TIMOTHY A. CLARY / AFP
TIMOTHY A. CLARY / AFP

Especialistas questionam proposta brasileira para o clima

Meta que o governo apresentou de reduzir suas emissões em 37% em 2025 e em 43% carece de mais detalhes, afirmam eles

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2015 | 07h35

SÃO PAULO - A proposta que o governo brasileiro apresentou no domingo de reduzir suas emissões em 37% em 2025 e em 43%, de acordo com os níveis de 2005, carece de mais detalhes para explicar exatamente como ela vai ser cumprida. Essa é a análise que alguns ambientalistas e cientistas estão fazendo após examinarem com mais cuidado o documento que traz as metas.

A presidente Dilma apresentou as informações principais em discurso na ONU, em Nova York, no domingo, mas o documento completo só foi conhecido na segunda-feira.

Não está muito claro, por exemplo, como serão algumas ações em relação ao combate ao desmatamento e à recuperação e reflorestamento de 12 milhões de hectares.

"As metas gerais são ambiciosas, mas com planos de ação ao menos no setor de florestas fracos", afirma Britaldo Soares, pesquisador do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais e uma das autoridades em mudança do uso da terra - o termo técnico para falar sobre desmatamento.

Ele pede que o governo abra a planilha de cálculos que foram feitos para estimar como é possível com essas ações chegar à redução de emissões estabelecida. O governo federal considera que o que é emitido com desmatamento é descontado pela absorção de CO2 pelas florestas protegidas em unidades de conservação e terras indígenas. 

Impacto das secas. "Mas a Amazônia teve duas grandes secas, em 2005 e 2010, e nesse cenário acaba se emitindo carbono, porque as árvores morrem. Isso tem de entrar na conta", argumenta.

"Nessa remoção teórica 'somem' da conta cerca de 300 milhões de toneladas. A Convenção do Clima permite isso, mas é preciso medir de fato. E considerar que às vezes ocorre o inverso, como no período de seca. Estudos já calcularem que nas duas secas recentes, podem ter sido emitidas 5 bilhões de toneladas pela morte de árvores. É quase o que os Estados Unidos emitem por ano", complementa Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

A coalizão brasileira que reúne mais de 30 organizações da sociedade civil, considera que o Brasil chega à Conferência do Clima de Paris em dezembro com boas cartas para iniciar as discussões. "Mas é pouco para o acordo final. Se todos os países ficassem no nível do brasileiro ainda assim estaríamos longe da meta dos 2°C. Isso deveria ser o piso de ambição do Brasil, mas para o acordo final precisamos de maior ambição de todos", diz Rittl.

Ele concorda que é preciso mais transparência no detalhamento de como as propostas para cada setor serão cumpridas. "As contas têm de ser abertas com toda a sociedade, até para que possamos analisar nossas capacidades", diz. 

O ambientalista pede, por exemplo,  a abertura de um conjunto de estudos chamado "Opções de Mitigação", encomendado pelo Ministério da Ciência para ajudar na construção da meta e que está guardado sob sigilo.

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