Lalo de Almeida/The New York Times
Lalo de Almeida/The New York Times

Esquadrão nerd combate desmatamento na Amazônia

Na luta contra ações ilegais na fronteira, grupo que inclui de oceanógrafo a professor de Ciências precisa pegar em armas e lutar

Simon Romero, The New York Times

24 Abril 2017 | 08h43

TERRITÓRIO DO ALTO TURIAÇU - Nas profundezas da floresta amazônica, um esquadrão de nerds está à solta. Um de seus membros estudava oceanografia do Ártico na Alemanha. O comandante era professor de Ciências do ensino médio. Juntos formam uma das mais temidas unidades de combate da América Latina, nas fronteiras da luta contra o desmatamento.

O comandante da equipe, Roberto Cabral, riu quando perguntei como juntou esse Esquadrão de Elite de nerds. “No universo das atividades ilegais da Amazônia existe desmatamento, mineração de ouro, caça, madeireiras e tráfico de animais”, afirmou. “Queremos combater esse comércio usando a cabeça e nossa presença aqui.”

O Grupo Especializado de Fiscalização (GEF), opera em algumas das regiões mais sem lei da Bacia do Amazonas. Parte do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a agência de proteção ambiental, o grupo geralmente faz patrulha de helicóptero, usando imagens de satélite e informações de inteligência, para detectar o desmatamento e sinais de mineração ilegal.

Do alto. “É preciso ver a Amazônia do alto para ter ideia do tamanho da devastação”, afirmou Maurício Brichta, de 44 anos, oceanógrafo especializado no estudo das algas do Ártico pelo Instituto Alfred Wegener. “Como você pode imaginar”, acrescentou com um sorriso, “não havia muita demanda no Brasil para especialistas em Ártico”.

Antes dessa fase em sua vida, ele cuidava dos filhos em Jacarta e Nova York, cidades onde sua ex-mulher trabalhava como diplomata do Ministério das Relações Exteriores. Depois de voltar ao Brasil, Brichta afirmou que foi atraído pelo idealismo do Ibama e por seu sucesso em controlar o desmatamento, que atingiu níveis alarmantes no início da década passada.

Como quase todos os integrantes da unidade - que inclui engenheiros florestais, um biólogo, um especialista em pesca e até uma pessoa que costumava trabalhar com publicidade -, Brichta conta que nunca imaginou que iria pegar em armas para proteger a Amazônia. Foi aprovado no GEF depois de resistir a um trajeto de sobrevivência na floresta, no qual saltou de helicóptero, enfrentou trilhas na mata fechada, picadas de cobra, longos períodos sem comer nem dormir, além de treinar com armas e facas.

Combate. Hoje participa de ações em um grupo vestido com roupa de combate, colete e capacete à prova de balas - e com rifles de assalto Taurus cruzados sobre o ombro, como a reportagem acompanhou nos extremos do Maranhão. Entrando em territórios indígenas, onde as madeireiras saem em busca de madeira de lei, o esquadrão viu do alto uma serraria improvisada perto da fronteira com o Território Indígena do Alto Turiaçu, onde vive o povo Ka’apor.

Os membros, alguns escondendo o rosto com capuzes, temendo retaliações, entraram rapidamente em ação. Eles atearam fogo na serraria e destruíram duas fornalhas usadas para fazer carvão, antes de subirem novamente nos helicópteros para saírem em busca de um novo alvo.

Alguns minutos depois, pousaram novamente em outro local. A unidade ateou fogo ao trator e à serra elétrica antes de sair em busca dos lenhadores. Pingando suor ao subirem no helicóptero, os membros do esquadrão conseguiam ver a fumaça saindo dos veículos destruídos: uma pequena vitória na luta contra o desmatamento.

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