Estrutura do atol é 100% biológica

Recife incrustado no topo de uma montanha de 4 mil metros foi todo construído por algas e outros organismos vivos

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo,

25 Setembro 2012 | 22h30

A formação do Atol das Rocas é uma história que exige no mínimo três disciplinas para ser contada: geologia, oceanografia e biologia. O atol fica no topo de um monte submarino de origem vulcânica, de aproximadamente 4 mil metros de altitude (mil metros a mais que o Pico da Neblina, a montanha mais alta do Brasil na superfície). Mas sua estrutura não é vulcânica. Tudo que se vê e se toca em Rocas é de origem biogênica, construído por organismos vivos.

O atol é essencialmente um recife circular que começou a se formar mais de 5 mil anos atrás, crescendo como uma coroa ao redor do pico da montanha, que hoje está 25 metros abaixo da superfície, segundo o pesquisador Ruy Kikuchi, do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia. "Para crescer até atingir o nível do mar, deve ter levado cerca de 4 mil anos. E para tomar o formato de anel fechado, mais uns mil anos", estima ele, com base em amostras de sedimento extraídas do interior do atol.

Os principais responsáveis pela construção do recife, curiosamente, não foram os tradicionais corais, que são minoria em Rocas. Cerca de 70% da obra foi realizada por algas coralinas incrustantes, que têm a mesma capacidade para precipitar carbonato de cálcio da água do mar.

O atol, nesse sentido, pode ser visto como uma grande comunidade rígida de algas coralinas em forma de estádio de futebol, dentro e ao redor da qual vivem outros organismos marinhos.

A área do atol é de 5,5 km², suficiente para acomodar cerca de 70 Maracanãs. Ainda assim, é um dos menores atóis do mundo, e o único do Atlântico Sul. "Poucos montes submarinos estiveram em profundidade ideal para acumular carbonato de cálcio tempo suficiente para formar um anel recifal no entorno de elevações", explica Kikuchi.

A cadeia de montanhas submersas à qual ele pertence estende-se numa linha oeste-leste desde a costa do Ceará até Fernando de Noronha, que é o topo emerso do último monte – e que poderá, também, se transformar em um atol no futuro, com mais alguns milhares de anos de erosão e subsidência, processo pelo qual o assoalho oceânico "afunda" à medida que resfria e fica mais pesado, puxando o topo das montanhas oceânicas para baixo. "Rocas pode ser o amanhã de Noronha", avisa Kikuchi.

Milhões de anos atrás, quando o nível do mar chegou a estar mais de cem metros abaixo do nível atual, o topo da montanha de Rocas estava na superfície e é possível que ele tenha sido um vulcão ativo – como foi Fernando de Noronha. Mas não há evidências disponíveis para determinar isso por enquanto.

"Ninguém tem amostras dessa rocha vulcânica de Rocas", diz o geólogo marinho Natan Pereira, da Universidade Federal de Pernambuco, que produziu um mapa geomorfológico do atol para seu trabalho de mestrado. Em Noronha, elas estão expostas na superfície. Em Rocas, estão enterradas no substrato marinho.

Mais a fundo

Também há muita biodiversidade "escondida" do lado de fora do anel recifal de Rocas. Talvez até mais.

Um grupo de pesquisadores está mapeando a superfície do platô que se estende a leste e oeste do atol, em profundidades de até cem metros. Resultados das primeiras expedições, iniciadas em 2011, já revelam a presença de muitos recifes coralíneos. "A cobertura de corais na área funda é bem maior que no raso", diz o pesquisador Rodrigo Leão Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Também foram detectados bancos de rodolitos – esferas de algas coralinas que podem ser "coladas" umas nas outras por esponjas, dando origem a estruturas recifais maiores que podem ser importantes na geomorfologia do atol.

Mais conteúdo sobre:
Atol das rocas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.