado. A maior parte é ligada ao consumo local. O mercado doméstico compra cerca de 80% da carne produzida no País e está ligado a algo entre 85% e 86% do desmatamento associado à produção de gado."

Hong Kong é o maior importador (23%), seguido pela China continental (15%). O Egito responde por 10,6% do mercado externo de carne brasileira, a Rússia por 10,1% e o Irã por 9,1%.

O trabalho revela que as vendas para Hong Kong estiveram ligadas a 27% do risco de desmatamento associado às exportações  - com sua cadeia de suprimentos associada a cerca de 180 km² de floresta desmatada. O risco de desmatamento para Hong Kong foi maior que para a China continental, porque Hong Kong obtém mais carne bovina da região amazônica, de acordo com a análise.

Já a China compra mais de fornecedores do sul do País, de Estados como São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. A Rússia, que foi o quarto maior importador de carne brasileira em 2017, ficou com o terceiro maior risco de desmatamento, associado a uma perda de cerca de 100 km² de floresta.

Atualmente, a União Europeia compra gado de várias regiões, com maiores quantidades provenientes dos Pampas, no Sul do País, do sul do Cerrado e ao redor da zona de transição Amazônia-Cerrado na região Oeste. Entre 2015 e 2017, as importações de carne bovina da UE foram vinculadas a um de risco de desmatamento por ano de algo entre 29 e 36 km² .

Papel dos frigoríficos

A ideia foi mapear de onde vem a carne que esses países estão comprando - de quais biomas e Estados -, mas também quem está vendendo o produto. A análise mostra que cerca de 2/3 das exportações são feitas por três companhias - JBS, Marfrig e Minerva. Considerando suas companhias subsidiárias, elas podem responder por quase 80% das exportações de carne do Brasil.

Maior empresa de frigoríficos do mundo, a JBS, responsável por exportar 29% da carne que vai para o exterior, segundo o estudo esteve ligada a 36% de toda a perda florestal ligada às exportações de carne bovina entre 2015 e 2017 (240 km²).

A Minerva, responsável por 15,8% das exportações esteve associada com 15,5% do desmatamento (102 km²). Já a Marfrig, que viu sua fatia das exportações crescer de 12% para 15% entre 2015 e 2017, também teve um aumento de associação ao risco de desmatamento de 10% a 15%.

O dado contrasta com o fato de que as três empresas assinaram um acordo em 2009, que envolveu também o Ministério Público Federal e produtores de gado da Amazônia, por um compromisso com o desmatamento zero. A ideia era mapear os fornecedores para que os frigoríficos não comprassem carne proveniente de gado criado em área desmatada.

Procurada, a Marfrig informou, por nota, que é "um equívoco concluir, a partir dos dados da Trase, que há vínculo entre o gado comprado pela Marfrig e o desmatamento na região".

A empresa afirmou que desenvolveu e implementou uma plataforma de geomonitoramento que é auditada pela companhia norueguesa DNV.GL e que, com ela, "mitiga substancialmente o risco de aquisição de animais provenientes de desmatamentos - usando, desde 2009, o critério de desmatamento zero para o bioma Amazônia".

"A companhia assegura que não havia situação de desmatamento nas fazendas fornecedoras de animais, nas respectivas datas de compra."

Já a Minerva informou, por nota, que um relatório divulgado em julho pela auditoria externa Grant Thornton "atestou que a empresa cumpre 100% o Compromisso Público de Pecuária Sustentável, firmado em 2009, para garantir as práticas aplicadas no combate ao desmatamento da floresta amazônica, ao uso de mão-de-obra análoga à escrava, como também respeito às terras indígenas e áreas de conservação na região da Amazônia."

Disse ainda que o estuda da Trase "não afirma que a Minerva Foods adquire suprimentos produzidos nessas áreas de risco."

Por sua vez, a JBS disse, também em nota, que "mantém compromisso de combater, desencorajar e eliminar o desmatamento na Amazônia" e que tem uma "uma política de desmatamento zero na região

"Proibimos a entrada de gado de fazendas com desmatamento em nossa cadeia de fornecimento", afirmou a maior empresa frigorífica do mundo.

A JBS destacou que seu sistema de monitoramento no bioma Amazônia abrange mais de 450 mil km², "praticamente a área do território da Alemanha".

"O sistema e toda a compra de gado da JBS na região amazônica é auditado de forma independente pela DNV GL, empresa global de auditoria e certificação de socioambiental com sede na Noruega", explicou. "A auditoria mais recente, em 2018, confirmou que 100% de nossas compras de gado estavam em conformidade com nossas políticas de compra responsável."

O Estado também procurou a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que afirmou que "repudia qualquer prática que possa incorrer no desmatamento ilegal ou em queimadas no território nacional e, em especial, na Amazônia".

"Práticas contrárias à legislação ou que infringem o compromisso do setor em promover a pecuária sustentável não refletem o modelo de produção preconizado pela Abiec, instituição que congrega 31 empresas responsáveis por 92% das exportações brasileiras de carne bovina."

Leia as notas completas no fim da reportagem.

Brechas no processo

Historicamente, a abertura de novas áreas para a colocação de pasto foi e ainda é o principal motor do desmatamento da Amazônia e o acordo de 2009 foi uma política importante para ajudar a conter isso.

O estudo da Trase aponta, porém, que há brechas nesse processo. Em geral, apontam os pesquisadores, as empresas conseguem controlar seus fornecedores diretos, aqueles que vendem para elas a carne, mas a cadeia é bem mais complexa. Há fazendas onde os animais nascem, outras onde eles engordam, para só depois serem vendidas para o abate. É nesse caminho que pode estar o problema, dizem.

"Nós sabemos que o acordo foi implementado, mas parcialmente. As companhias só monitoram seus fornecedores diretos, os fazendeiros que venderam para elas o gado, mas não de quem esse fazendeiro comprou os animais. Monitorar o fornecedor direto é apenas a ponta do iceberg", explica Ermgassen. "Desse modo, o sistema completo de monitoramento acaba não sendo implementado. Isso acaba gerando um ponto cego", complementa o pesquisador.

O trabalho considerou o risco de desmatamento duas maneiras: foram analisamos os dados de movimentação animal, incluindo os fornecedores indiretos; e foram também mapeados os municípios de onde as empresas compram e quanto.

"Isso permite medir o desmatamento acontecendo nos locais de onde eles estão comprando, em vez de só avaliar a pessoa de quem eles compram diretamente. Isso acaba incluindo o desmatamento que ocorre no entorno de suas plantas, nos locais onde compram gado e onde todos os fornecedores indiretos estão", diz.

Confira a íntegra das notas divulgadas por Marfrig, Minerva e Abiec:

Marfrig

"A Trase é uma plataforma de analisa áreas de risco em florestas tropicais com a produção de commodities e suas conexões, usando informações oficiais disponíveis. E toda produção estabelecida no bioma Amazônia - por natureza - é de risco. Porém, seria um equívoco concluir, a partir dos dados da Trase, que há vínculo entre o gado comprado pela Marfrig e o desmatamento na região. Justamente por entender que há risco e que as informações da Trase prestam relevantes serviços à preservação dos biomas, a Marfrig desenvolveu e implantou sua plataforma de geomonitoramento. Esse sistema é auditado por uma terceira parte independente - a norueguesa DNV.GL. Com o uso dessa plataforma, e conhecendo as conexões realizadas pela Trase, a Marfrig mitiga substancialmente o risco de aquisição de animais provenientes de desmatamentos - usando, desde 2009, o critério de desmatamento zero para o bioma Amazônia. O sistema de geomonitoramento e cruzamento de dados da Marfrig, assegura nossa política de compras. Essa política não permite a aquisição de animais provenientes de áreas desmatadas (desmatamento zero na Amazônia, dados Prodes), de unidades de conservação, de terras indígenas, de áreas embargadas pelo Ibama ou de fornecedores que usem mão de obra análoga à escravidão (presentes na lista suja do trabalho escravo, elaborada pela Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia).

A plataforma da Marfrig cruza todas as informações oficiais disponíveis e, caso seja detectada qualquer não conformidade, a compra é suspensa e o fornecedor é bloqueado. Nos últimos sete anos consecutivos, a DNV-GL atestou 100% de conformidade e aderências aos critérios de compra sustentável por parte da Marfrig. Portanto, a companhia assegura que não havia situação de desmatamento nas fazendas fornecedoras de animais, nas respectivas datas de compra, uma vez que o sistema de geomonitoramento cruza as imagens do polígono de cada fazenda com via satélite do Prodes-INPE."

Minerva

A Minerva Foods, líder em exportação de carne bovina na América do Sul e uma das maiores empresas na produção e comercialização de carne in natura e seus derivados no Brasil, reforça mais uma vez seu compromisso com o desenvolvimento sustentável da cadeia agropecuária com a total conformidade de sua atuação no Bioma Amazônia. Relatório divulgado pela auditoria externa Grant Thornton, em julho deste ano, atestou que a empresa cumpre 100% o Compromisso Público de Pecuária Sustentável, firmado em 2009, para garantir as práticas aplicadas no combate ao desmatamento da floresta amazônica, ao uso de mão-de-obra análoga à escrava, como também respeito às terras indígenas e áreas de conservação na região da Amazônia.

As compras de gado realizadas pela Minerva Foods no Bioma Amazônia, assim como em outros biomas, são 100% feitas em fazendas monitoradas, por meio de mapas georreferenciados, o que assegura que todos os fornecedores estejam de acordo com rigorosos critérios socioambientais. Para a rastreabilidade integral da cadeia, os sistemas de monitoramento da Companhia são cruzados com listas oficiais do Ibama, do Ministério do Meio Ambiente, da Secretaria do Trabalho e do registro pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR), como também de outros documentos de posse da terra. Caso seja identificada qualquer irregularidade, o departamento de sustentabilidade da Companhia bloqueia os fornecedores em não conformidade com qualquer um dos critérios, eliminando a possibilidade de compra de matéria-prima de tais produtores. Atualmente monitoramos por conta própria mais de 7.000 fornecedores no bioma Amazônia, compreendendo uma área total de mais de 9 milhões de hectares, uma região equivalente ao território de Portugal.

Adicionalmente, desde junho de 2019, a Minerva Foods integra a Mesa Global de Carne Sustentável, a Global Roundtable for Sustainable Beef (GRSB, sigla em inglês). Composta por especialistas, acadêmicos e grandes companhias de quatro continentes, a GRSB tem como objetivo compartilhar práticas de gestão e manter um diálogo construtivo sobre os caminhos da indústria global. Como nova integrante, a Minerva Foods aprimora a representatividade do continente Sul-Americano, que é o maior produtor de carne no mundo, em discussões globais.

A respeito do relatório da plataforma TRASE, um projeto dos Institutos de Pesquisa Stockholm Environment Institute e Global Canopy, é importante observar que o documento não afirma que a Minerva Foods adquire suprimentos produzidos nessas áreas de risco. Reforçamos nossos passos em questões importantes para o clima regional e global, proteção ambiental e finalidade social.

JBS

A JBS mantém compromisso de combater, desencorajar e eliminar o desmatamento na Amazônia. Temos uma política de desmatamento zero na região e proibimos a entrada de gado de fazendas com desmatamento em nossa cadeia de fornecimento.

Por quase uma década, monitoramos nossa cadeia de fornecimento com tecnologia de imagens de satélite, dados georreferenciados das fazendas fornecedoras e registros oficiais do governo para garantir a conformidade com nossas rigorosas políticas de compra responsável.

O sistema de monitoramento da JBS no bioma Amazônia abrange mais de 450.000 km² (ou 45 milhões de hectares), praticamente a área do território da Alemanha, e avalia mais de 50.000 potenciais fornecedores de gado todos os dias. Em todos esses anos de funcionamento, mais de 7.000 fornecedores de gado foram bloqueados pelo sistema de monitoramento por situações de não conformidade.

O sistema e toda a compra de gado da JBS na região amazônica é auditado de forma independente pela DNV GL, empresa global de auditoria e certificação de socioambiental com sede na Noruega. A auditoria mais recente, em 2018, confirmou que 100% de nossas compras de gado estavam em conformidade com nossas políticas de compra responsável.

A JBS trabalha para aprimorar os padrões do setor, por meio de diálogo aberto e engajamento de todas as partes interessadas para melhorar a sustentabilidade ao longo de toda a cadeia de valor da indústria, além de tomar ações incisivas em caso de não conformidade socioambiental.

Abiec

"A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) repudia qualquer prática que possa incorrer no desmatamento ilegal ou em queimadas no território nacional e, em especial, na Amazônia. A pecuária brasileira tem se pautado ao longo dos anos pela sustentabilidade em toda cadeia produtiva e prima pela qualidade e segurança dos alimentos. 

Práticas contrárias à legislação ou que infringem o compromisso do setor em promover a pecuária sustentável não refletem o modelo de produção preconizado pela Abiec, instituição que congrega 31 empresas responsáveis por 92% das exportações brasileiras de carne bovina. O Brasil possui uma das mais rígidas e rigorosas legislações ambientais do mundo, que determina, entre outras normas, a obrigatoriedade de produtores rurais preservarem de 20% a 80% de matas nativas dentro de suas propriedades, dependendo do bioma. Dessa forma, ressaltamos a confiança na implementação de medidas de combate a práticas ilegais de desmatamento e na identificação e punição dos responsáveis por tais ações. A Abiec destaca os constantes investimentos em tecnologia e práticas mais modernas e sustentáveis de produção no Brasil e que tem resultado em mais produtividade e evolução do uso de áreas de pastagens pela pecuária sendo que nos últimos 28 anos, o uso dessas áreas recuou 15% enquanto a produtividade cresceu 176%.

Fonte: Athenagro com dados de Agrosatélite, IBGE, Inpe/Terraclass, Lapig, Prodes, Rally da Pecuária, Map Biomas"

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