Gabriela Biló/Estadão
A equipe do Estado acompanhou o trabalhou de brigadistas do Ibama para conter o incêndio em uma unidade de conservação da Amazônia em Manicoré, no Estado do Amazonas Gabriela Biló/Estadão

Estadão direto da Amazônia

O repórter André Borges e a fotógrafa Gabriela Biló acompanham o drama dos incêndios na maior floresta tropical do mundo

André Borges (textos) e Gabriela Biló (fotos), enviados especiais à Amazônia

27 de agosto de 2019 | 14h00
Atualizado 16 de setembro de 2019 | 05h53

MANICORÉ (AM) - A Amazônia virou o foco das atenções nas últimas semanas com notícias sobre aumento do desmatamento e das queimadas na floresta. Para acompanhar de perto o drama vivido pelas populações locais e os riscos enfrentados pelo maior bioma do mundo, o Estado enviou à região o repórter André Borges e a repórter fotográfica Gabriela Biló.

Confira a seguir as reportagens produzidas diretamente da Amazônia:

  1. Estadão direto da Amazônia: Índios do sul do Amazonas achavam que estavam livres dos incêndios. Acabaram dentro da catástrofe
  2. Estadão direto da Amazônia: Administrador diz ter 'sorte' de só perder R$ 1 milhão com queimadas
  3. Estadão direto da Amazônia: Na floresta, a luta dos brigadistas em sol
  4. Estadão direto da Amazônia: Repórteres mostram a devastação das queimadas; assista
  5. Estadão direto da Amazônia: Focos de queimada podem ter sido causados por fazendeiros em distrito do sul do Amazonas
  6. Estadão direto da Amazônia: Não há como ser madeireiro legal no Brasil, diz empresário preso por extração irregular
  7. Estadão direto da Amazônia: Dez dias na Amazônia: retratos de uma floresta em chamas
  8. Estadão direto da Amazônia: A floresta passou a fazer parte de nós
  9. Estadão direto da Amazônia: Plano de retomar as obras na BR-319 expõe desafios da fronteira amazônica

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Índios do sul do Amazonas achavam que estavam livres dos incêndios. Acabaram dentro da catástrofe

'Não tinha fogo aqui. Agora veio de uma vez', narra líder dos tenharins, povo que vive numa área da Amazônia onde o desmatamento ilegal e a grilagem afloram a olho nu

André Borges e Gabriela Biló, Enviados especiais

25 de agosto de 2019 | 03h00

 LÁBREA, HUMAITÁ E MANICORÉ (AM) - Os olhos de Antônio Enésio Tenharin estão desfocados, sem destino certo. Em cima das cinzas que encobrem os campos amazônicos, como é conhecida a área plana da terra indígena que ele lidera, Tenharin só enxerga um deserto morto. O horizonte é uma fumaça e, por trás dele, fogo. “Olha o que fizeram”, diz o índio. “Para que tudo isso? Por quê?”

Os parques amazônicos desenham uma linha plana na terra indígena ocupada há séculos pelo povo tenharin. Os indígenas que habitam a região sul do Estado do Amazonas achavam, até a noite passada, que estavam livres do fogo. Vinham fiscalizando toda a área como podiam, percorrendo as terras. Monitoravam e trocavam informações com a equipe de fiscalização do Ibama e do Instituto Chico Mendes. À noite, em televisões e celulares, ficavam assombrados com as notícias que percorrem o mundo, mostrando a floresta. Agora, estão dentro da catástrofe.

Os índios tenharins vivem numa área da Amazônia onde o desmatamento ilegal e a grilagem de terras afloram a olho nu, um cinturão verde onde o fogo “brota do nada”, no meio da floresta virgem. Com os ventos fortes, as labaredas avançam de forma descontrolada - sem que consigamos detectar os autores do fogo. “Cuidamos dessa terra, do nosso território. Até hoje, o fogo não tinha entrado. Mas agora veio de uma vez, em vários lugares. É um pavor para o nosso povo, porque faz nossas crianças ficarem doentes, mata os animais, só traz coisa ruim”, diz Tenharin, sentado sobre um monte de terra, no meio do chão preto.

A nuvem de fumaça que encobre a terra indígena avança pelos municípios amazônicos de Manicoré e Humaitá, segue para Porto Velho, em Rondônia, a 350 quilômetros de distância, e dali em diante. Na Amazônia, o dia é branco.

Os quase 3 mil indígenas tenharins que vivem na região estão em alerta. Durante o dia, a força da labareda, somada ao calor da Amazônia, não permite nenhuma aproximação. Para além de 30 metros de distância, qualquer aproximação maior é impossível. Nem mesmo os brigadistas conseguem trabalhar. À noite, quando a umidade aumenta e o calor diminui, é a hora de “ir para o combate”.

Com 80 quilômetros de sua terra indígena cortados irregularmente pelo traçado da Transamazônica, o povo tenharin espera pelo fim do fogo. Os índios já acionaram todos os órgãos possíveis para tentar conter a queimada. Eles sabem que o mês de setembro costuma ser o pior de todos. É o auge da seca.

Equipes de brigadas do Ibama devem fortalecer o combate na região. “Estamos sozinhos aqui, vendo um governo que fica incentivando esse tipo de situação”, diz o líder indígena Antônio Tenharin. “Somos pressionados o tempo todo pelos ruralistas, pelos garimpos, os madeireiros. Agora, temos de lidar com um governo que incentiva esse tipo de coisa?”

As terras indígenas são, historicamente, aquelas que mais preservam as florestas da Amazônia. As imagens de satélite, que hoje assustam o mundo ao exibir a fumaça que encobre a mata, revelam também que, onde há demarcação, a mata está de pé. Ou estava. “Não vamos ficar vendo tudo isso acontecer, parados”, diz Tenharin. “Nosso povo vai reagir. Não vão acabar com a nossa casa.”

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    Administrador diz ter 'sorte' de só perder R$ 1 milhão com queimadas

    Mesmo mobilizando bombeiros, trabalhadores e máquinas, não foi possível conter fogo em fazenda

    André Borges, enviado especial à Amazônia

    26 de agosto de 2019 | 03h00

    PORTO VELHO (RO) e HUMAITÁ (AM) - A mata intocada da Amazônia, seus animais e habitantes tradicionais não são as únicas vítimas do fogo que assola a vida na maior floresta tropical do planeta. Os produtores rurais que, nas últimas décadas, passaram a avançar com suas monoculturas e rebanhos de gado sobre o arco norte do País também veem, impotentes, seus negócios virarem cinza. Ocupações legais ou clandestinas, o destino é o mesmo. O fogo não negocia. 

    Adriano Santos, de 33 anos, chegou tarde para tentar conter o fogo que tomava conta a plantação de eucaliptos que administra, em uma área plantada de 60 hectares na margem da BR-319, a estrada precária que liga Porto Velho (RO) e Manaus (AM). Eram 15 horas, quando a notícia chegou a seu celular. O administrador de fazenda foi avisado de que o fogo estava do outro lado da estrada, onde engolia a mata. As chamas estavam longe da fazenda, mas corriam com a força do vento, rumo às fileiras de eucaliptos plantadas do outro lado da estrada. 

    Santos mobilizou seus trabalhadores e correu para o local, chamou o Corpo de Bombeiros, fez o que pôde. Quando chegaram, as labaredas já tinham avançado sobre o asfalto e encontravam, do outro lado da via, um capinzal seco, combustível incontrolável. Em segundos, o fogo subiu pelos paliteiros. “Não tinha mais o que fazer. Quem apaga um fogo desse?”, indaga Santos. “A gente ainda colocou as máquinas escavadeiras para trabalhar, todo grupo entrou no meio, apagando, mas é muito difícil. Foi uma sorte chegarmos logo, senão tinha acontecido o pior.” 

    O que Adriano Santos chama de “sorte” é estimado por ele mesmo em um prejuízo de R$ 1 milhão, por causa da produção perdida. Parte do eucaliptal ficou no chão. Sua fazenda não é exceção. Entre Porto Velho e Humaitá, um trecho de pouco mais de 200 quilômetros de estrada que já foi dominado por fazendas, o fogo varreu grande parte das plantações e pastagens. O gado ficou sem a grama. As chamas passaram e, agora, continuam para áreas mais extremas da floresta, de difícil acesso. A fumaça espessa que toma conta das cidades, no entanto, avisa que o problema ainda não tem data para acabar. 

    Rotina alterada

    Pelas ruas, onde se anda, o cheiro das cinzas incomoda as narinas. Nos últimos dias, as queimadas alteraram o funcionamento das escolas, a movimentação nos hospitais, o comércio nas ruas. Na balsa de Porto Velho, que cruza o Rio Madeira, ribeirinhos chegam com as cargas para vender frutas a comércios locais e habitantes. “A movimentação caiu muito”, diz “João do Barco”, enquanto desembarca a produção colhida no sítio onde vive, na margem do rio. Traz dezenas de melancias, mamão e cachos de banana da terra. “Por esses dias, dependendo do horário, você não enxerga o outro lado do rio. Só vê poucos metros para frente. A fumaça encobre tudo, fica até perigoso navegar por aqui”, diz o ribeirinho. 

    Na margem da BR-319, de frente para a plantação caída, Adriano Santos pilota sua máquina escavadeira. Um caminhão recebe os troncos empilhados do eucalipto que ficou de pé depois da passagem do fogo. Adriano Santos lamenta o prejuízo financeiro que teve. Olha para as árvores mortas. É dinheiro, e isso, recupera-se. Uma nova temporada de plantação de eucaliptos vem aí. 

     

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    Na floresta amazônica, a luta dos brigadistas em solo

    Reportagem acompanhou brigadistas do Ibama e sua divisão de combate a queimadas, a Prevfogo, no sul do Amazonas; intervenção ocorre à noite

    André Borges e Gabriela Biló, enviados especiais a Manicoré

    27 de agosto de 2019 | 03h00

    MANICORÉ (AM) - “Quando a gente entra, a gente entra para ganhar.” A frase é um lema, uma máxima repetida entre os brigadistas que se preparam para encarar mais um dia de frente para o fogo que se alastra pela Amazônia. É, também, uma postura de cautela frente ao poder das chamas, em que, muitas vezes, é preciso recuar. A reportagem do Estado acompanhou a ação realizada pelos brigadistas do Ibama e sua divisão de combate a queimadas, a Prevfogo, no sul do Amazonas.

    O enfrentamento não foi feito com o uso de aviões ou helicópteros, mas em solo. Enxada, abafador, facão, soprador, bombeador de água, galhos. As ferramentas carregadas em caminhonetes são levadas pelo brigadistas, que entram pela floresta orientados pela fumaça. Um abre o caminho com o facão, outro avança com o soprador abastecido por gasolina. Abafadores de borracha são usados para apagar o que ainda resta aceso. Com enxadas, outros tratam de isolar áreas para tentar impedir que o fogo se alastre. Um pequeno esguicho de água elimina a chance de o fogo voltar.

    O trabalho é lento e o vento, traiçoeiro. De um instante para o outro, muda de direção e o lugar que parecia o mais seguro passa a ser de risco iminente, com labaredas que sobem em velocidade imprevisível. Por mais de uma vez, Amaury Tenharin, brigadista-chefe, teve de gritar. “Recuar! Recuar!”

    Uma correria no meio da mata. Em segundos, áreas do tamanho de um campo de futebol são engolidas pelas chamas. Nos horários mais quentes, entre as 11 e 15 horas, surge a maior parte dos novos focos de incêndio. O trabalho dos combatentes, que costuma começar por volta das 16 horas, normalmente segue noite adentro.

    É uma ação de paciência e estratégia. Com o apoio de indígenas contratados como brigadistas temporários, a equipe do Ibama vai pela mata. “O trabalho tem melhor resultado à noite. É quando a temperatura cai, a umidade aumenta e a gente consegue um melhor resultado”, diz Amaury.

    Com a ação organizada, os brigadistas conseguem conter as chamas de uma grande área. Mas outra já avança no outro canto mais abaixo. Eles tentam se aproximar, mas o fogo repele. A fuligem ergue uma nuvem e anuncia que, mais uma vez, é preciso recuar. As ações se sucedem assim, sem prazo, sem data para acabar. 

    O batalhão de 19 brigadistas de Amaury se reveza nas entradas da floresta. Eles recebem de 1 a 4 salários mínimos por mês, mais auxílio-alimentação. Entre seus combatentes está Maria Loli, de 34 anos, única mulher. Ela deixou em casa Luan, seu filho de 7 anos, que espera ansioso pelo retorno da mãe. Aos amigos da escola, ele já tem ensinado que o fogo é inimigo da floresta, dos animais e da saúde das pessoas, diz Maria Loli. “Ele é um pequeno professor dos coleguinhas”, conta a mãe.

    O menino já entendeu que, quando tem queimada na Amazônia, a mãe tem de entrar em ação, o que significa não ter data para voltar para casa. Loli já ficou 15, 20 dias em combate. “Quando ele vê uma fumaça, já pensa que posso ir embora”, diz a mãe. “Mas gosta do que eu faço. Diz que, quando crescer, também vai combater o fogo.”

    Queimada está ligada a alta no desmatamento, apontou estudo

    O Estado mostrou que o elevado número de focos de queimadas na Amazônia neste ano, que já é 60% superior à média dos últimos três anos, está sendo impulsionado pelo avanço do desmatamento, segundo análise técnica feita pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) sobre a temporada atual de fogo na região.

    “Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento”, comparam os autores. Segundo eles, esses municípios são os responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho na região. 

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    Repórteres do 'Estado' mostram a devastação das queimadas na Amazônia; assista

    André Borges e Gabriela Biló acompanham os trabalhos dos brigadistas do Ibama que combatem as chamas na floresta

    André Borges e Gabriela Biló, enviados especiais

    27 de agosto de 2019 | 10h08

    MANICORÉ (AM) - A Amazônia virou o foco das atenções nas últimas semanas com notícias sobre aumento do desmatamento e das queimadas. Na tarde desta segunda-feira, 26, o repórter André Borges e a fotógrafa Gabriela Biló acompanharam a ação realizada pelos brigadistas do Ibama e sua divisão de combate a queimadas, a Prevfogo, no sul do Amazonas. 

    A equipe do Estado esteve em Manicoré, no Amazonas. Eles estiveram em uma área já devastada, com queimada ativa. O enfrentamento pelas equipes, como mostra a equipe do Estado, não é feito com o uso de aviões ou helicópteros, mas em solo. 

    Enxada, abafador, facão, soprador, bombeador de água, galhos são usados no combate às chamas. As ferramentas carregadas em caminhonetes são levadas pelo brigadistas, que entram pela floresta orientados pela fumaça. Eles abrem o caminho com facões, sopradores abastecidos por gasolina. Abafadores de borracha também são usados para apagar os focos de incêndio. Com enxadas, brigadistas também isolam áreas para tentar impedir que o fogo se alastre.

    O trabalho é lento e o vento, traiçoeiro. Como mostra a equipe do Estado, de um instante para o outro, o vento muda de direção, o que faz as labaredas subirem. 

     

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    Focos de queimada podem ter sido causados por fazendeiros em distrito do AM

    'Estado' ouviu relatos em Santo Antônio do Matupi, que pertence ao município de Manicoré

    André Borges (texto) e Gabriela Biló (fotos), enviados especiais à Amazônia

    28 de agosto de 2019 | 11h25

    MANICORÉ (AM) - O fogo que se alastra pela região sul do Amazonas, uma das áreas com mais focos de incêndio hoje em toda a Amazônia, pode ter sido motivado por fazendeiros locais, segundo moradores relataram ao Estado. Em Santo Antônio do Matupi, na altura do quilômetro 200 da Transamazônica, a reportagem flagrou um incêndio de grandes proporções nesta terça feira, 27, que avançava pela floresta.

    A área pertence ao município de Manicoré, que registrava 355 focos de queimadas, o maior número no Estado, segundo os dados mais atualizados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

    Ao se aproximar da queimada por uma pequena estrada de terra, a reportagem conseguiu conversar com dois donos de sítios. Ambos, inconformados com a queimada, afirmaram que, ao meio-dia, foram avisados por donos de outras propriedades locais de que eles deviam se preparar, porque iriam tocar fogo em toda a área. E assim fizeram. Quando a reportagem chegou ao local, por volta das 14 horas, as chamas já tinham queimado todas as áreas abertas dos sítios e avançavam de forma descontrolada para a floresta.

    O produtor rural José Silva de Souza diz que teve de retirar seus cavalos às pressas. 

    "O que está acontecendo aqui é que os caras passaram em casa meio-dia, dizendo que iam atear fogo. Quando eu cheguei aqui, já estava esse fogaréu todo", disse Souza ao Estado. "Consegui retirar meus cavalos. Não pude fazer mais nada." 

    Questionado sobre a autoria do fogo, Souza apontou proprietários de terras vizinhas como responsáveis.

    "Foram eles (fazendeiros vizinhos) que mandaram avisar que iam tocar fogo. Não tem como dizer que foi outro. Mandaram ir lá em casa avisar que iam atear, ao meio-dia", afirmou o produtor rural. 

    O anúncio do incêndio pelos produtores locais também foi confirmado à reportagem pelo dono de outro sítio vizinho, conhecido como Cabral, que preferiu não gravar entrevista. Ele também disse que foi avisado pelos vizinhos de sua propriedade sobre o fogo, que àquela altura já havia avançado sobre suas terras e sobre parte da floresta.

    "Não podem fazer isso aqui, desse jeito. É ilegal", declarou o produtor ao Estado.

    Sobres os motivos de alguns fazendeiros incendiarem as áreas, Cabral disse que o objetivo desses proprietários é "limpar" a vegetação para a pastagem.

    "A ideia é retirar toda a vegetação que esteja sobre a mata e, em seu lugar, manter apenas a grama para o gado", afirmou. A prática é comum e ocorre todos os anos, segundo ele. 

    Neste ano, porém, conforme relatos colhidos pela reportagem com diversos moradores da região, houve um aumento descontrolado dessa prática motivada pela percepção de que a fiscalização estaria mais branda. 

    As versões sobre a autoria dos incêndios na Amazônia passam por explicações que vão desde a suposta queda de raios na mata, até o aquecimento de pedras pelo sol. Para profissionais de combate a incêndio, porém, a maioria das queimadas teve como origem a ação humana, intencional ou não.  

    Revolta

    Moradores e pequenos empresários locais de Santo Antônio do Matupi e região afirmam ainda que há vários produtores locais indignados com a criação, nos anos mais recentes, de unidades de conservação ambiental pelo governo federal. São muitas as situações de fazendas e sítios que não têm regularização fundiária. 

    Com a criação de unidades de conservação, parte dessas propriedades incluídas nos território das florestas protegidas, ficando em situação irregular. Vários chegaram a negociar indenizações com o governo, mas ainda não receberam o dinheiro.

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    Não há como ser madeireiro legal no Brasil, diz empresário preso por extração irregular

    Valter Costa Ribeiro Filho, dono de uma madeireira em Apuí (AM), conta como funciona o comércio ilegal da madeira e culpa corrupção em órgãos públicos

    André Borges e Gabriela Biló, enviados especiais à Amazônia

    30 de agosto de 2019 | 15h32

    APUÍ (AM) - No dia 25 de abril, às 5h30, o madeireiro Valter Costa Ribeiro Filho, de 45 anos, foi acordado por agentes da Polícia Federal. Ele estava em sua casa, no município de Apuí, no sul do Amazonas, região que nos últimos anos foi tratada como nova fronteira do desmatamento e concentra a maior incidência de focos de incêndio no Estado.

    A PF cumpria mandados de prisão preventiva da Operação Arquimedes, que investiga uma suposta organização criminosa de extração e comercialização ilegal de madeira. A prisão de Valter, conhecido em toda a cidade como “Valtinho”, era o desfecho de uma investigação iniciada meses antes. Ao todo, 33 pessoas foram presas naquele dia.

    Acusado de cometer 11 crimes relacionados ao comércio ilegal de madeira na Amazônia, Valter foi levado a Manaus, onde ficou 22 dias preso, até conseguir decisão favorável da Justiça Federal para responder ao processo em prisão domiciliar, com o uso de tornozeleira eletrônica. Sua madeireira, na qual diz ter injetado mais de R$ 6,5 milhões, está fechada desde a prisão.

    Em entrevista ao Estado, concedida na varanda de sua casa, Valter exibiu a tornozeleira eletrônica, disse que hoje, no Brasil, não há como ser madeireiro 100% legal por causa dos esquemas de propina que envolvem o processo de liberação da mercadoria. Procurado para comentar as acusações, o Ibama informou que não se manifestaria. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) não respondeu até a publicação da entrevista. A Operação Arquimedes também apura irregularidades de funcionários dos dois órgãos.

    O sr. é alvo de uma série de investigações por crimes ambientais no comércio de madeira. Como funcionava?

    Eu trabalhava com a retirada de madeira de projetos de manejo, vendendo para Minas Gerais, São Paulo, mas dentro da lei. Dentro da lei, eu digo, e a Polícia Federal tem áudio meu, é 70% da madeira, o que já é um milagre. Porque os outros 30% estavam errados, por causa de problemas criados com o sistema DOF (o Documento de Origem Florestal, emitido eletronicamente pelo Ibama, é uma licença obrigatória que as madeireiras devem obter para apresentar o controle do transporte e armazenamento de madeira que estão efetivamente usando). 

    O sr. está dizendo que 30% de sua operação era clandestina?

    Sem isso, não tinha como trabalhar. Não há como trabalhar. Não tem área do Incra hoje suficiente para você usar para área de manejo florestal. Então, hoje, um fazendeiro faz um plano de manejo de uma área, mas deixa 30% de saldo a mais nesse plano. E isso é coberto com madeira clandestina. Todo mundo faz isso. Eu vou te dizer, é mais ou menos por aí que eu trabalhava. Tem gente que coloca 80% (ilegal) no plano de manejo. Não tem como trabalhar de outra forma.

    Como é que sobra esse tal saldo de 30% para aquisição de madeira clandestina?

    O dono da fazenda precisa que sua árvore renda. Então o mateiro dele vai lá, mede o tronco da árvore para informar ao sistema DOF o quanto vai tirar dali. Digamos que ele chega a 20 metros cúbicos, mas o mateiro vai lá no sistema e joga 30 metros. É pura estimativa. Então, o que acontece. Sobra um saldo de 10 metros cúbicos no sistema para a empresa. 

    Usa-se esse saldo para esquentar madeira ilegal.

    Sim. Vão comprar madeira de reserva, de terra indígena, madeira clandestina.

    E o sr. fazia isso? 

    Eu ficava nesses 30%. Sempre fui muito cauteloso. O fazendeiro, que é dono da madeira, tinha interesse, porque vende mais. É o que acontece. Mas eu nunca deixei de atuar com manejo, de ter um biólogo e de ter as coisas em meu nome. Acontece que passei por muita dificuldade financeira, por causa da crise econômica. O mercado parou de comprar madeira. Nesse ano as coisas começariam a reaquecer, mas me faltava capital de giro. Eu queria atuar só com madeira certa, estava aguardando para começar a safra deste ano. O que aconteceu é que eu estava sendo investigado desde 2015 pela Polícia Federal.

    Por quê?

    E 2014, o Ibama apreendeu um caminhão e uma carregadeira minha aqui porque eu não concordei em participar de uma propina de R$ 30 mil que seria dada para ele.

    Quem cobrou isso? Qual era o nome da pessoa?

    Era o chefe do Ibama aqui. Ele chegou. Qual era o acordo? R$ 30 mil e está tudo certo. Só não bota madeira de dia na rua, tudo certo. A ideia era juntar dez madeireiros, daria R$ 3 mil para cada um. Só que eu não entrei no negócio. Disse que não iria mexer nisso porque não queria meu rabo preso com ninguém. Eu estava trabalhando em área de manejo e disse que não queria mexer com isso não. Não queria aquele tipo de conversa.

    E então?

    Daí se resolveram por lá e eu continuei trabalhando na minha área de manejo. Um dia, prenderam minha máquina e meu motorista. Entraram numa caminhonete na minha fábrica e disseram “esse cara tem dinheiro, eu vou arrebentar com ele”. No dia seguinte fui lá soltar o motorista. Aí disseram que ele não estava legalizado, embargou o manejo. Na minha empresa, ele não achou nada errado, mas achou 19 metros cúbicos de cedro rosa, que estava diferente do saldo, e me multou também. Aí ele me denunciou ao Ministério Público e denunciou a minha engenheira. A partir daí, passei a ser investigado, a ser alvo de escuta telefônica. Foi aí que começou. Fui para Brasília, recorri. Até hoje, estou brigando neste processo e tenho uma representação contra ele.

    Nesse processo, o sr. faz essas acusações ao servidor do Ibama?

    Sim. Olha, agora a coisa diminuiu um pouco, mas o Ibama sempre pegou propina. Eu nunca paguei propina, porque não queria ter o rabo preso com essas pessoas. Eu já tive uma situação de uma multa, por causa de umas toras trocadas em um caminhão. O fiscal deixou descarregar. No dia seguinte, passou no meu escritório. Como eu sabia que o cara do Ibama é um desses que pegava propina, e eu não daria, eu comecei a elogiar ele, dizer que o pessoal dizia que era um bom fiscal, que ele poderia autuar etc. Ele ficou sem graça para pedir propina para mim, fez uma multa de R$ 11 mil. Pronto. Paguei e acabou.

    O sr. está dizendo que, por não pagar propina, passou a ser perseguido?

    Isso aconteceu com o Ipaam também, em 2010. Passaram a me perseguir, porque pedi a revisão do plano de manejo da área que eu tinha comprado para a minha empresa. Depois, acharam que eu tinha alguma influência no órgão por favorecimento. Minha empresa hoje está regularizada. O promotor não me denunciou até agora. A Polícia Federal me acusou de favorecimento do Ipaam, mas para isso eu teria de ter pago propina. Eu nunca paguei propina para ninguém.

    Como é que o sr. se sente hoje, depois de passar 22 dias preso e ter de usar uma tornozeleira em casa?

    Olha, eu vou falar pra você. Hoje, depois disso tudo que aconteceu, eu tenha vergonha dessa situação. Realmente é uma vergonha, para a sociedade, ver como isso tudo funciona. Mas o culpado não é só o madeireiro. As instituições deveriam fiscalizar, mas isso não acontece.

    O sr. tem vergonha do que fez?  

    Não é isso. Eu não sinto vergonha de nada do que fiz. O que me dá vergonha é ter comprado uma empresa madeireira, ter colocado em meu nome, e hoje eu estar preso pela Polícia Federal como um corrupto, que nunca fui, e como alguém que fraudou o sistema, que eu nunca fraudei. Um delegado da PF, um investigador, pode investigar todos os que estão ao meu redor, para saber quem eu sou. Eu tenho vergonha é da corrupção da madeira, de tanto bandido que tem na madeira, que eu não vejo como, hoje, rodar esse negócio 100% legal.

    Uma madeireira não tem condições de funcionar legalmente?

    Tem como rodar 100% legal, é viável, mas só se acabar com a corrupção, com os bandidos. A engrenagem hoje não gira sem corrupção, porque a corrupção começa desde dentro do Ibama e do Ipaam. 

    Quem quiser buscar uma operação 100% legal hoje numa madeireira, não consegue?

    Não consegue. Só se realmente instalarem postos da Polícia Federal, se realmente houver fiscalização.

    Sua madeireira, a empresa Ciee Madeiras, foi penhorada na última semana pela Justiça do Amazonas, por causa de não pagamentos de impostos. O que o sr. fará a respeito?

    São pouco mais de R$ 50 mil. Quem deve, tem de pagar. Se eu estou devendo, tenho que resolver. Não tem o que fazer. Eu sou trabalhador, sou lutador. É uma dívida estadual. Eu tinha que pagar e não paguei. Então, o errado sou eu. Tenho que pagar. A Justiça tem que fazer o papel dela, mas não só comigo que tenho endereço próprio, que tenho empresa em meu nome. Ela deveria agir também nas empresas madeireiras que tem seus laranjas. Tem um monte de leão por aí rosnando, mas estão usando os filhotinhos. Esses, eles não conseguem pegar, porque esses não têm nada fixo, não tem empresa no nome, não tem nada no nome deles.  

    Como foi receber a ordem de prisão?

    Chegaram aqui e me levaram direto para o presídio, lá em Manaus (Valter faz uma pausa. Se emociona). A coisa que eu fiz a minha vida inteira foi trabalhar. Deixei de ganhar dinheiro e de pagar minhas contas para não fazer nada errado, para não ser preso, para nunca ter um problema com a Polícia Federal. Disse a todos que não sabia por que tinha sido preso, não tinha conhecimento da situação. Hoje estou em prisão domiciliar, não posso sair de casa, não posso negociar minha empresa, não posso falar nada. 

    Por quanto tempo deve ficar preso?

    Estou lutando. O promotor já denunciou 27 pessoas presas na operação, mas não me denunciou. Agora, respondeu que tem indícios fortes, mas nada para me denunciar. Minha advogada já entrou com recurso. Agora ele tem que decidir, o prazo já venceu. Pode me denunciar ou negar. Está na mesa do juiz. Ele deve dar a decisão em cinco dias, se tira ou não a minha tornozeleira.

    Mas e as 11 acusações contra o senhor?

    Das 11 acusações, eu já tenho provas para dez, de que não cometi nada de errado. Só falta uma. Se o juiz negar agora, eu teria que entrar com um habeas corpus em Brasília, com as provas. Não tem uma denúncia. O promotor não me denunciou de nada.

    O sr. pretende, passado isso tudo, ainda seguir no ramo madeireiro?

    Eu sou empresário da madeira, trabalho com isso desde criança. Eu sou apaixonado pelo que faço, sei fazer e sei fazer direito. Sei como funciona tudo. Faço desde criança. Eu não vejo problema algum para seguir dentro da lei, 100%, mas uma questão é que precisa haver mudança em nosso País. O governo precisa fazer a fiscalização funcionar. 

    O sr. cobra mais fiscalização, mas, ao mesmo tempo, admite que operava com 30% de madeira clandestina. Dá para deixar de fazer isso? 

    Dá. E isso é bom para a floresta, para o município, Estado, para o País. Isso é saúde para a floresta. Mas é preciso ter fiscalização. Se o setor não é fiscalizado direito, o madeireiro vai lá e pratica a irregularidade. É assim em tudo. Quem é fiscalizado não vai fazer coisa errada. Se eu quisesse hoje ser um cara muito bem sucedido, poderia ter ido lá e feito como 90% dos madeireiros fazem.

    Como eles fazem?

    Põem a empresa em nome de um laranja. Vão lá, oferecem R$ 150 mil para um funcionário e colocam no nome dele, oferecem advogado caso seja necessário. O cara vai lá e topa. Tudo isso acontece porque não tem fiscalização séria. 

    São cinco meses entre a prisão e a detenção domiciliar. O sr. espera sair em breve?

    Acredito nisso, que o juiz vai me dar a liberdade até a semana que vem. Se ele me mantiver preso, vou me preparar, vender alguma coisa para arrumar R$ 200 mil para pedir meu habeas corpus. É o preço dos advogados lá em Brasília.

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    Dez dias na Amazônia: retratos de uma floresta em chamas

    Equipe do 'Estado' viveu a realidade do fogo na mata e entrevistou madeireiros, brigadistas e moradores

    André Borges e Gabriela Biló, Enviados especiais

    01 de setembro de 2019 | 03h00

    AMAZONAS - No meio da floresta amazônica, muito longe das nuvens de fumaça das queimadas que cobriram a região Sudeste do País, o pequeno Mauro Neto, de oito anos, entra às pressas em casa, corre até o quarto, pega um cartaz e volta para a varanda, onde a reportagem conversava com seus pais.

    O menino, que vive em Realidade, uma vila de madeireiros de 3 mil habitantes erguida nos arredores de Humaitá (AM), na BR-319, abre orgulhoso o cartaz que ganhou na escola. No papel, a marca de uma mão e uma de um animal, com a frase: “Um por todos e todos contra as queimadas”.

    A lição que o pequeno Mauro já aprendeu na escola ainda se propaga de forma lenta pela Amazônia. São poucos, como o menino de Realidade, que conseguem enxergar os prejuízos da derrubada da floresta.

    Durante dez dias, o Estado viajou pela região sul do Amazonas, a partir da Transamazônica e da BR-319, que liga Porto Velho a Manaus. No rastro das queimadas, foram muitos os relatos de ribeirinhos, comerciantes, pequenos produtores, indígenas, madeireiros, fazendeiros e brigadistas, de que o fogo faz parte da rotina da floresta no período das secas. A diferença, desta vez, é o volume dos incêndios.

    No rosto do povo da Amazônia, foi possível observar a apreensão daqueles que foram avisados, às pressas, de que deveriam retirar logo os animais de seus sítios, porque outro proprietário iria colocar fogo no mato. Fogo este que avança por unidades de conservação, apesar do trabalho de brigadistas para tentar aplacar os incêndios.

    As lições dadas ao pequeno Mauro Neto, ainda que lentamente, se propagam. Se por um lado madeireiros relatam as dificuldades de operar regularmente por causa da corrupção no setor, por outro há quem tente, com pequenas iniciativas, alterar a lógica do desmatamento.

    É o caso de Gilson Caetano, um professor de Santo Antônio do Matupi, que mantém uma horta na escola pública, para ensinar alunos a plantarem e a cuidarem da floresta desde cedo. Essa mesma lição é ensinada na terra indígena Tenharin, onde são cultivadas mudas de mogno, jatobá e ipê, o “ouro da floresta”.

    Motivados pela mesma empolgação do menino Mauro Neto, os projetos têm como objetivo espalhar a ideia de que é possível eliminar as fumaças de queimadas que assombraram o País.

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    Milton Hatoum escreve poema inédito sobre destruição da Amazônia

    'Não consigo olhar fotos que mostram incêndios na Amazônia', afirma escritor

    Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

    01 de setembro de 2019 | 03h00

    SÃO PAULO - “Não consigo olhar fotos que mostram incêndios na Amazônia”, conta, voz embargada, o escritor e colunista do Estado Milton Hatoum. Nascido em Manaus, em 1952, ele lá viveu até a adolescência, quando iniciou sua trilha pelo mundo. Desde 1999, mora em São Paulo, mas suas raízes continuam fincadas na capital do Amazonas, cujas lendas e problemas inspiram sua escrita.

    “Meus romances falam de uma Manaus que não existe mais. O urbanismo em harmonia com a floresta acabou nos anos 1980. A cidade que está lá hoje é uma das mais desiguais do Brasil”, disse ele, em entrevista em 2013. “Desde a década de 1970, venho apontando para os problemas da devastação daquela área”, diz Hatoum agora, lembrando que, em 1977, publicou um livro de poemas, Amazonas, ilustrado com fotos de Isabel Gouvêa, João Luiz Musa e Sônia da Silva Lorenz.

     

    Ali, seus versos lamentavam a destituição da herança cultural (crenças, rituais de trabalho, aspirações) da população, como também acontece no poema O Fim que Se Aproxima, que o Estado publica aqui em primeira mão (no vídeo abaixo, o escritor faz a leitura do poema).

    O Fim que Se Aproxima

    Milton Hatoum

    Amazonas: mito grego

    menos antigo que os mitos da Amazônia.

    Os que vivem no Cosmo há milênios

    são perseguidos por mãos de ganância, 

    olhos ávidos: minério, fogo, serragem, fim. 

    Quem são vocês,

    incendiários desde sempre, 

    ferozes construtores de ruínas? 

    Os que queimam, impunes, a morada ancestral, 

    projetam no céu mapas sombrios:

    manchas da floresta calcinada,

    cicatrizes de rios que não renascem.

    Qual Brasil se esconde 

    atrás da humanidade amazônica?

    Que triste pátria delida,

    mais armada que amada:

    traidora de riquezas e verdades.

    Quando tudo for deserto,

    o mundo ouvirá rugidos de fantasmas.

    E todos vão escutar, numa agonia seca, 

    o eco:

    Não existirão mundos, novos ou velhos,

    nem passado ou futuro.

    No solo de cinzas: 

    o tempo-espaço vazio.

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    A floresta passou a fazer parte de nós

    Confira os bastidores da cobertura realizada pelos enviados especiais do 'Estado', André Borges (textos) e Gabriela Biló (fotos)

    André Borges (texto) e Gabriela Biló (fotos), enviados especiais à Amazônia

    03 de setembro de 2019 | 15h00

    Pé na estrada

    Vocês dois vão para a Amazônia, para cobrirem os incêndios. A decisão foi comunicada pela chefia do Estadão a nós na quinta-feira, 22 de agosto. Mal sabíamos que, 12 horas depois, já estaríamos embarcando. Tudo muito rápido, mas, ao contrário do que possa parecer, não é nada fácil mandar alguém para dentro da floresta amazônica, em chamas. Todos sabiam que podia ser arriscado e, jornalisticamente, um tiro no escuro, dada a dimensão da Amazônia. A chefia apostou que a história deveria crescer nos próximos dias, e muito. Já vínhamos acompanhando a crise ambiental há muito tempo. Era hora de ir a campo.

    Ótimo, pensamos. Reportagem especial é a razão de ser de qualquer jornalista. Se para um de nós (André Borges) era a chance de retornar para a Amazônia, para o outro (Gabriela Biló) era a oportunidade de estrear em uma cobertura na floresta.

    Depois de reuniões com a chefia e consultas a fontes, ficou acertado que iríamos para a região sul do Estado do Amazonas. Arrumamos equipamentos e compramos umas camisetas de manga longa para aguentar o sol forte na floresta. As passagens chegaram e a confirmação do aluguel do carro. Nada de reserva de hotéis, afinal não tínhamos ideia de onde iríamos dormir. Na manhã seguinte, partimos para o fogo.

    Dia 1

    Porto Velho (RO), Realidade (AM) e Humaitá (AM)

    Mochila nas costas. Depois de três horas e meia de voo a partir de Brasília, chegamos a Porto Velho (RO). Alugamos o “foguete” - nome que nosso carro faria jus em ganhar nos dias seguintes - e saímos em busca das chamas. Não. Partimos, antes, para o supermercado. Uma caixa de isopor cheio de garrafas de água (com gás), gelo, um monte de pacote de bolachas, pão, mussarela fatiada. E seguimos para a estrada.

    Cruzamos o Rio Madeira e seguimos pela BR-319, a estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). Era nosso caminho para chegar finalmente à Transamazônica, depois de uns 100 km rodados. Foi quando, na estrada, nos deparamos com uma enorme plantação de eucaliptos totalmente seca, um grande paliteiro queimado. Um trator empilhava as toras dentro do caminhão. A viagem mal tinha começado, e já esbarrávamos na primeira apuração. O produtor de eucaliptos teve prejuízo de R$ 1 milhão com o fogo. Anotamos, filmamos. Biló se empolgou e subiu na carroceria do caminhão lotado de troncos para fotografar. Legal, depois só precisa descer. O motorista do trator trouxe a máquina e ergueu a pá. O “elevador escavadeira” trouxe Biló para o chão. Seguimos viagem com uma história na bolsa.

    Na BR-319 esburacada, chegamos à vila “Realidade”, já dentro do Amazonas. É um antigo assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) isolado no meio da mata, reduto de madeireiros onde vivem cerca de 3 mil pessoas. Ouvimos moradores, registramos histórias para compor nossa cobertura. Mas nada de achar fogo aceso por ali. Retornamos e acessamos a Transamazônica, rumo a Humaitá.

    Contamos piada, histórias, falamos da vida, do trabalho, de tudo. Mas no fundo o que havia uma baita ansiedade de chegar às áreas de fogo. É para isso que fomos para ali. Quem ateou o fogo, onde e por quê. Bateu um receio de estarmos no lugar errado, atrasados em relação ao fogo e à concorrência. Mantivemos o plano.

    Dia 2

    Manicoré (AM)

    A balsa encalhou. Em outro trecho do Rio Madeira, ficamos mais de uma hora ouvindo os comerciantes reclamando da fumaça forte que tinha encoberto a capital naqueles dias. Tínhamos de cruzar o rio para seguir viagem. Não havia outro caminho. Biló começou a fazer uns retratos na beira do rio, onde os ribeirinhos descarregavam suas coisas. Ouvimos as histórias de “João Barqueiro”, que ela adorou fotografar e me fez prometer que escreveria sobre ele.

    Finalmente a balsa desatolou e conseguimos seguir viagem. No caminho, nada de fogo. O máximo que víamos eram áreas já queimadas. Horas depois, passamos na beira de uma aldeia indígena, onde decidimos parar e pedir informações. Foi quando percebemos que estávamos dentro da base do Prevfogo, a unidade de combate ao incêndio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) instalada na terra indígena.

    Fomos recebidos por um grupo de brigadistas. Na hora, percebemos que a maior parte deles era indígena. Descobrimos que estávamos dentro da terra indígena dos Tenharin, cortada pela Transamazônica, e que esta terra tinha acabado de pegar fogo. Os índios iriam a campo com os demais brigadistas para fazer o combate. Era mais uma matéria que nascia ali. 

    No jornal, a expectativa era receber uma matéria especial para por na capa do domingo. Fomos avisados que o espaço principal do jornal estava reservado para uma foto e um texto e que aguardariam tudo até as 21 horas.

    Eram 15 horas e ainda não tínhamos nada. As coisas ganharam corpo quando conseguimos conversar com o cacique da aldeia, que fez questão de nos mostrar onde sua terra tinha queimado. Ótimo. O único problema é que era longe. Mas muito longe para aquele horário. Partimos para a “estrada do estanho”, um caminho de terra, areia e poças de lama, cerca de 130 km de estrada de terra. O tempo era curto. Tínhamos que ir, fazer as fotos e vídeos, voltar, transmitir o material em algum local com conexão e escrever o texto antes do fechamento da edição do jornal.

    Às 17h30, finalmente chegamos ao lugar onde o fogo passou, uma área conhecida como Campos Amazônicos. Não podíamos ficar mais do que 30 minutos. Se perdêssemos o fechamento, nada teria valido a pena. Trabalho pronto, corremos de volta para a aldeia. Chegamos quase às 21 horas, com boa parte do texto escrita dentro do carro. Com a ajuda dos índios, conseguimos uma conexão bem precária. Por um momento, achamos que tínhamos perdido a capa do jornal. Bateu alguns segundos de frustração, depois de toda a apreensão que passamos, escrevendo e tratando as fotos no caminho de volta. Quando finalmente conseguimos transmitir, já passava das 21 horas. Enviamos e ficamos mudos, quietos. Então, veio uma imagem pelo celular, com a foto da primeira página. O jornal esperou até o último instante. Conseguimos. A foto sairia na edição do dia seguinte. 

    Para encerrar o dia sem almoço, recebemos um prato de comida cedido pelos índios, duas redes emprestadas para dormirmos na aldeia. Comemoramos com uma lata de cerveja, já quente àquela altura, carregamos o tempo todo para celebrar.

    Dia 3

    Manicoré (AM)

    O dia foi de espera. Queríamos fazer o combate ao fogo com os brigadistas, mas os planos mudavam o tempo todo. “Só vamos entrar, se for para ganhar o jogo”, dizia o chefe da brigada. Mais ligações, estudos de estratégia, pedidos de reforço e nada de ir para o combate.

    Durante o dia inteiro, vivemos da promessa de acompanhar uma missão, que não aconteceria mais. Ficamos na aldeia, entrevistamos o líder dos Tenharin e conhecemos um projeto muito bacana, de reflorestamento da Amazônia feito por eles mesmos. Não nos lembrávamos de ter visto uma muda de mogno na vida. E lá estavam dezenas delas. Essas viagens são assim, conhecimento puro.

    Garantimos mais uma matéria na mão.

    Pensávamos o tempo todo na possibilidade de seguir, de deixa-los ali e partir em busca de outra equipe e do fogo. Mas sabíamos que o risco era enorme de não encontrar. Era preciso aguardar um pouco mais.

    Aproveitamos para resgatar a apuração do primeiro dia, quando estivemos no eucaliptal. Foi uma boa saída para não deixar o jornal sem matéria. Tudo certo. Enviamos o material, que foi capa da edição. No fim do dia, ainda acreditávamos que iríamos ao combate, mas uma “ordem de cima” chegou e fomos gentilmente convidados a nos retirar do acampamento da brigada.

    Não entendemos os motivos. Havíamos ficado ali porque os próprios brigadistas nos convidaram. No segundo dia, porém, alguma determinação vinda de fora fez o clima mudar.

    Decidimos seguir estrada para encontrar onde comer e dormir. Mas deixamos claro que voltaríamos para tentar acompanhá-los em combate. Uns 80km depois, chegamos a Santo Antonio do Matupi. Um hotel simples, espetinhos de carne e fomos descansar. 

    Dia 4

    Manicoré (AM)

    Acordamos às 4h30. Biló disse que iríamos matar um leão. Saímos ainda no escuro e pegamos a Transamazônica de volta depois, a temida estrada do estanho. Já haviam nos dito que nosso carro, que não era um 4X4, não valia nada, que era uma porcaria tentar atravessar com um veículo de tração em dois eixos e que éramos uns irresponsáveis de andar com aquilo naquela região. É que eles não conheciam o “foguete”. Depois de cinco horas de solavancos, derrapadas e de quaaaaaaaase atolarmos um sem-fim de vezes, nossa carro nos levou à base do Instituto Chico Mendes (ICMBio), no meio do nada, nos Campos Amazônicos.

    No caminho, uma imagem incrível de boiadeiros que conduziam, pela estrada, mil cabeças de gado compradas por um fazendeiro do Amazonas. Viajavam há mais de 30 dias. Uma história linda. Anotamos, registramos e seguimos adiante.

    Tomamos café da manhã de chiclete e curtimos um belo almoço de bolacha de água e sal, que fingimos ser um filé ao molho madeira e alguns aspargos, para deixar a coisa mais sofisticada.

    Depois de tudo isso, surpresa: nenhum brigadista havia chegado à base do ICMBio. Por ali, apenas dois seguranças mal humorados, sem nenhuma vontade de ajudar. Quando resolvemos voltar e procurar novamente pela estrada, nos deparamos de frente com os brigadistas. É agora, pensamos. Seguimos a equipe até o fogo, que estava distante, registramos as ações ao lado dos combatentes.

    Por mais de uma vez, ficamos no meio do fogo com eles. Ouvimos gritos para que recuássemos. O material estava na mão. Nos despedimos, agradecemos e fomos apagar o nosso incêndio editorial: achar uma conexão para mandar tudo para o jornal. Na correria, infelizmente, o “foguete” perdeu alguns pedaços no caminho. Nada grave. Ele passa bem.

    Dia 5

    Manicoré (AM)

    Acordamos e decidimos seguir viagem rumo leste da Transamazônica, para Apuí. Antes, porém, passamos em uma escola pública para ver como lidavam ali com a questão ambiental. Descobrimos um projeto bacana, que colocava as crianças para plantar mudas em um canteiro da própria escola. Mais uma matéria na manga.

    Pegamos a estrada para Apuí. No caminho, uma coluna de fumaça se erguia forte no meio do mato, na margem esquerda. Entramos por uma estrada vicinal para ver o que estava acontecendo ali. Encontramos fazendas e sítios em chamas, o fogo invadindo a mata. Estávamos ali sozinhos, no meio mata, com o fogo em volta. De repente, se aproxima um senhor numa moto. Não imaginávamos, mas era o nosso furo que chegava sobre duas rodas.

    O produtor nos contou que os donos dos sítios da região, como ele, foram avisados por fazendeiros que eles queimariam tudo ali. Gravamos a entrevista, registramos as imagens de sua casa com tudo queimado ao redor. Um segundo produtor confirmou a mesma informação. Tínhamos uma história para publicar.

    Dia 6

    Apuí (AM)

    Um dia inteiro de viagem pela Transamazônica, 100% de terra. Chegamos à noite a Apuí, escrevemos e editamos o que estava na manga. O sinal de internet era muito ruim, só funcionava de madrugada. Combinamos de acordar às 3 horas. Cada um mandaria seu material. Tínhamos que garantir que tudo chegasse cedo. O jornal dava início ao processo de transformação digital de suas publicações, o que mudava todo o fluxo do trabalho daquele dia em diante. Na manhã seguinte, comemoramos. A internet, aos pouquinhos, enviou bit por bit para a redação.

    Dia 7

    Apuí (AM)

    Acordamos sem uma matéria definida na cabeça. E talvez isso tenha sido a melhor coisa que nos aconteceu. Fomos tomar café e recebemos a informação de que na terra dos Tenharin, que tínhamos deixado para trás, o fogo havia aumentado. Naquele momento, achamos que poderíamos ter tomado a decisão errada de avançar pela estrada. Chegamos a considerar um retorno imediato. Antes disso, porém, resolvemos bater um papo com agentes da Polícia Civil e da Justiça, para tentar detalhar um pouco mais o clima da cidade. Na Polícia Civil, nada. Seguimos para o Tribunal de Justiça. Ninguém ali, apenas um oficial de justiça.

    Não sabíamos ainda, mas naquele momento, de forma intuitiva, apoiados unicamente em nossa curiosidade jornalística, estávamos próximos de conseguir uma entrevista exclusiva que se mostraria fundamental para o nosso trabalho. Com autorização do oficial, começamos a pesquisar processos recentes sobre crimes ambientais que estavam em julgamento. No meio de pilhas de papel, achamos a história de Valter Costa Ribeiro Filho. Tratava-se de madeireiro em prisão domiciliar, usando uma tornozeleira eletrônica, a poucos metros dali, detido pela Polícia Federal.

    Conseguimos levantar seu endereço. Sozinhos, batemos em sua porta. Não estávamos certos de que nos atenderia, mas tínhamos que persistir naquilo. E deu certo. Valter nos recebeu com estranhamento, mas quando viu que conhecíamos detalhes das informações de seu caso, achou que deveria nos receber. Fomos para a varanda de sua casa, uma propriedade grande. O madeireiro abriu o jogo, contou bem mais do que esperávamos sobre o submundo dos madeireiros. Foi mais de uma hora de conversa gravada, e muita tensão.

    Valter, que diz estar ameaçado de morte, ficou rodeado de diversos seguranças enquanto falava com a gente. Ao fim da conversa, fotografamos e, com a permissão dele, também filmamos. Saímos de lá com a noção certa do que tínhamos conseguido. O dia que havia começado sem nada, terminava com um material único e crucial para entender o desmatamento na Amazônia. Procuramos uma lan house às pressas para digitar a entrevista e enviar todo o material fotográfico e vídeo. Deu certo.

    Dia 8

    Apuí (AM)

    Decidimos pegar o caminho de volta, pela Transamazônica. Um dia inteiro de estrada até Humaitá (AM). Antes de sair, fomos comprar algumas roupas novas. Sim. Todas as calças, camisetas, calcinhas e cuecas já estavam pela hora da morte. E em nome da transparência, vamos admitir que chegamos a usar algumas peças do avesso. Notamos que já tínhamos passado do limite quando passaram a nos olhar de forma estranha nas ruas. Foi quando encontramos um saldão! Problema resolvido.

    Chegamos à noite a Humaitá e, que legal, não encontrávamos nenhum hotel para ficar, nada. Tudo cheio por causa de festas locais. Acabamos em uma espelunca de R$ 50 a diária, com aquele chuveiro gelado de praxe. Àquela hora, nenhum lugar aberto para jantar, mais nada. Recorremos às nossas bolachas. De Brasília, a chefia da redação nos avisou que estava na hora de nos mandar o resgate.

    Dia 9

    Humaitá (AM)

    Este seria mais um dia de estrada e poeira, até chegar a Porto Velho. Por isso, decidimos passar a manhã fechando o material que a chefia havia planejado para uma matéria de final de domingo. A ideia foi amarrar as histórias que trouxemos. Fomos avisados que o escritor Milton Hatoum, que é de Manaus, escreveria um poema inédito para sair com a nossa reportagem final. Em áudio, Hatoum também leria seu poema sobre a Amazônia, ilustrado com as nossas fotos da cobertura. Ficamos emocionados.  

    Dia 10

    Porto Velho (RO)

    Certo, nem tudo foi só trabalho. Neste último dia, quando pegaríamos o avião com destino a Brasília às 17 horas, nos demos ao luxo de tomar um banho de rio, de comer um belo peixe assado no barracão do Jair e apreciar a força do Rio Madeira. No avião, enquanto seguíamos para a capital federal, escrevemos este capítulo final. Dentro de nós, carregamos a sensação de ter passado meses na floresta. A Amazônia, uma vez percorrida, passa a fazer parte de nós. É como se você estivesse impregnado dela. Algo muda em você. Fim.

     

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    Plano de retomar as obras na BR-319 expõe desafios da fronteira amazônica

    Aberta nos anos 1970 e ícone da ideia de ‘integrar para não entregar’, estrada esteve em projetos de governos seguidos mas nunca voltou a ser asfaltada; reocupação preocupa ambientalistas e é vista com ceticismo pela população

    André Borges (texto) e Gabriela Biló (fotos), enviados especiais à Amazônia

    16 de setembro de 2019 | 03h00

    BRASÍLIA, HUMAITÁ E MANICORÉ - Da porta da casa que ergueram na beira da BR-319, os agricultores João Ferreira Santana e Nilda Santana imaginavam que o “futuro” estava próximo. Com seis filhos nos braços, eles tinham deixado o Ceará, naquele distante 1972, para tentar a vida na floresta. Estavam entre as milhares de pessoas que, naquela época, migraram para a Amazônia encorajadas pela propaganda militar. Era o tempo de “integrar para não entregar”, e eles estavam ali, nas margens da nova estrada que se abria no meio do Estado do Amazonas.

    A BR-319 era o ícone maior dessa integração, ao lado da Transamazônica. Com seus 870 quilômetros de extensão, ligava Manaus a Porto Velho (RO) e, assim, integrava a capital do Amazonas ao restante do País por uma malha viária. O casal Santana foi o primeiro a chegar à Vila Realidade, um assentamento do Incra em Humaitá, sul do Amazonas. “A estrada estava na terraplenagem, na terra mesmo. Depois, veio o asfalto. A gente viajou muito por essa estrada”, lembra João, com 82 anos. 

    Hoje, o barro e a poeira estão na porta dos moradores de Realidade, que assistem, dia e noite, caminhões abarrotados de madeira ilegal passando pela estrada. O asfalto virou pó. É como se nunca tivesse existido ali. “Dizem que essa estrada vai ser asfaltada de novo”, diz dona Nilda, com pés na terra. “Duvido.” 

    A BR-319 foi construída e pavimentada entre 1968 e 1976, sendo o único caminho terrestre de chegada a Manaus. Sua abertura fazia parte do Plano de Integração Nacional (PIN), encampado pelo general Emílio Garrastazu Médici. Naquela época, a rodovia chegou a ter tráfego em alta velocidade, com linhas de ônibus que faziam de Manaus a Porto Velho em 12 horas. 

    Menos de uma década depois, a estrada já não permitia aceleração acima de 40 km/h, por causa do estado deplorável do asfalto. O pavimento, abandonado após o fim dos recursos do governo militar, foi rapidamente dissolvido pelas chuvas, pelas altas temperaturas e pela drenagem do solo. Em 1988, a rodovia era “intrafegável”, conforme registros históricos do Ministério dos Transportes.

    Depois disso, a retomada das obras já fez parte de praticamente todos os governos desde a redemocratização. Nos últimos anos, constava nos balanços do extinto Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Nada ocorreu. Hoje, o governo federal promete recapear toda a estrada. “Já ouvimos essa história muitas vezes”, diz Marcos Mauro, dono de uma borracharia em Realidade. “Acho muito difícil de acontecer. Se eles pelo menos reformarem as partes piores, já seria alguma coisa.”

    Experiência da BR-163 serve de alerta

    A retomada da estrada divide opiniões. Ambientalistas afirmam que, caso as obras da BR-319 seja retomadas sem considerar a complexidade ambiental da região, podem resultar em experiências catastróficas. Esse risco consta de análise do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “Experiências malfadadas, como os resultados atuais do licenciamento ambiental da rodovia BR-163, com seu propalado Plano BR-163 Sustentável, não devem ser revividas”, afirmou o órgão em nota técnica que analisa o licenciamento da estrada Porto Velho-Manaus.

    O histórico das instalações de rodovias mostra que, sem fiscalização eficaz, a intervenção pode potencializar processos de degradação ambiental e ilícitos ambientais, como abertura de novas frentes de desmatamento irregular, ocupação desordenada do entorno da rodovia, grilagem de terras públicas e conflitos agrários, invasão e retirada ilegal de madeira de unidades de conservação. Hoje, o entorno da BR-163 é tomado por terras em situação irregular, áreas desmatadas irregularmente e focos de incêndio. “Instrumentos de planejamento e compromissos não cumpridos ou com resultados duvidosos, e com reflexos ambientais altamente negativos, não podem e não devem ser repetidos na BR-319”, declara o Ibama.

    Hoje, a estrada tem asfalto em condições razoáveis apenas nas extremidades, na região de Porto Velho e de Manaus. Um trecho central de 400 km, no entanto, o chamado “meião”, permanece em péssimas condições, só transitável em épocas de seca. 

    No mês passado, o Ministério da Infraestrutura tratou de colocar a restauração da rodovia no Programa de Parcerias e Investimentos (PPI), que centraliza as prioridades do governo federal. Um trecho inicial de reformas, que sai de Manaus e avança até o km 102, já foi licitado. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), também tem autorização para pavimentação entre o km 198 e o km 250. “Para o Trecho do Meio ainda há a necessidade de avançar em tratativas para a obtenção da licença ambiental”, declarou o ministério.

    Dnit passou 10 anos sem entregar estudo

    Levantamento realizado pelo Estado mostra que, desde 2009, o Ibama aguarda complementos de um Estudo de Impacto Ambiental (Eia-Rima) para autorizar o licenciamento da área central da BR-319, um trecho de 400 km de extensão que está em situação quase intrafegável. Os estudos e obras na estrada federal são de responsabilidade do Dnit. 

    Há dez anos, o órgão submeteu seus estudos ambientais ao Ibama. A qualidade do material entregue, no entanto, considerada ruim, levou a autarquia a declarar, naquele ano, que o estudo “não reúne as mínimas condições e informações que permitam avaliar a viabilidade ambiental do empreendimento”. 

    Neste ano, o governo retomou o tema e elaborou um novo estudo de impacto ambiental, quase do zero, para liberar as obras. O plano é enviar esse novo relatório ao Ibama em até dois meses. Questionado sobre o assunto, o Dnit declarou que a obra “é prioritária para a atual gestão da autarquia”. A licitação do projeto deverá acontecer até dezembro, segundo o Dnit, com o início das obras em 2021. 

    “A autarquia já investiu cerca de R$ 70 milhões para criação e demarcação de novas unidades de conservação federais e estaduais, no entorno da rodovia, atendendo condicionantes ambientais.

    Rodovia conecta região a países vizinhos

    Entre 2019 e 2022, há previsão de investir R$ 345 milhões na estrada. Na defesa do projeto, o governo justifica que a rodovia conecta a região aos sistemas rodoviários de países vizinhos, como Colômbia, Peru e Bolívia, assim como as hidrovias do Madeira e Amazonas, que ligam o interior da região amazônica às costas do Caribe e dos Oceanos Atlântico e Pacífico. “É um importante elo do sistema intermodal e relevante para o desenvolvimento nacional”, declarou o Ministério da Infraestrutura.

    Para os aposentados João Ferreira Santana e Nilda Santana, o discurso oficial são palavras lançadas ao vento, depois de tantas promessas descumpridas. Para o pequeno produtor Mario Garcia, 42 anos, no entanto, é o “futuro” que se aproxima. Há menos de um mês, ele chegou a Realidade, trazendo a mulher Gislaine Aparecida e os três filhos pequenos. “Viemos pra ficar. Vamos plantar aqui, criar carneiros. A estrada vai sair.”

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