Especialistas tentam nova eutanásia em baleia nesta terça

Encalhado na praia de Laguna (SC) há quase uma semana, cetáceo resistiu à primeira dose de medicamentos

Karina Ninni, estadao.com.br

13 de setembro de 2010 | 19h57

Pode-se dizer que os esforços para livrar do sofrimento a fêmea que está encalhada na praia de Laguna (SC) desde terça-feira passada (7) estão ficando diretamente proporcionais às dimensões da baleia (que tem 50 toneladas e 18 metros de comprimento). Quase tudo já foi tentado. Durante os três primeiros dias do encalhe, cientistas e voluntários quiseram resgatá-la e devolvê-la ao mar. Não obtiveram sucesso. Os especialistas do Projeto Baleia Franca desconfiaram então que o animal tivesse "se deixado encalhar", pois mesmo com a ocorrência de uma maré alta - que teoricamente permitiria que ele voltasse para o oceano - a baleia permaneceu no local. Imaginou-se que ela estivesse "esperando para morrer." Diante disso, na sexta-feira (10) à noite, os veterinários aplicaram sedativos e anestésicos para sacrificar o mamífero, doados pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (UDESC).

 

Mas, surpreendentemente, encontraram o animal no mesmo estado no sábado de manhã: respirando com dificuldade e mexendo um pouco a pálpebra direita. Agora, auxiliados financeiramente pelo empresariado local, os especialistas compraram mais doses de remédios e vão tentar novamente sacrificar o animal, nesta terça (14).

 

"A literatura científica não tem registro de eutanásia de Francas. Por isso, os cálculos das quantidades necessárias de medicamentos para por termo à vida do animal foram feitos com base em casos de eutanásia de outras espécies, levando-se em conta o peso da Franca encalhada na praia", explica a porta-voz do Projeto Baleia Franca, Michele Cardoso, afirmando que os cientistas e especialistas do projeto só falarão à imprensa depois de finalizado o processo.

 

Os remédios agora foram comprados diretamente de vários distribuidores, em grandes doses, o que complica a logística para levá-los à Laguna. Na pior das hipóteses, a segunda eutanásia pode ficar postergada para quarta-feira (15). Para conseguir as quantias necessárias para comprar remédios, equipamentos e para enterrar a carcaça depois da morte do animal, voluntários e membros do Projeto Baleia Franca, do Centro de Mamíferos Aquáticos, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos da Universidade Federal de Santa Catarina, da Universidade Estadual de Santa Catarina e da ONG R3Animal passaram todo o final de semana recolhendo doações com o empresariado local, que, de acordo com Michele, sensibilizou-se imediatamento com a situação. Conseguiram levantar R$ 25 mil - que cobre, inclusive, as despesas com o enterro da carcaça do animal.

 

Resistência

 

Diversas variáveis explicam a capacidade de resistência da baleia, que continua viva após permanecer encalhada por uma semana. Em primeiro lugar, as baleias, como mamíferos que são, respiram fora d'água (tanto que têm de vir à superfície para puxar ar). Portanto, estar fora d'água, sob esse ponto de vista, não é problema. Em segundo lugar, o litoral de Santa Catarina é um local de reprodução das Francas. "Quando elas vêm para cá, estão preparadas para ficar três meses em processo de reprodução sem precisar se alimentar. Elas vêm com uma reserva de gordura que possibilita nutrição e hidratação por muitas semanas", explica a porta-voz Michele. Por último, a temperatura está ajudando o cetáceo a sobreviver, pois as médias no local não passam dos 15° C desde o dia do encalhe. Como um dos principais motivos de óbito de animais encalhados em praias é a hipertermia (aumento da temperatura do corpo), o frio de Laguna acabou possibilitando o prolongamento da vida da baleia.

 

"O que pode levá-la a uma morte natural seria a falência múltipla dos órgãos. Isso porque ela tem 50 toneladas - e esse peso, que na água é amenizado pela flutuação, está comprimindo seus órgãos e provocando problemas de circulação. Mas isso leva tempo, e tempo, neste caso, é sofrimento", explica Michele.

 

Enquanto a morte não acontece, o local virou "ponto turístico". Todos querem ver a baleia e saber como a "novela" vai se desenrolar. "Seguramente já passaram por lá mais de mil pessoas nessa semana", contabiliza a porta-voz.

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