Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Estadão direto da Amazônia: A floresta passou a fazer parte de nós

Confira os bastidores da cobertura realizada pelos enviados especiais do 'Estado', André Borges (textos) e Gabriela Biló (fotos)

André Borges (texto) e Gabriela Biló (fotos), enviados especiais à Amazônia

03 de setembro de 2019 | 15h00

Pé na estrada

Vocês dois vão para a Amazônia, para cobrirem os incêndios. A decisão foi comunicada pela chefia do Estadão a nós na quinta-feira, 22 de agosto. Mal sabíamos que, 12 horas depois, já estaríamos embarcando. Tudo muito rápido, mas, ao contrário do que possa parecer, não é nada fácil mandar alguém para dentro da floresta amazônica, em chamas. Todos sabiam que podia ser arriscado e, jornalisticamente, um tiro no escuro, dada a dimensão da Amazônia. A chefia apostou que a história deveria crescer nos próximos dias, e muito. Já vínhamos acompanhando a crise ambiental há muito tempo. Era hora de ir a campo.

Ótimo, pensamos. Reportagem especial é a razão de ser de qualquer jornalista. Se para um de nós (André Borges) era a chance de retornar para a Amazônia, para o outro (Gabriela Biló) era a oportunidade de estrear em uma cobertura na floresta.

Depois de reuniões com a chefia e consultas a fontes, ficou acertado que iríamos para a região sul do Estado do Amazonas. Arrumamos equipamentos e compramos umas camisetas de manga longa para aguentar o sol forte na floresta. As passagens chegaram e a confirmação do aluguel do carro. Nada de reserva de hotéis, afinal não tínhamos ideia de onde iríamos dormir. Na manhã seguinte, partimos para o fogo.

Dia 1

Porto Velho (RO), Realidade (AM) e Humaitá (AM)

Mochila nas costas. Depois de três horas e meia de voo a partir de Brasília, chegamos a Porto Velho (RO). Alugamos o “foguete” - nome que nosso carro faria jus em ganhar nos dias seguintes - e saímos em busca das chamas. Não. Partimos, antes, para o supermercado. Uma caixa de isopor cheio de garrafas de água (com gás), gelo, um monte de pacote de bolachas, pão, mussarela fatiada. E seguimos para a estrada.

Cruzamos o Rio Madeira e seguimos pela BR-319, a estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). Era nosso caminho para chegar finalmente à Transamazônica, depois de uns 100 km rodados. Foi quando, na estrada, nos deparamos com uma enorme plantação de eucaliptos totalmente seca, um grande paliteiro queimado. Um trator empilhava as toras dentro do caminhão. A viagem mal tinha começado, e já esbarrávamos na primeira apuração. O produtor de eucaliptos teve prejuízo de R$ 1 milhão com o fogo. Anotamos, filmamos. Biló se empolgou e subiu na carroceria do caminhão lotado de troncos para fotografar. Legal, depois só precisa descer. O motorista do trator trouxe a máquina e ergueu a pá. O “elevador escavadeira” trouxe Biló para o chão. Seguimos viagem com uma história na bolsa.

Na BR-319 esburacada, chegamos à vila “Realidade”, já dentro do Amazonas. É um antigo assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) isolado no meio da mata, reduto de madeireiros onde vivem cerca de 3 mil pessoas. Ouvimos moradores, registramos histórias para compor nossa cobertura. Mas nada de achar fogo aceso por ali. Retornamos e acessamos a Transamazônica, rumo a Humaitá.

Contamos piada, histórias, falamos da vida, do trabalho, de tudo. Mas no fundo o que havia uma baita ansiedade de chegar às áreas de fogo. É para isso que fomos para ali. Quem ateou o fogo, onde e por quê. Bateu um receio de estarmos no lugar errado, atrasados em relação ao fogo e à concorrência. Mantivemos o plano.

Dia 2

Manicoré (AM)

A balsa encalhou. Em outro trecho do Rio Madeira, ficamos mais de uma hora ouvindo os comerciantes reclamando da fumaça forte que tinha encoberto a capital naqueles dias. Tínhamos de cruzar o rio para seguir viagem. Não havia outro caminho. Biló começou a fazer uns retratos na beira do rio, onde os ribeirinhos descarregavam suas coisas. Ouvimos as histórias de “João Barqueiro”, que ela adorou fotografar e me fez prometer que escreveria sobre ele.

Finalmente a balsa desatolou e conseguimos seguir viagem. No caminho, nada de fogo. O máximo que víamos eram áreas já queimadas. Horas depois, passamos na beira de uma aldeia indígena, onde decidimos parar e pedir informações. Foi quando percebemos que estávamos dentro da base do Prevfogo, a unidade de combate ao incêndio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) instalada na terra indígena.

Fomos recebidos por um grupo de brigadistas. Na hora, percebemos que a maior parte deles era indígena. Descobrimos que estávamos dentro da terra indígena dos Tenharin, cortada pela Transamazônica, e que esta terra tinha acabado de pegar fogo. Os índios iriam a campo com os demais brigadistas para fazer o combate. Era mais uma matéria que nascia ali. 

No jornal, a expectativa era receber uma matéria especial para por na capa do domingo. Fomos avisados que o espaço principal do jornal estava reservado para uma foto e um texto e que aguardariam tudo até as 21 horas.

Eram 15 horas e ainda não tínhamos nada. As coisas ganharam corpo quando conseguimos conversar com o cacique da aldeia, que fez questão de nos mostrar onde sua terra tinha queimado. Ótimo. O único problema é que era longe. Mas muito longe para aquele horário. Partimos para a “estrada do estanho”, um caminho de terra, areia e poças de lama, cerca de 130 km de estrada de terra. O tempo era curto. Tínhamos que ir, fazer as fotos e vídeos, voltar, transmitir o material em algum local com conexão e escrever o texto antes do fechamento da edição do jornal.

Às 17h30, finalmente chegamos ao lugar onde o fogo passou, uma área conhecida como Campos Amazônicos. Não podíamos ficar mais do que 30 minutos. Se perdêssemos o fechamento, nada teria valido a pena. Trabalho pronto, corremos de volta para a aldeia. Chegamos quase às 21 horas, com boa parte do texto escrita dentro do carro. Com a ajuda dos índios, conseguimos uma conexão bem precária. Por um momento, achamos que tínhamos perdido a capa do jornal. Bateu alguns segundos de frustração, depois de toda a apreensão que passamos, escrevendo e tratando as fotos no caminho de volta. Quando finalmente conseguimos transmitir, já passava das 21 horas. Enviamos e ficamos mudos, quietos. Então, veio uma imagem pelo celular, com a foto da primeira página. O jornal esperou até o último instante. Conseguimos. A foto sairia na edição do dia seguinte. 

Para encerrar o dia sem almoço, recebemos um prato de comida cedido pelos índios, duas redes emprestadas para dormirmos na aldeia. Comemoramos com uma lata de cerveja, já quente àquela altura, carregamos o tempo todo para celebrar.

Dia 3

Manicoré (AM)

O dia foi de espera. Queríamos fazer o combate ao fogo com os brigadistas, mas os planos mudavam o tempo todo. “Só vamos entrar, se for para ganhar o jogo”, dizia o chefe da brigada. Mais ligações, estudos de estratégia, pedidos de reforço e nada de ir para o combate.

Durante o dia inteiro, vivemos da promessa de acompanhar uma missão, que não aconteceria mais. Ficamos na aldeia, entrevistamos o líder dos Tenharin e conhecemos um projeto muito bacana, de reflorestamento da Amazônia feito por eles mesmos. Não nos lembrávamos de ter visto uma muda de mogno na vida. E lá estavam dezenas delas. Essas viagens são assim, conhecimento puro.

Garantimos mais uma matéria na mão.

Pensávamos o tempo todo na possibilidade de seguir, de deixa-los ali e partir em busca de outra equipe e do fogo. Mas sabíamos que o risco era enorme de não encontrar. Era preciso aguardar um pouco mais.

Aproveitamos para resgatar a apuração do primeiro dia, quando estivemos no eucaliptal. Foi uma boa saída para não deixar o jornal sem matéria. Tudo certo. Enviamos o material, que foi capa da edição. No fim do dia, ainda acreditávamos que iríamos ao combate, mas uma “ordem de cima” chegou e fomos gentilmente convidados a nos retirar do acampamento da brigada.

Não entendemos os motivos. Havíamos ficado ali porque os próprios brigadistas nos convidaram. No segundo dia, porém, alguma determinação vinda de fora fez o clima mudar.

Decidimos seguir estrada para encontrar onde comer e dormir. Mas deixamos claro que voltaríamos para tentar acompanhá-los em combate. Uns 80km depois, chegamos a Santo Antonio do Matupi. Um hotel simples, espetinhos de carne e fomos descansar. 

Dia 4

Manicoré (AM)

Acordamos às 4h30. Biló disse que iríamos matar um leão. Saímos ainda no escuro e pegamos a Transamazônica de volta depois, a temida estrada do estanho. Já haviam nos dito que nosso carro, que não era um 4X4, não valia nada, que era uma porcaria tentar atravessar com um veículo de tração em dois eixos e que éramos uns irresponsáveis de andar com aquilo naquela região. É que eles não conheciam o “foguete”. Depois de cinco horas de solavancos, derrapadas e de quaaaaaaaase atolarmos um sem-fim de vezes, nossa carro nos levou à base do Instituto Chico Mendes (ICMBio), no meio do nada, nos Campos Amazônicos.

No caminho, uma imagem incrível de boiadeiros que conduziam, pela estrada, mil cabeças de gado compradas por um fazendeiro do Amazonas. Viajavam há mais de 30 dias. Uma história linda. Anotamos, registramos e seguimos adiante.

Tomamos café da manhã de chiclete e curtimos um belo almoço de bolacha de água e sal, que fingimos ser um filé ao molho madeira e alguns aspargos, para deixar a coisa mais sofisticada.

Depois de tudo isso, surpresa: nenhum brigadista havia chegado à base do ICMBio. Por ali, apenas dois seguranças mal humorados, sem nenhuma vontade de ajudar. Quando resolvemos voltar e procurar novamente pela estrada, nos deparamos de frente com os brigadistas. É agora, pensamos. Seguimos a equipe até o fogo, que estava distante, registramos as ações ao lado dos combatentes.

Por mais de uma vez, ficamos no meio do fogo com eles. Ouvimos gritos para que recuássemos. O material estava na mão. Nos despedimos, agradecemos e fomos apagar o nosso incêndio editorial: achar uma conexão para mandar tudo para o jornal. Na correria, infelizmente, o “foguete” perdeu alguns pedaços no caminho. Nada grave. Ele passa bem.

Dia 5

Manicoré (AM)

Acordamos e decidimos seguir viagem rumo leste da Transamazônica, para Apuí. Antes, porém, passamos em uma escola pública para ver como lidavam ali com a questão ambiental. Descobrimos um projeto bacana, que colocava as crianças para plantar mudas em um canteiro da própria escola. Mais uma matéria na manga.

Pegamos a estrada para Apuí. No caminho, uma coluna de fumaça se erguia forte no meio do mato, na margem esquerda. Entramos por uma estrada vicinal para ver o que estava acontecendo ali. Encontramos fazendas e sítios em chamas, o fogo invadindo a mata. Estávamos ali sozinhos, no meio mata, com o fogo em volta. De repente, se aproxima um senhor numa moto. Não imaginávamos, mas era o nosso furo que chegava sobre duas rodas.

O produtor nos contou que os donos dos sítios da região, como ele, foram avisados por fazendeiros que eles queimariam tudo ali. Gravamos a entrevista, registramos as imagens de sua casa com tudo queimado ao redor. Um segundo produtor confirmou a mesma informação. Tínhamos uma história para publicar.

Dia 6

Apuí (AM)

Um dia inteiro de viagem pela Transamazônica, 100% de terra. Chegamos à noite a Apuí, escrevemos e editamos o que estava na manga. O sinal de internet era muito ruim, só funcionava de madrugada. Combinamos de acordar às 3 horas. Cada um mandaria seu material. Tínhamos que garantir que tudo chegasse cedo. O jornal dava início ao processo de transformação digital de suas publicações, o que mudava todo o fluxo do trabalho daquele dia em diante. Na manhã seguinte, comemoramos. A internet, aos pouquinhos, enviou bit por bit para a redação.

Dia 7

Apuí (AM)

Acordamos sem uma matéria definida na cabeça. E talvez isso tenha sido a melhor coisa que nos aconteceu. Fomos tomar café e recebemos a informação de que na terra dos Tenharin, que tínhamos deixado para trás, o fogo havia aumentado. Naquele momento, achamos que poderíamos ter tomado a decisão errada de avançar pela estrada. Chegamos a considerar um retorno imediato. Antes disso, porém, resolvemos bater um papo com agentes da Polícia Civil e da Justiça, para tentar detalhar um pouco mais o clima da cidade. Na Polícia Civil, nada. Seguimos para o Tribunal de Justiça. Ninguém ali, apenas um oficial de justiça.

Não sabíamos ainda, mas naquele momento, de forma intuitiva, apoiados unicamente em nossa curiosidade jornalística, estávamos próximos de conseguir uma entrevista exclusiva que se mostraria fundamental para o nosso trabalho. Com autorização do oficial, começamos a pesquisar processos recentes sobre crimes ambientais que estavam em julgamento. No meio de pilhas de papel, achamos a história de Valter Costa Ribeiro Filho. Tratava-se de madeireiro em prisão domiciliar, usando uma tornozeleira eletrônica, a poucos metros dali, detido pela Polícia Federal.

Conseguimos levantar seu endereço. Sozinhos, batemos em sua porta. Não estávamos certos de que nos atenderia, mas tínhamos que persistir naquilo. E deu certo. Valter nos recebeu com estranhamento, mas quando viu que conhecíamos detalhes das informações de seu caso, achou que deveria nos receber. Fomos para a varanda de sua casa, uma propriedade grande. O madeireiro abriu o jogo, contou bem mais do que esperávamos sobre o submundo dos madeireiros. Foi mais de uma hora de conversa gravada, e muita tensão.

Valter, que diz estar ameaçado de morte, ficou rodeado de diversos seguranças enquanto falava com a gente. Ao fim da conversa, fotografamos e, com a permissão dele, também filmamos. Saímos de lá com a noção certa do que tínhamos conseguido. O dia que havia começado sem nada, terminava com um material único e crucial para entender o desmatamento na Amazônia. Procuramos uma lan house às pressas para digitar a entrevista e enviar todo o material fotográfico e vídeo. Deu certo.

Dia 8

Apuí (AM)

Decidimos pegar o caminho de volta, pela Transamazônica. Um dia inteiro de estrada até Humaitá (AM). Antes de sair, fomos comprar algumas roupas novas. Sim. Todas as calças, camisetas, calcinhas e cuecas já estavam pela hora da morte. E em nome da transparência, vamos admitir que chegamos a usar algumas peças do avesso. Notamos que já tínhamos passado do limite quando passaram a nos olhar de forma estranha nas ruas. Foi quando encontramos um saldão! Problema resolvido.

Chegamos à noite a Humaitá e, que legal, não encontrávamos nenhum hotel para ficar, nada. Tudo cheio por causa de festas locais. Acabamos em uma espelunca de R$ 50 a diária, com aquele chuveiro gelado de praxe. Àquela hora, nenhum lugar aberto para jantar, mais nada. Recorremos às nossas bolachas. De Brasília, a chefia da redação nos avisou que estava na hora de nos mandar o resgate.

Dia 9

Humaitá (AM)

Este seria mais um dia de estrada e poeira, até chegar a Porto Velho. Por isso, decidimos passar a manhã fechando o material que a chefia havia planejado para uma matéria de final de domingo. A ideia foi amarrar as histórias que trouxemos. Fomos avisados que o escritor Milton Hatoum, que é de Manaus, escreveria um poema inédito para sair com a nossa reportagem final. Em áudio, Hatoum também leria seu poema sobre a Amazônia, ilustrado com as nossas fotos da cobertura. Ficamos emocionados.  

Dia 10

Porto Velho (RO)

Certo, nem tudo foi só trabalho. Neste último dia, quando pegaríamos o avião com destino a Brasília às 17 horas, nos demos ao luxo de tomar um banho de rio, de comer um belo peixe assado no barracão do Jair e apreciar a força do Rio Madeira. No avião, enquanto seguíamos para a capital federal, escrevemos este capítulo final. Dentro de nós, carregamos a sensação de ter passado meses na floresta. A Amazônia, uma vez percorrida, passa a fazer parte de nós. É como se você estivesse impregnado dela. Algo muda em você. Fim.

 

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