Dida Sampaio/ Estadão
Onça-pintada aguarda resgate no Pantanal Dida Sampaio/ Estadão

Onça-pintada aguarda resgate no Pantanal Dida Sampaio/ Estadão

Estadão acompanha devastação no Pantanal; veja vídeo

Equipe do Estadão está em Poconé (MT) e registra o avanço do fogo que vem castigando animais e também produtores e população

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT)

Atualizado

Onça-pintada aguarda resgate no Pantanal Dida Sampaio/ Estadão

O Estadão está em Poconé (MT) desde quinta-feira, 10, e vem acompanhando de perto a destruição causada pelo fogo no Pantanal. Os incêndios queimam áreas de mata e castigam animais e também produtores e a população, como mostram o repórter Vinicius Valfré e o fotógrafo Dida Sampaio. Essa é a maior série de queimadas na região nas últimas duas décadas, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As labaredas engoliram dois milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro juntos, destaca o Ibama. 

A equipe do Estadão acompanhou o trabalho de resgate de animais e vem ouvindo relatos de pessoas afetadas pelo fogo. Veja o vídeo.

 

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Bois correm para se proteger do fogo que avança na região da Transpantaneira Dida Sampaio| Estadão

Fogo cerca rebanhos no Pantanal

Estadão mostra o Brasil que produz dentro das regras, mas sofre com as queimadas. Equipe de reportagem acompanha a situação em Poconé e traz os relatos de quem vem sendo atingido pelos incêndios

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

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Bois correm para se proteger do fogo que avança na região da Transpantaneira Dida Sampaio| Estadão

O velho fazendeiro e trinta de seus bois estavam encurralados pelo fogo. Jamil Costa, 71 anos, cada minuto da idade vivido neste rincão do Pantanal do Mato Grosso, tentava guiar de caminhonete os animais desgarrados de um rebanho de duas mil e quinhentas cabeças pela Rodovia Transpantaneira quando foi surpreendido pelo bloqueio do caminho. De repente, o incêndio veio ainda, ao longe, de outras frentes. “Estou dentro de um círculo de fogo”, disse por rádio a uma filha, desesperado. “Que seja feita a vontade Dele.”

As preces do pantaneiro a São Benedito e a São José se sucediam no ritmo do aumento do bafo da queimada que se aproximava. Entre uma oração e outra, ele viu o fogo dar trégua num dos lados e, no rumo das labaredas mais baixas, acelerou o carro na esperança de que por lá o foco fosse curto. Aproveitou a ajuda da Providência para escapar. Por horas, as chamas tomaram um vasto trecho da rodovia e de suas margens. “Mirei meu gado e esqueci de mim”, disse, à noite, com a cabeça no gado deixado para trás. Uma relação intensa, de homem e bichos, se rompera.

Dias antes, contou ele ao Estadão, o fogo engolira 90% do pasto nativo da fazenda de 40 mil hectares de Jamil em Porto Jofre, localidade de Poconé, a 290 quilômetros de Cuiabá. Ele decidiu, então, arrendar um curral a quilômetros dali para transferir a boiada. Mas a vida do pantaneiro não é fácil. Os focos também apareceram na nova área e o produtor teve de transferir os animais novamente de lugar.

O cerco do fogo ocorreu nessa segunda transferência. Numa tarde do começo de setembro, Jamil aproveitou o descanso do rebanho na beira da estrada para ajudar um grupo de amigos também fazendeiros a conter uma queimada que atingia uma ponte de madeira. Foi nesse momento que, afastado dos demais, tentou trazer os animais desgarrados para onde estava a maior parte do rebanho e se viu cercado pelo fogo.

Durante uma semana, o fazendeiro e seus vaqueiros não conseguiram ir atrás e saber o paradeiro dos animais – a fumaça densa impedia o monitoramento à distância e as condições de um resgate eram ainda difíceis. Jamil temia que boa parte dos bois tivesse tido o mesmo fim que capivaras, antas, veados e onças mortas nos últimos dias.

Para a surpresa dele e dos boiadeiros, os bichos reapareceram dias depois, ilesos. Tinham feito um caminho próprio para se salvar das labaredas. “É um incêndio criminoso”, esbraveja o fazendeiro numa conversa com o Estadão, marcada pela emoção do pantaneiro.

Ele direciona a denúncia para pecuaristas e peões sem conhecimento da região e preocupação com o meio ambiente que chegaram recentemente ao Pantanal. Jamil se abre para dizer que produz dentro das regras impostas por uma legislação ambiental, implantada a partir dos anos 1980, que pouco trouxe de impedimentos à criação tradicional do gado pantaneiro. 

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Fogo dessa dimensão ninguém nunca viu. Uma seca igual a que estamos passando eu só vi nos anos 70. E agora veio a seca, o fogo e o vento
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Jamil Costa, fazendeiro

O rebanho de Jamil é resultado de um trabalho centenário iniciado por seu pai e seu avô numa época em que o peão que matava onça que ameaçava o gado tinha a façanha premiada com um casal de bezerros. Hoje, a preservação do felino é fundamental para milhares de pantaneiros que complementam a renda proporcionada nos currais e baias com o turismo. A partir de junho, quando a água das planícies começa a baixar, estrangeiros, sobretudo, chegam por terra e ar para conhecer o bioma e observar onças-pintadas em seu ambiente natural. Os onceiros viraram guias. De março para cá, contudo, uma nova realidade se impôs. O fogo atinge a pecuária na mesma velocidade que o coronavírus fechou as portas do turismo.

Tradição

O fazendeiro faz parte de uma geração de pantaneiros que insiste contra as intempéries da criação de bovinos no Pantanal. O ecoturismo é uma atividade muito mais estável. Turistas pagam caras diárias para temporadas de aventuras. De outro lado, até que um bezerro desmamado possa ser vendido por R$ 1.400, é preciso trabalhar duro por dois anos, diante do temor de catástrofes. De março para cá, contudo, uma nova realidade se impôs.

Aqui, a ideologia de “passar a boiada” pregada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de desrespeitar normas legais da área - ou impostas pela natureza -, não faz parte da trajetória dos produtores tradicionais. No Pantanal, a pecuária se desenvolve há quase 300 anos, desde muito antes do boom de abertura de fazendas após a Guerra da Tríplice Fronteira (1864-1870), sem alterar a dinâmica do meio ambiente. A figura do boiadeiro incorporada à paisagem natural tem bases reais. Tradição e modernidade sempre estiveram juntas.

O ritmo da água dos rios da Bacia do Paraguai, na avaliação de especialistas, impôs limites à presença humana e forçou a integração entre o setor produtivo e o meio ambiente. No chuvoso, que começa no próximo mês e vai até março, as águas inundam as terras baixas e retilíneas onde estão as fazendas e, entre abril e setembro, a seca permite aos animais crescerem e engordarem.

Neste tempo de seca, os pantaneiros sempre fizeram queimadas para renovar a pastagem, mas nada na proporção que impactasse a paisagem ou causasse atritos com os órgãos ambientais. A água das inundações ajuda bem mais na limpeza das ervas daninhas. O gado é criado solto. O fazendeiro não se sente obrigado a grandes cuidados nem a gastar com agrotóxicos, deixando para a própria natureza o cuidado diário dos animais. Daí a necessidade de saber os limites e reconhecer o ciclo da vida como parceiro.

No sangue

A variação entre secas prolongadas e enchentes exige habilidade e conhecimento elevados para manejar rebanhos de pasto a pasto sem que o custo das transferências por pontes precárias de madeiras ao longo de dias inviabilize a atividade. É uma destreza que pecuarista recém-chegados não carregam no sangue e que, segundo os antigos, acaba prejudicando todo o ecossistema.

Um hectare de terra no Pantanal pode ser comprado por R$ 300 a R$ 1,2 mil. O valor é irrisório, se comparado com terras produtivas de São Paulo e Minas Gerais, por exemplo. “Vendem uma perninha da terra deles lá e compram uma porção de terra aqui. Vêm numa empolgação, mas não conhece os problemas. Na primeira paulada que levam, abandonam, vão embora e torcem para alguém comprar a fazenda”, diz Jamil ao Estadão.

Ele explica que o gado ajuda a manter a vegetação rente ao chão. Pastos abandonados aumentam o acúmulo do material orgânico que pode alimentar queimadas. “Se não voltarem os pantaneiros para o Pantanal, isso (fogo) aqui não vai parar por aqui”, diz.

No início da tarde deste domingo Jamil voltou ao combate com o fogo. Ele liderou um grupo de cinco peões para combater um novo foco de incêndio em suas terras. O grupo contava com um trator e um carro-pipa. Jamil subiu no trator e avançou para cavar uma vala e interromper as labaredas. "Esse homem é louco, esse cara vai morrer aí", pensou alto o operador da mangueira.

Só com profundo conhecimento é possível, no tempo de chuva, enxergar os caminhos de terra firme numa paisagem de tanta água. Mas, no tempo de queimada sem fim e disputas ideológicas sem conexão com a vida rural, até os velhos fazendeiros sofrem para identificar trilhas e salvar a boiada do fogo.

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Jacaré queimado, de ponta cabeça, indica que ele pode ter morrido se debatendo Dida Sampaio| Estadão

Pantanal virou cemitério de animais a céu aberto

O Estadão esteve em áreas às margens da rodovia Transpantaneira e encontrou dezenas de animais carbonizados

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

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Jacaré queimado, de ponta cabeça, indica que ele pode ter morrido se debatendo Dida Sampaio| Estadão

Segurança não é uma característica da Rodovia Transpantaneira. A paisagem, com suas árvores, áreas alagadas e fauna, ao longo de 145 quilômetros de perigo, permite uma sensação de prazer. Com as queimadas, porém, terrenos secos, habitats dos animais, se transformaram em cemitérios para as espécies.

Na companhia de biólogos que atuam no salvamento de animais, o Estadão esteve em áreas às margens da estrada com dezenas de serpentes carbonizadas. Cascavéis e sucuris morreram contorcidas presas pelo fogo que se alastrou pela mata da várzea e pelos pastos nativos.

Um jacaré queimado, de ponta cabeça, indica que ele pode ter morrido se debatendo, segundo os especialistas. Outro da mesma espécie chegou a identificar a presença de água e partiu em direção a uma área com tímida presença de vegetação. O instinto acertou ao prever a água no local, mas ela estava sob depósitos de cinzas. As patas traseiras estendidas indicavam, segundo biólogos, um esforço extremo do jacaré para correr o mais rápido que pôde.

A única estratégia para poupar vidas de animais que ainda não foram consumidos pelas chamas é espalhar alimentos e água por locais estratégicos. São as ONGs, entidades empurradas por trabalhos de voluntários, que mais se dedicam à tarefa.

A bióloga Karen Domingo contou ao Estadão que sai de Cuiabá aos finais de semana para auxiliar no amparo a animais. Os voluntários gastam para comprar os próprios equipamentos de segurança, dormem em instalações improvisadas e se lançam em missões sem estrutura.

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Eu acho que o Pantanal é a minha casa. Tenho que dar a minha contribuição
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Karen Domingo, bióloga

O professor de biologia Luiz Solino também tem dedicado os finais de semana ao trabalho. “Acho que preciso dar uma resposta pra sociedade porque fiz meu mestrado em faculdade, e fiz aqui no Pantanal. De alguma forma aproveitei isso”, conta. “São pessoas que estão aqui sem receber um real. Muita gente não acredita, acha que é fake. Mas é o maior evento atípico do Pantanal e quem está atuando são os próprios afetados”, disse Ilvânio, presidente da ONG Ecotrópica, às quais Solino e Karen são ligados. 

 

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Onça-pintada foi resgatada por voluntários e biólogos no Pantanal Dida Sampaio| Estadão

Fogo avança nos últimos redutos de onças no Pantanal

Estadão está em Poconé (MT) e acompanha de perto a devastação causada pelo fogo e o resgate de animais, entre eles uma onça pintada

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

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Onça-pintada foi resgatada por voluntários e biólogos no Pantanal Dida Sampaio| Estadão

Tarde de mormaço no Pantanal de Mato Grosso. Pelo Rio São Lourenço, corre a informação, de barco em barco, que uma onça-pintada está cercada pelo fogo na margem de um afluente do curso, a montante. Num cais da localidade de Porto Jofre, em Poconé, a 290 quilômetros de Cuiabá, o “piloteiro” Vandir Garcia, o Cabelo, diz à equipe do Estadão que pode chegar com sua voadeira até o animal em 45 minutos.

É a maior série de queimadas na região nas últimas duas décadas, informa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As labaredas engoliram dois milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro juntos, destaca o Ibama.  “O fogo neste ano aqui está muito brabo. Os animais não conseguem escapar”, afirma, por sua vez, Cabelo, um paraguaio de 49 anos, há 30 em serviços de transporte nos caudalosos cursos de água.

Na viagem para localizar a onça, o “piloteiro” demonstra incômodo também com o nível do mormaço. O horizonte no estirão do rio ganha um tom avermelhado e o calor torna-se mais intenso. Focos de incêndio surgem de um lado e outro. Uma densa fumaça encobre o céu. A fuligem está em toda parte. A visibilidade é limitada. Nos trechos mais abertos, é possível ver tuiuiús, martins-pescadores e biguás nos remansos.

Antes de sair do cais na voadeira pilotada por Cabelo, na última sexta-feira, o Estadão se certificou que uma rede formada por moradores, voluntários, biólogos de uma ONG de defesa de animais e donos de pousadas seria informada da localização da onça assim que terminasse uma outra missão de resgate.

Após alguns minutos de viagem, o barco entra no Rio Corixo Negro, que deságua no São Lourenço, área de presença constante de jacarés e sucuris. O braço é mais raso e um descuido pode prender a embarcação na galharia do leito.

Foram apenas 35 minutos para a equipe avistar a onça estirada num trecho da margem esquerda. É um macho jovem. Tem aproximadamente dois anos e pesa cerca de 100 quilos, estima Cabelo. Um ribeirinho que passou por ali jogou uma piranha para a onça, que não teve forças para se alimentar.

Da voadeira, o Estadão registra o momento em que o animal se levanta, caminha e logo depois interrompe o deslocamento. As patas estão feridas, em carne viva. Lambidas na parte de baixo das patas removem a pele queimada em uma tentativa de amenizar o sofrimento. Possivelmente, a onça fez um grande esforço para chegar à beira do rio, área onde poderia se salvar. Antas, capivaras, cobras, veados e aves morrem por asfixia ou queimaduras ainda dentro da mata.

O Estadão aguarda o grupo de salvadores de animais para que a onça não desapareça. Uma hora depois, os integrantes da rede encostam seu barco. A missão em que estavam não teve bom resultado. Ainda no dia anterior, o grupo chegou a usar tranquilizantes em um animal que agonizava, mas o bicho se assustou e voltou para a mata.

A operação para retirar uma onça-pintada de seu habitat, mesmo quando debilitada, é complexa e perigosa. Requer paciência. O grupo de salvamento é liderado por Eduarda Fernandes Amaral, de 20 anos, natural de Cuiabá. Ela é uma liderança em Porto Jofre que faz a interlocução entre donos de pousadas, Corpo de Bombeiros, ONGs e agentes ambientais do governo do Mato Grosso. “O Pantanal é muito grande para os poucos bombeiros que vieram”, afirma.

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As pessoas dirigem na Transpantaneira, veem o fogo, mas não imaginam o que acontece no coração do Pantanal. Não tem brigadista, não tem ninguém.
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Eduarda Fernandes Amaral

Assustada

Os veterinários logo percebem que o caso da onça do Corixo Negro é crítico. Assustada, magra e sem forças, tem dificuldades para manter-se de pé. O barco do grupo de salvamento e a voadeira do guia do Estadão são manobrados para forçá-la a se deslocar para um local específico da beira do rio. Dali, um médico veterinário tentaria se desvencilhar dos galhos e acertar uma zarabatana com sedativo.

O animal resiste e se abriga sob raízes em um barranco. As manobras prosseguem ao longo de uma hora. Finalmente, o veterinário Jorge Salomão, 36, da ONG Ampara Animal dispara a zarabatana para atingir a corrente sanguínea da onça. Em dez minutos, o felino “dorme”, de olhos abertos. A partir daí, começa outra corrida contra o tempo para suspendê-lo e colocá-lo numa jaula, onde serão feitos os primeiros socorros.

Uma base instalada em uma pousada à margem da Transpantaneira, estrada que passa pela região, recebe o animal provisoriamente, até que começa outra etapa do processo de salvamento. É preciso providenciar helicóptero ou caminhão para levar o bicho para tratamento. Por fim, a onça foi levada de helicóptero para um centro especializado na Universidade Federal de Mato Grosso. O último boletim médico-veterinário informava que ela resiste.

Como o governo federal não enviou agentes ambientais ou homens das Forças Armadas ou da Força Nacional suficientes para combater as queimadas que se prolongam há meses, os próprios pantaneiros se unem numa ofensiva sem muitos recursos e estrutura em defesa do Pantanal.

A guerra declarada pelo presidente Jair Bolsonaro às ONGs que atuam na preservação ambiental não faz eco entre os pantaneiros. Os donos de pousadas abriram as portas dos quartos e puseram voadeiras à disposição dos biólogos e veterinários das entidades de proteção de animais que ajudam a movimentar a indústria do turismo. “As consequências do incêndio só não estão sendo piores porque houve uma união. A gente se juntou", afirma Marcos, gerente de uma pousada em Porto Jofre. Os pantaneiros resolveram salvar por conta própria as onças, símbolos de um País solidário, ainda selvagem e fascinante.

Em nota, o Ministério da Defesa diz que o governo federal atua "decididamente e sem poupar esforços" no combate aos incêndios no Pantanal por meio das Forças Armadas. A pasta ressaltou que pôs um helicóptero da Marinha para ajudar em dois resgates de onças. Quanto à crítica por falta de efetivo na região, o ministério ressalta que engaja 200 militares nas atividades. O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, disse que enviou para a região cinco aviões, dois helicópteros do Ibama, 80 viaturas e 400 brigadistas.

Segundo a Defesa, estima-se que os focos de incêndio concentrados em Poconé, Barão de Melgaço (MT), e uma área em Porto Jofre, já tenham passado por redução superior a 72%, conforme relatório emitido em 23 de agosto pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso. Os focos na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, uma das áreas mais afetadas, diminuíram em 97%.

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Pantanal está triste, diz produtor

Pela estrada até Poconé, Estadão viu de perto a devastação do fogo que consome a vegetação nativa desde julho

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT), O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2020 | 14h00

O drama da maior série de queimadas no Pantanal pode ser visto bem longe das matas e várzeas da região e foi presenciado pelo Estadão. No centro de Cuiabá, em Mato Grosso, as máscaras de pano anticovid-19 não evitam o cheiro forte da nuvem cinzenta sobre a cidade. Os termômetros registram 33ºC. O clima é abafado e quente. Neste fim de semana, a fumaça dos incêndios no bioma e na Amazônia começou a chegar aos Estados do Sudeste e do Sul.

Pela estrada até Poconé, primeiro município da região pantaneira a partir da capital mato-grossense, é possível ver a devastação do fogo que consome a vegetação nativa desde julho. Também fica visível a ausência de ações intensivas do Poder Público para conter os focos.

Há quatro dias em viagem pelo Pantanal, o Estadão se deparou com equipes reduzidas do Corpo de Bombeiros e nenhum contingente das Forças Armadas - geralmente os militares são empregados em catástrofes ambientais.

A destruição atinge desde propriedades particulares a áreas de grande interesse científico e ambiental. O governo de Mato Grosso estima que mais da metade dos 108 mil hectares do Parque Estadual Encontro das Águas, onde está a maior concentração de onças-pintadas no planeta, foram queimados. A unidade ecológica fica na localidade de Porto Jofre, a 290 quilômetros de Cuiabá. É dali que saíram, no começo da semana, as primeiras imagens de onças com patas feridas e enfaixadas.

Queimadas numa região de produção de bois e secas prolongadas são corriqueiras. As deste ano, porém, alcançaram dimensão avassaladora e inédita para sitiantes, barqueiros e boiadeiros que carregam a experiência de uma vida inteira enfrentando as estiagens. Pequenos pecuaristas revelam o medo de perder a fonte de renda porque pastos que já eram modestos foram reduzidos a cinzas.

Montado em um alazão, o produtor Celso Rondon vistoria queimadas nas redondezas de Poconé, a 103 quilômetros de Cuiabá. Além do sobrenome e dos traços físicos, o encanto com os temas do sertão também o assemelha ao marechal Cândido Mariano, desbravador do Centro-Oeste. Com a sabedoria de quem vive há 64 anos no Pantanal, diz nunca ter visto sua pequena criação de bezerros ameaçada.

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Este Pantanal é um Pantanal muito feliz. Nosso Pantanal é cheio de alegria. Agora, você só vê tristeza. Nosso gado está morrendo de fome
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Celso Rondon, produtor

O Estadão encontrou Rondon no final da Rodovia Transpantaneira. A estrada de 145 quilômetros começa logo depois do perímetro urbano de Poconé. É o início do Pantanal mato-grossense – dos 150 mil quilômetros quadrados do bioma no território brasileiro, 65% estão em Mato Grosso do Sul e 35% em Mato Grosso. O bioma ocupa ainda áreas da Bolívia e do Paraguai, num espaço total que equivale ao Estado de São Paulo.

Às margens do caminho de terra e cascalho, a paisagem pantaneira se revela com a presença dos primeiros jacarés e tuiuiús – e com as primeiras grandes áreas em cinzas. Corpos de bichos de pequeno e médio porte que não conseguiram escapar do fogo estão por todos os trechos da estrada.

É um percurso formado por uma centena de pontes de madeira, muitas em péssimo estado de conservação. As estruturas são desafios à segurança de moradores e viajantes. Com o incêndio, o que era inseguro ficou ainda mais. O fogo derrubou a sustentação de algumas pontes e não há qualquer aviso a respeito. Na sexta-feira, 11, uma das estruturas sem desvios não resistiu ao peso de um ônibus. O fluxo foi interrompido. A dica dos pantaneiros para evitar acidentes é explorar ao máximo os desvios que existem ao lado das pontes, o que aumenta o tempo da viagem. Em alguns momentos da viagem, o fogo ameaçava "abraçar" a estrada para chegar ao outro lado e o mais prudente era acelerar o carro.

 O Estadão acolheu a orientação quando adentrou a Transpantaneira, por volta das 13 horas da quinta-feira, 10. No caminho, colheu relatos sobre animais em apuros por parte de brigadistas, veterinários e nativos. Militares locais disseram que o ponto mais crítico era aos fundos de uma fazenda vizinha ao Parque Encontro das Águas. Duas dezenas de bombeiros tinham a atribuição de não permitir que o fogo atravessasse um acesso preparado desde a véspera.

A estratégia confidenciada pelos bombeiros não era a de por fim ao fogo - uma missão considerada impossível diante da falta de estrutura. Está de bom tamanho tentar proteger apenas as áreas mais sensíveis e deixar que a natureza decida quando quer por fim às queimadas, afirmaram em caráter reservado ao Estadão.

O fogo que rompe à noite deixa rastros pela manhã. A fumaça forma uma neblina desde as primeiras horas do dia. O cheiro da queimada e a fuligem são permanentes, o que compromete uma frente de ação contra os incêndios.

Em Porto Jofre, quatro aeronaves agrícolas foram deslocadas para lançar, a cada sobrevoo, dois mil litros de água sobre focos de incêndio. Sem visibilidade segura, os aviões permaneceram em solo na quinta-feira, 10, e na sexta-feira, 11. “Com essa visibilidade de 100 metros não tem condições de subir”, relata o piloto privado Gustavo Borges, 33 anos. “Operamos aqui dois dias, mas já temos dois dias sem operar.”

O incêndio é mais um golpe para a indústria do turismo que já vinha mal por conta da covid-19. Com menos clientes, os proprietários podem, no entanto, dedicar todo o tempo e esforço para proteger a região e ajudar a resgatar animais.

Ao chegar na madrugada de quinta-feira a Porto Jofre, um povoado com iluminação noturna precária, o Estadão não encontrou pousadas abertas. Após alguma procura e campainhas tocadas em vão, restou adentrar a varanda de uma delas e pernoitar em redes na noite enfumaçada do Pantanal.

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Queimadas são consequência de incêndios criminosos e desequilíbrio climático

Com nível de chuvas 40% menor que em 2019, o desmatamento nas cabeceiras dos rios que convergem para campos alagados completou o efeito explosivo

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT), O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2020 | 14h00

Na avaliação de especialistas ambientais ouvidos pelo Estadão, a maior série de queimadas no Pantanal dos últimos tempos ocorre numa combinação de incêndios criminosos e um desequilíbrio hídrico e climático decorrente de problemas ambientais em outras regiões do País. O nível de chuvas neste ano no Pantanal foi 40% menor que em 2019. O desmatamento nas cabeceiras dos rios da Amazônia e do Cerrado que convergem para seus campos alagados completou o efeito explosivo.

Dados da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso apontam que a maior parte dos focos de calor surge justamente em propriedades privadas. Mais de cinco mil foram registrados dentro de áreas cercadas. Nas estimativas oficiais, 15% da cobertura natural pantaneira virou pastagem.

O bioma vive seu momento mais difícil desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou a registrar focos de calor. Em julho, o número desses focos no bioma chegou a 1.684, ultrapassando os 1.259 registrados em 2005. A tragédia continuou. Ainda assim, em 28 de agosto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou a suspensão já precária das ações de combate ao fogo tanto no Pantanal quanto na Amazônia.

O ministro informou que R$ 60 milhões da pasta tinham sido bloqueados pela Casa Civil. A repercussão negativa da declaração de Salles levou o vice-presidente Hamilton Mourão a dizer que o ministro tinha “se precipitado” e o dinheiro estaria à disposição.

 

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Após Estadão mostrar devastação no Pantanal, Marinho oferece ajuda a estados para combate a incêndio

Ministro do Desenvolvimento Regional afirmou que enviará neste domingo um representante da Pasta ao local; equipe do Estadão está em Poconé e mostra o avanço do fogo na região

Fabrício de Castro e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 12h27

BRASÍLIA E POCONÉ (MT) - Após reportagem do Estadão revelar o efeito devastador das queimadas sobre as matas e os animais do Pantanal, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, afirmou que enviará neste domingo ao local um representante da Pasta. Em mensagem nas redes sociais, Marinho também ofereceu ajuda aos governos do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul para o combate ao fogo.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Pantanal enfrenta a maior série de queimadas das últimas duas décadas. As labaredas engoliram dois milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro juntos, destaca o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Como mostrou o Estadão, alguns dos animais símbolos da região, como a onça-pintada, estão acuados pelo fogo. ONGs, Corpo de Bombeiros, agentes ambientais e até empresários da área de turismo se esforçam para salvar os animais.

Na noite de sábado, 12, Marinho tratou do assunto pelo Twitter. "Hoje, por orientação do PR (presidente) @jairbolsonaro, entrei em contato com os governadores de MT e MS para reiterar a oferta de ajuda para combate aos incêndios", escreveu o ministro. "Através da defesa civil nacional estamos monitorando o problema e desde o dia 02 de setembro já começamos a liberar recursos."

Marinho afirmou ainda que o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Alexandre Lucas Alves, viajará neste domingo, 13, ao Pantanal. "Às 15 horas nosso secretário nacional da defesa civil estará no local dos incêndios levando apoio técnico e financeiro para apoiar estados e as suas respectivas equipes no enfrentamento do desastre", disse Marinho. "A orientação é não faltar meios para debelar o fogo que ameaça o pantanal." A assessoria do Ministério do Desenvolvimento Regional confirmou que o secretário desembarcará em Campo Grande (MS) às 15 horas deste domingo.

Nas áreas atingidas pelo fogo, a percepção é de que o governo federal não enviou agentes ambientais ou homens das Forças Armadas ou da Força Nacional suficientes para combater as queimadas que se prolongam há meses. O Estadão está Poconé (MT) e verificou que os próprios pantaneiros se uniram numa ofensiva, sem muitos recursos e estrutura, em defesa do Pantanal.

Em nota, o Ministério da Defesa diz que o governo federal atua "decididamente e sem poupar esforços" no combate aos incêndios no Pantanal por meio das Forças Armadas. A pasta ressaltou que pôs um helicóptero da Marinha para ajudar em dois resgates de onças. Quanto à crítica por falta de efetivo na região, o ministério ressalta que engaja 200 militares nas atividades. O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, disse que enviou para a região cinco aviões, dois helicópteros do Ibama, 80 viaturas e 400 brigadistas.

Segundo a Defesa, estima-se que os focos de incêndio concentrados em Poconé, Barão de Melgaço (MT), e uma área em Porto Jofre, já tenham passado por redução superior a 72%, conforme relatório emitido em 23 de agosto pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso. Os focos na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, uma das áreas mais afetadas, diminuíram em 97%.

 

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Habitats dos animais se transformaram em cemitérios para as espécies Dida Sampaio| Estadão

Em fotos: veja em 30 imagens as queimadas e a destruição do Pantanal

Estadão está em Poconé (MT) e acompanha de perto a devastação causada pelo fogo

Vinícius Valfre e Dida Sampaio , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Habitats dos animais se transformaram em cemitérios para as espécies Dida Sampaio| Estadão

O Estadão está em Poconé (MT) desde quinta-feira, 10, e vem acompanhando de perto a destruição causada pelo fogo no Pantanal. Os incêndios queimam áreas de mata e castigam animais e também produtores e a população, como mostram o repórter Vinicius Valfré e o fotógrafo Dida Sampaio. Essa é a maior série de queimadas na região nas últimas duas décadas, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As labaredas engoliram dois milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro juntos, destaca o Ibama. Veja as imagens.

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Eduarda Amaral, agente de turismo do Pantanal, guiava o bote que estacionou perto da onça Dida Sampaio| Estadão

Lago de jacaré e gasolina a R$ 10: os bastidores da reportagem que revelou o Pantanal em chamas

Equipe do Estadão acompanhou de perto a devastação causada pelo fogo

Por Vinícius Valfré (texto) e Dida Sampaio (fotos), enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Eduarda Amaral, agente de turismo do Pantanal, guiava o bote que estacionou perto da onça Dida Sampaio| Estadão

Primeiro dia

Fogo e fumaça pela Transpantaneira

A cidade de Cuiabá estava encoberta por uma densa nuvem de fumaça cinza. Logo no desembarque no aeroporto, no fim da manhã da quinta-feira de começo de setembro, o odor intenso das queimadas na cidade aumentou nossa ansiedade de chegar ao Pantanal, ainda a quilômetros dali, para registrar a série de incêndios que devastava o bioma.

Após reuniões sobre o drama ambiental, o jornal nos orientou a relatar em campo a situação nas zonas atingidas pelo fogo, entender o impacto dos incêndios e a registrar o desafio enfrentado por animais e pessoas numa terra em chamas.

Levamos um estoque de máscaras anticovid-19 e precisávamos nos adaptar a elas sob temperaturas que passavam dos 40ºC. Com as carteiras de motorista em dia, alugamos um carro no aeroporto de Cuiabá e dali seguimos pela MT-060 direto para Poconé, a 110 quilômetros. Antes mesmo de chegar à cidade pantaneira, vimos sinais das queimadas na vegetação das margens da estrada. Da cidade, iríamos percorrer os 145 quilômetros de terra e cascalho da Rodovia Transpantaneira até o coração do Pantanal.

Por volta de 13 horas, chegamos ao centro de Poconé. Ali, fizemos uma parada de 15 minutos num restaurante. Era tempo suficiente apenas para um rápido almoço e conversa com as primeiras fontes que retornavam ligações e passavam informações pelo WhatsApp e por e-mail sobre áreas mais críticas do incêndio. A gasolina do carro parecia suficiente.

No início da Transpantaneira, tivemos o primeiro contato com um Brasil que produz e atrai milhares de turistas todos os anos, mas que se viu diante de uma catástrofe. O Pantanal era fumaça densa e labaredas de fogo que, segundo estimativas, atingiam 25 metros.

Paramos o carro no KM 17. Ali funciona um Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres, mantido pelo governo do Estado.  Um funcionário separava frutas para alimentar animais salvos do fogo e um bombeiro reclamava que não conseguia contato via rádio com equipes de campo. Um filhote de cervo e uma maritaca recebiam cuidados.

Um agente nos informou que o ponto mais crítico das queimadas era dentro de uma fazenda que ladeia o Parque Estadual Encontro das Águas, a 70 quilômetros do posto. Pisamos no acelerador e continuamos a viagem. A reserva abrigava aproximadamente 80 onças na estimativa de biólogos da região.

No Pantanal, tudo se apresenta em grandes proporções. A chegada à fazenda tomada por focos de incêndio deu uma nova dimensão ao desafio à frente. Até a sede da propriedade eram mais 30 quilômetros de estrada.

Lá, uma meia dúzia de bombeiros tentava evitar que labaredas vencessem um pequeno vão de terra batida e ganhasse o terreno do parque. Dida fez os primeiros registros do Pantanal em chamas.

A noite já havia caído quando regressamos à Transpantaneira. Era impossível prever o tempo de viagem até Porto Jofre, na extremidade final da rodovia. A estrada não é boa, tem buracos e pedregulhos. As mais de cem pontes de madeira não oferecem segurança. Ora o carro passa inclinado à direita, ora à esquerda. Mais à frente, um buraco na estrutura nos exigia colocar o pneu rente à beirada oposta.

A estrutura de uma ponte havia sido consumida pelo fogo e não havia qualquer aviso. Com prudência, pegamos o desvio. Dida dirigiu a maior parte do caminho e seguiu à risca a orientação de um funcionário do governo: evitar pontes sempre que houver um desvio debaixo dela.

Após desvios e rotas por dentro de fazendas em busca de histórias, a gasolina que parecia suficiente não nos permitiria chegar a Porto Jofre. Uma pane seca no meio do nada poderia nos render um problema grave. É que em alguns trechos da Transpantaneira o fogo parecia tomar a estrada. Uma das sessões de fotos feitas por Dida com drone e em cima do carro precisou ser interrompida. O lugar havia ficado quente demais e decidimos seguir. As condições indicavam que, caso o motor parasse, um socorro seria bem difícil.

Com pouca gasolina, encontramos uma pousada que virou base para ONGs e voluntários que atuam na proteção animal. Além de repassar informações, o pessoal ali nos ofereceu dois litros de gasolina que possivelmente impediram que ficássemos cercados pelo fogo. Dida usou a habilidade para transferir o combustível de um tonel para o nosso tanque com uma mangueira.

Cansados e sem se alimentar por horas, chegamos a Porto Jofre a uma da manhã. Começamos a bater nas portas e a tocar campainhas de pousadas. Nada. Por sorte, encontramos um morador que, por acaso, havia se deslocado para um ponto com acesso à internet. Ele se dispôs a guiar-nos até onde poderia haver algum alojamento.

Todos os estabelecimentos, porém, estavam fechados. A covid-19 suspendeu o fluxo de visitantes que, nesta época do ano, coloca as taxas de ocupação em algo entre 80% e 100%.

Entramos no terreno de uma pousada, na beira do Rio Cuiabá. As acomodações eram espalhadas, como pequenas casas, e não tínhamos ideia em qual delas os funcionários poderiam estar. Estacionamos e avançamos a pé no rumo de uma piscina. Ali havia a varanda de um restaurante, com duas redes. Virou ponto de pernoite e base.

Eram 2 horas da madrugada. Desde às 14 horas do dia seguinte não falamos mais com o jornal. Agora a conexão estava restabelecida. Antes de ler dezenas de pedidos de retornos, mandei logo uma mensagem: “Oi, gente. Desculpe o sumiço. Acabamos de encontrar um lugar para dormir em Porto Jofre. Ainda bem que a porteira de uma pousada estava com a trava aberta e tinha uma senha de Wi-Fi escrita numa placa pendurada na varanda onde encontramos redes”.

Segundo dia

Cara a cara com a onça

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Quando ela for atingida, ninguém faz nenhum barulho, combinado?
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Pela manhã da sexta-feira, tínhamos que dar alguma satisfação aos gerentes da pousada. Dávamos a repreensão como certa, mas, para a nossa surpresa, contamos com a total compreensão deles pela invasão. Além de informações preciosas sobre a dinâmica do bioma pantaneiro, ganhamos orientação logística.

Contamos sobre a gasolina e nos ofereceram um desconto. Porto Jofre não tem posto de combustível e tivemos que negociar com quem tinha reservatórios. Na pousada, cobraram R$ 10 pelo litro. Moradores pediam até R$ 12.

Até ali, não tínhamos um material razoável para enviar ao jornal. Havíamos gasto um dia só para a viagem. Achei melhor depositar no bolso da camisa um terço que ganhei do meu irmão e que representa muito pra mim. Não queria que nada desse errado.

Hora de rascunhar os primeiros textos, checar os vídeos e imagens produzidas e traçar a estratégia do dia. Estávamos perto de uma parte acessível por rios do Parque Estadual Encontro das Águas e decidimos que o melhor a fazer era ir até lá.

Escute o podcast Estadão Notícias sobre os bastidores da reportagem no Pantanal

Acontece que as pousadas, sem turismo, têm equipes reduzidas. O pessoal que ficou atendia pescadores e moradores de regiões próximas que costumam vir em finais de semana ao Pantanal. Uma chance de sair de casa, apesar da crise sanitária.

Não era fácil conseguir alguém para a empreitada. Depois de muita procura, negociamos um barco. Faltava o "piloteiro". E não poderia ser qualquer um. A fumaça turva a visão no caminho, a fuligem não deixa que os olhos fiquem abertos por muito tempo.

Funcionários da base em que estávamos deram a dica de procurar pelo Cabelo, a alguns quilômetros dali. Nascido em Assunção, Paraguai, Vandir García tinha o dia livre e aceitou o serviço. Assim que chegamos ao píer da pousada, recebemos a informação de que uma onça ferida havia sido avistada no Rio Corixo Negro, nas cercanias do parque. O piloteiro disse que nos colocaria diante dela em 40 minutos.

O relógio marcava 11h19 quando ele ligou o motor. No caminho, encontramos a embarcação de voluntários que se dedicam ao resgate de animais fazendo o caminho de volta. Era o mesmo grupo que havia nos cedido os dois litros de gasolina na véspera. Pensamos: bom que a onça foi resgatada, mas perdemos a notícia.

Quando o barco passou mais perto vimos que a jaula estava vazia. Cabelo suspeitou que iriam trocar o bote para não correrem o risco de o assoalho se prender na parte mais rasa onde estaria a onça. Depois, saberíamos que eles ainda nem tinham a localização do animal. O rio era largo, não conseguimos nos comunicar. Seguimos a toda em busca da onça ferida.

Dentro do tempo previsto por Cabelo, chegamos à margem em que estava o felino. O animal conhecido pela ferocidade e pela força estava prostrado. Com a nossa aproximação, esboçou se afastar, mas as patas não suportavam o seu peso. Estavam em carne viva. Dida segurou o obturador da câmera e registrou todos os movimentos do felino.

Precisávamos esperar pelos veterinários voluntários. A onça podia desaparecer de vista. Quase uma hora depois, eles nos encontraram e a operação de resgate começou.

A equipe era liderada por uma jovem de 20 anos. Sentada na proa do barco, Eduarda Amaral, agente de turismo do Pantanal, guiava o bote, que finalmente estacionou perto da onça. "Quando ela for atingida pelo tranquilizante, ninguém faz nenhum barulho, combinado?", disse Eduarda. Fizemos tudo o que a menina mandou.

Ela é de Cuiabá, mas vive e trabalha no Pantanal. Montou um projeto que reúne voluntários de várias partes do País para atuar no combate às chamas e na proteção da fauna. Nas nossas incursões, encontramos várias vezes com Eduarda, que estava sempre com um semblante sério liderando reuniões tarde da noite, pressionando funcionários do Estado e direcionando o barco nos rios.

"A pandemia de certa forma acabou ajudando. Como todos os tours foram cancelados ou reagendados para 2021, a gente acabou tendo mais tempo para fazer alguma coisa", disse, na base montada na pousada do empresário João Paulo, em Porto Jofre.

O trabalho para tranquilizar a onça é complexo. Uma investida mal sucedida podia fazer com que o bicho entrasse no rio e morresse afogado dentro de dez minutos, tempo para a medicação fazer efeito. O veterinário Jorge Salomão se arriscou pelo barranco, por trás da onça, que esboçou uma defesa.

Depois de mais de uma hora de observações e tentativas de aproximação, Salomão finalmente conseguiu acertar uma seta de zarabatana no animal. O sedativo atingiu a coxa direito do felino, que ainda conseguiu remover a injeção com a boca. A medicação, porém, já havia sido introduzida. Em dez minutos, o animal deitou.

Não se podia perder tempo. Era preciso checar se a onça realmente estava fora de ação e seguir com os procedimentos para colocá-la numa jaula e levá-la para os primeiros socorros. Foram quatro homens fazendo força para levantar o bicho do chão.

Voltamos à base e, com dificuldades de conexão, conseguimos transmitir as imagens para o jornal. Trabalhamos no chão da varanda onde pescadores animadamente bebiam e fumavam ao som de clássicos sertanejos.

Os biólogos conseguiram um helicóptero da Marinha para levar a onça a um centro de tratamento da Universidade Federal de Mato Grosso. O animal sobreviveu. A foto e a história estamparam o portal do Estadão no começo da tarde de sábado e a capa da edição impressa de domingo. Pela primeira vez em dois dias, pudemos tomar um bom banho e jantar. A noite, porém, seria de muito cheiro de cinza e mormaço.

Terceiro dia

“Foi crime”

No sábado, terceiro dia de viagem, fomos atrás de histórias de velhos pantaneiros.

Conhecemos o produtor rural Jamil Costa, de 71 anos, dono de um rebanho de 2.500 cabeças. Na conversa, ele chorou ao relatar que, dias antes, ficou cercado pelo fogo quando tentava salvar parte do gado desprendido da boiada numa tentava transferência dos animais para outra área. A relação dele com o Pantanal é intensa. À revelia dos filhos, insiste em manter a criação bovina porque era assim que seu pai e seu avô faziam.

Jamil perdeu 90% de seu pasto para o fogo e enfrentava grave problema para alimentar o rebanho. O produtor foi contundente. Ele disse que o incêndio neste ano no Pantanal foi “criminoso” e responsabilizou fazendeiros que chegaram nos últimos anos. Na avaliação de Jamil, os novos não entendem as características da região. Muitos abandonam as propriedades, deixando sedimentos acumularem nos pastos, facilitando a propagação do fogo.

Alguns dias depois, a operação Matáá, da Polícia Federal, em Mato Grosso do Sul, estado vizinho que abriga uma parte do bioma, divulgou que 25 mil hectares de área de preservação em Corumbá tinham sido queimados de forma proposital. Os criminosos tinham interesse em aumentar pastagens. Oito mandados de busca e apreensão foram expedidos.

Especialistas ouvidos pela reportagem avaliaram que a série de queimadas que destrói o Pantanal desde julho é resultado de diversos fatores. O crime é um deles. Além dos incêndios propositais, o bioma enfrenta um desequilíbrio hídrico e climático provocado por desmatamentos ambientais nas cabeceiras e formadores de rios de outras regiões do País, como o Cerrado e a Amazônia. Destes dois biomas nascem os cursos que abastecem o ecossistema pantaneiro. Vale observar ainda que o nível de chuvas neste ano em Mato Grosso foi 40% menor que no ano passado.

A entrevista com Jamil foi feita na hora do almoço, exatamente quando ele voltava em casa. Tinha ido buscar comida para os funcionários que combatiam uma queimada na fazenda para onde a boiada tinha sido transferida. Começou a comer sem mastigar e desculpou-se pela pressa. O pasto ardia em chamas.

Arley Costa, filha do produtor rural, nos presenteou com duas marmitas. Ela gerenciava uma outra pousada na região. Depois, seguimos de carro para o local onde o seu pai estava. Nosso interesse era registrar Jamil trabalhando para salvar o gado. Contudo, erramos o caminho.

Quando recuperamos a rota, nos vimos diante de uma história que precisávamos registrar. Biólogos de uma ONG distribuíam frutas em ilhas de alimentação para bichos que não morreram queimados. Eles disseram que nos acompanhariam até um local onde existiam animais mortos.

Jacarés, cobras e tatus estão mortos. Guiado pelos biólogos, Dida deitou sobre as cinzas para fotografar os animais. Pelas condições em que morreram, os jacarés tinham se guiado por instinto para uma pequena área de vegetação onde poderia haver umidade, disseram os estudiosos. Mas a água estava coberta por matéria orgânica incinerada. Um dos jacarés que encontramos estava virado de ponta cabeça. Para os biólogos, era sinal de que o réptil morreu se debatendo no fogo. Se a agilidade de onças e jacarés não evitou que muitos deles se ferissem ou morressem, o que pensar do fim cruel do jabuti que encontramos queimado?

Para além das imagens, a história dos biólogos que tentavam salvar os animais dizia muito. Descobrimos voluntários como Karen Domingo, que dedica os dias livres ao trabalho de proteção à fauna pantaneira. A distribuição de alimentos em pontos estratégicos é fundamental para a sobrevivência de animais. O fogo consumiu o que eles tinham de comer.

O professor Luiz Solino era outro exemplo de entrega. O mestrado dele em Biologia foi feito em universidade pública e teve o Pantanal como objeto dos estudos. Para ele, o trabalho voluntário era uma forma de retribuir os custos gerados à sociedade em sua especialização.

No Pantanal, formou-se uma rede de solidariedade para salvar os animais das queimadas. Biólogos, veterinários, donos de pousadas, proprietários rurais, ribeirinhos e bombeiros compõem uma ofensiva em defesa do bioma.

Integrantes da rede e autoridades de Mato Grosso avaliaram que o efetivo enviado pelo governo federal era insuficiente diante da expansão dos incêndios. Por isso, o jornal procurou os ministérios do Meio Ambiente e da Defesa para comentar sobre a sua atuação. Em nota, a Defesa informou que o governo federal, por meio das Forças Armadas, atuava “decisivamente” e “sem poupar esforços” no Pantanal. A nota destacou que a pasta disponibilizou helicópteros para transportar as onças resgatadas. “Em 40 dias de Operação, estão sendo empregadas 14 aeronaves das Forças Singulares, como os helicópteros UH-12, UH-15, HM-1 e H-60, além dos aviões C-130, C-98 e C-105, e que contabilizam cerca de 308 horas de voo”, ressaltou o comunicado.

Em outro trecho da nota, a pasta disse que deslocou ainda 40 viaturas e duas embarcações utilizadas diariamente no transporte de brigadistas e no despejo de água e um efetivo militar e servidores ambientais para a região. “Em média, estão engajados nas atividades 200 militares e 230 agentes de órgãos como Corpo de Bombeiros Militar de MT e MS, Secretaria de Estado de Segurança Pública, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)”, informou.  O governo de Mato Grosso, por sua vez, esclareceu que mantinha 1.300 homens do Corpo de Bombeiros na parceria com os voluntários.

Ao percorrer estradas e fazendas, a equipe do jornal se deparou, ao longo de cinco dias, com dois dos 200 militares que o governo diz ter enviado. Eles estavam a bordo de uma vitória dos Bombeiros ajudando a conter o fogo que avançava sobre uma ponte. Vale uma observação: o Pantanal é uma área de 150 mil quilômetros quadrados só no Brasil, o que corresponde a quase 2% do território nacional.

Outros números despontaram. Até ali, o bioma tinha perdido 12% de sua cobertura natural. Esse número poderia ser maior se não fosse a rede formada por entidades da sociedade civil e moradores.

No dia 18 de agosto, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esteve em Mato Grosso, mas a visita não surtiu efeito rápido. No início desta semana, depois que o Estadão reforçou a cobertura na região, o governo anunciou que aumentaria os esforços no combate aos incêndios.

Para encontrar os animais mortos, foi preciso sair da estrada e seguir por um pântano seco. Passamos o resto da tarde à procura dos animais e esquecemos das marmitas. À noite, fomos para a pousada gerenciada pela filha de Jamil para pernoitar. Quando embarcou no carro da reportagem para mostrar os aposentos e a cozinha, ela encontrou as marmitas intocadas. A situação era um tanto ruim, pois parecia que tínhamos desdenhado da comida, o que absolutamente não era verdade. Nos demos conta que não tínhamos parado por nenhum momento.

Eu disse a ela que ali estava nosso jantar. Gentilmente, ela recolheu a comida e nos recebeu no restaurante da pousada. Tínhamos tomado apenas um rápido café da manhã e andado quilômetros sob um sol de 43ºC. O sabor do pintado frito compensou toda dificuldade.

Quarto dia

Um parque de onças destruído pelo fogo

Na manhã de domingo, as reportagens do Pantanal em chamas e do resgate da onça-pintada repercutiam na internet e ganhavam repercussão em Brasília, com declarações de ministros e outras autoridades. Como havíamos entrado pela madrugada trabalhando em textos e fotos, acordamos tarde, às 8 horas. O restante da manhã foi dedicado a rever algumas fontes que nos ajudaram e a buscar relatos de outras. Não queríamos perder qualquer história.

Tínhamos combinado com seu Jamil um novo encontro para o começo da tarde, quando ele começaria o manejo do gado. Precisava levar os bois para ainda mais longe do fogo. Fizemos os cálculos sobre o tempo que teríamos para colher imagens e informações e enviar o material a Brasília e São Paulo para que a edição do jornal de segunda-feira fosse preparada. Às três da tarde, o gado deveria estar reunido, e a partir daí teríamos as melhores imagens. O prazo era apertado, mas era o que tínhamos.

Partimos a toda em busca do fazendeiro, a 20 quilômetros de onde estávamos - pela mesma estrada esburacada e com pontes precárias. Tínhamos uma hora para garantir alguma foto e, depois, voltar tudo de novo até o sinal de internet. No local, um funcionário avisou que Jamil estava "dentro do mato" e que para chegar lá só a bordo de um trator.

O tempo passava e nenhum sinal do nosso personagem até que, perto do nosso limite, o trator pilotado por Jamil saiu por trás de uma mata fechada e veio "raspando" o chão para cortar o caminho do fogo.

No caminho em direção a porteira, o trator ficou a uma carreira de distância do nosso carro. No desespero, daria para alcançá-lo a pé. Quando desembarcamos para começar a corrida, o termômetro do carro marcava 46º C.

O mato chegava à altura dos joelhos. Impossível não pensar na possibilidade de ser surpreendido por uma cobra. Fizemos a foto com as canelas ilesas e pedimos desculpa pela pressa.

Voltamos depressa para a pousada. Depressa, enviamos as fotos do produtor rural para o jornal. Depois que o material foi entregue, a chefia pediu que fôssemos registrar a destruição no Parque Estadual Encontro das Águas. O fogo avançava numa área de grande incidência de onças-pintadas. Mais da metade do parque tinha sido destruído pelo fogo.

Por volta das três da tarde, começamos mais uma vez a procurar um barco para nos levar à área do parque. Àquela hora, os piloteiros experientes estavam na água, trabalhando com pescadores. Pedimos ajuda a ribeirinhos, mas os que sabiam nos guiar não tinham barcos. Os que tinham barcos não aceitavam cartão de crédito.

Voltamos, então, ao local onde arrendamos o barco que tinha nos levado até a onça-pintada na sexta-feira. O responsável pela embarcação aumentou o preço, mas disponibilizou o piloto. A condição era que retornássemos antes do escurecer. Andar pelos rios à noite é arriscado.

Até o sol cair tínhamos duas horas para fazer o deslocamento, das quais quarenta minutos eram apenas para chegar ao parque.

Dida fez imagens aéreas. Nas áreas sobrevoadas, não havia mais focos de incêndio. Ele viu que a destruição reduziu boa parte do parque a um campo de cinza e tocos queimados. Após o limite de tempo estabelecido, retornamos à base para planejar o último dia de trabalho.

Quinto dia

Cuiabá está encoberta pela fumaça

O último dia da cobertura jornalística começou cedo. Na pousada, por volta das 5h30, entrevistamos um turista holandês que veio conhecer o Pantanal. Ele disse ter se encantado com o que viu e que só não voltaria por causa dos preços. Era o único estrangeiro visto na redondeza. Em outros tempos, eles seriam maioria entre os visitantes.

Depois nos preparamos para retornar a Cuiabá. O voo de volta para Brasília estava marcado para as 16 horas. Ainda era preciso finalizar algumas reportagens pelo caminho. Os problemas de conexão eram prenúncio de que o dia não seria fácil, como não foi.

A ideia era concluirmos os textos e fazer novas imagens na estrada. Mas precisávamos revezar no volante.

Na volta, os mais de 400 quilômetros percorridos em estradas de cascalhos começaram a fazer efeitos no carro. Prevíamos ter de justificar na locadora ao menos um pneu furado. Estaríamos no lucro se esse fosse o único prejuízo.

De repente, um barulho. Parecia a hora de ir buscar o pneu reserva no porta malas e suar litros para efetuar a troca sob o sol escaldante. Checamos os quatro e todos estavam cheios. Uma peça no fundo do veículo havia se soltado e se arrastado no chão. Nossos conhecimentos de mecânica não ajudaram a identificar a gravidade do defeito. Uma peça se desprendeu próximo às rodas traseiras. Após dobramos uma borracha, resolvemos continuar a viagem. O barulho cessou.

Paralelamente, mais uma vez tivemos de enfrentar o problema da falta de gasolina. Andamos por muito tempo com o tanque na reserva. Uma pane seca atrasaria o envio do material, faria com que perdêssemos o voo e deixaria a chefia preocupada com nosso paradeiro.

A maior parte dos 145 quilômetros da Transpantaneira, sob um calor de 43ºC, percorremos com o ar condicionado desligado. Sem um posto de gasolina à vista, o mais prudente foi parar num pequeno posto policial na beira da estrada e pedir ajuda.

O chefe do local, um coronel da reserva do Corpo de Bombeiros, disse que um soldado estava a caminho do posto para resolver alguns problemas da base e poderia buscar a gasolina, mas com uma condição. Deveríamos continuar o trabalho que o militar deixaria de fazer para nos prestar o favor.

Mãos às frutas e legumes. Enquanto o combustível não aparecia cortamos os alimentos e os distribuímos em cochos que seriam espalhados pela Transpantaneira para aliviar animais silvestres que não morreram no incêndio e estavam sem ter o que comer. Foi um bom negócio para a base, pois um cortador de alimentos foi substituído por dois voluntários – um repórter e um fotógrafo.

Improvisamos uma bomba e colocamos os quatro litros de gasolina no tanque. No posto da cidade de Poconé, enfim, completamos o reservatório. Era o suficiente para voltar a Cuiabá e tomar o voo para Brasília.

Chegamos em cima da hora ao aeroporto da capital mato-grossense, exaustos e sujos. Decolamos num céu ainda cinza. Um turbilhão de imagens começou a vir na memória - o desespero de bichos ferozes e frágeis, a vegetação estalando no fogo, a lama nas lagoas e rios, as denúncias de crimes contra o bioma. Sem a adrenalina e as dificuldades de uma viagem, bateu ainda mais forte a consciência das perdas. Mas veio também lembranças do  trabalho e da rede de solidariedade dos voluntários e moradores para defender uma das riquezas do país, da humanidade. O Pantanal luta para salvar o Pantanal.  

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