Estudantes da FGV visitam Belo Monte e Jirau

Disciplina buscou aliar modelo de negócios e interesse humano nas populações do entorno

Fernanda Fava, estadao.com.br

25 Junho 2010 | 18h24

Os estudantes da disciplina de Formação Integrada para a Sustentabilidade, oferecida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para os cursos de graduação em Economia, Direito, Administração de Empresas e Administração Pública, tiveram um desafio real neste semestre: como aliar as expectativas de negócios com os interesses humanos e pessoais em casos como a construção das usinas de Jirau e Belo Monte, no Pará. Os 18 estudantes que participaram da disciplina tiveram a oportunidade de visitar alguns municípios dos entornos dessas obras, conversar com pessoas da população , observar as questões sociais e ambientais envolvidas.

 

Na quinta-feira, 24, eles apresentaram suas impressões e sugestões para uma banca composta de gestores ligados às áreas socioambiental e de comitê de créditos de instituições financeiras. "Foi uma surpresa bastante positiva para nós", diz a pesquisadora da FGV Érica Gallucci, coordenadora da disciplina. "Os estudantes conseguiram aliar a expectativa de negócios dos gestores e o aspecto humano que observaram em campo, articulando essas questões numa possível conciliação."

 

A criação de um modelo de negócios abrangente e moderno partiu de um método de ensino também inovador. Os estudantes da disciplina de Formação Integrada para a Sustentabilidade trocaram as denominações "professor" e "aula, para outras que sugerissem um contato direto e não hierárquico da turma. "Começamos por rever a dicotomia entre professor e aluno. Nessa disciplina, ambos ensinam e aprendem ao mesmo tempo", explica Leeward Wang, de 23 anos, estudante da graduação em Administração Pública.

 

"O tema de Belo Monte e Jirau foi escolhido por uma demanda das empresas e dos bancos em conhecer mais sobre esses projetos, por causa do momento atual, e um interesse da FGV em se aprofundar no assunto", conta Érica. Antes da experiência em campo, o grupo recebeu diversos convidados durante os encontros da turma, entre eles antropólogos e artistas, num formato transdisciplinar. "Foi uma preparação para nos colocarmos na posição das pessoas, saber ouvi-las sem preconceitos, exercitar a suspensão dos pressupostos", explica Wang. "Foi um grande desafio, a partir do momento em que você enxerga a realidade do local e o que vai acontecer com ela, você vê que é complicado."

 

Por meio de entrevistas com moradores locais e trabalhadores, os estudantes chegaram à conclusão de que a comunidade não está sendo ouvida. E de que é possível manter os interesses financeiros da obra e ainda adicionar ao desenvolvimento da população local. "Tentamos fazer uma análise não só a partir da intelectualidade, mas também a partir das pessoas. Isso não é uma desvalorização do intelecto, mas uma aproximação", explica João Sabino, de 25 anos, também estudante de Administração Pública. "A chave é a formação de lideranças mais responsáveis, que vão ouvir as pessoas, escutar de que elas precisam e apostar na construção coletiva de soluções em conjunto com essas pessoas."

 

Sabino lembra que, na região onde será construída a usina de Jirau, a massa populacional cresceu muito com a chegada dos trabalhadores na obra, numa área de infraestrutura mínima. "Nas escolas, onde uma turma tinha 20 alunos, hoje tem 60. A violência aumentou muito também", conta.

 

Para muitos alunos, a experiência foi a chance de se aproximar mais da questão da sustentabilidade. O próprio Sabino admite que, antes, estava mais ligado à consciência política. "O tema da sustentabilidade me apresentou uma transformação que está acontecendo e vai acontecer na forma de fazer as coisas na sociedade", diz.

 

"Esse novo cenário se constitui numa mudança no mundo e nas pessoas, numa busca de novos modelos econômicos e de gestão para substituir outros, seculares, que já não suprem as necessidades da nossa sociedade hoje", acrescenta Wang. "Significa utilizar esses modelos seculares, mas ainda assim ter ousadia de colocar em prática novas ideias."

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