JESSICA AQUINO / ESTADAO
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Esgoto contamina Praia Dura, em Ubatuba

Após denúncia, Cetesb identificou despejo irregular e afirma que tomará medidas

Ana Julia Paloschi e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2019 | 03h00
Atualizado 18 Janeiro 2019 | 16h45

Os moradores da Praia Dura, no sul de Ubatuba (litoral norte de São Paulo), se orgulhavam de ter, até 2017, uma praia que estava sempre em condições próprias para banho. A situação começou a mudar no ano passado, quando, em vários momentos, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) levantou a bandeira vermelha na região. O ano virou, mas a situação continua ruim. 

O mau cheiro virou um drama para quem vive ali ou frequenta a região - a maioria das casas é de veraneio. É comum ouvir queixas sobre o descaso que sofrem em relação ao saneamento básico. E é possível ver esgoto sendo despejado no Rio Escuro, que forma o maior manguezal de Ubatuba e deságua na Enseada da Fortaleza, rodeada pelas praias de Lázaro, Domingas Dias, Dura, Vermelha do Sul e Fortaleza.

No final da semana passada, após o encaminhamento de denúncias recebidas pelo Estado, a Cetesb identificou o que pode ser uma parte do problema. Técnicos da Agência Ambiental de São Sebastião fizeram vistoria no Hotel Água Doce, que fica na região, no seu entorno e também no corpo d’água que passa perto do empreendimento. 

O local vinha sendo acusado por moradores de não ter tratamento apropriado de esgoto. “Observou-se, entre outros, o lançamento de esgoto do hotel no corpo d’água, sem tratamento adequado, com aspecto turvo, emissão de odores e presença elevada de material orgânico”, afirmou a agência, que disse que tomará as ações cabíveis. 

Procurado pela reportagem, o Hotel Água Doce disse que entraria em contato, mas até as 21 horas de ontem não fez nenhum pronunciamento.

Fossas

Walmyr Buzatto, presidente da Associação dos Amigos da Praia Dura, afirma que pode haver outras contribuições para tornar impróprias as condições da praia. Por isso, contratou uma empresa particular para fazer coletas de água em seis pontos da bacia do Rio Escuro, ao redor do hotel e outros pontos possíveis de contaminação. O material foi colhido no último dia 8, e os resultados estão previstos para sair no final da semana que vem.

“Resolvemos fazer uma análise abrangente para tentar mapear de onde vem a poluição. Temos aqui na associação 153 casas. Sabendo que, em algumas residências, as fossas podem estar vazando. Outro rio que se junta ao Escuro também passa por outros bairros, então pode vir poluição daí. Mas sabemos que o hotel poluí. Com essa análise, poderemos saber quanto é sua responsabilidade”, diz.

Doenças

Para Luiz Carlos Tornick, frequentador da região há mais de 30 anos, a situação é delicada e requer rápidas providências. “Não tínhamos isso antes do hotel”, conta. Além do mau cheiro, o risco de contrair doenças por conta da condição de banho na praia é motivo de preocupação. 

O consumo de peixe é outro ponto que causa insegurança. José Carlos Bedollo, que frequenta a região há mais de 40 anos, conta que sua família passou por forte intoxicação alimentar depois de consumir o peixe local. Ele diz também que há muito tempo evita caminhar pela área, pois sua mulher contraiu bicho geográfico. 

Mauro Arruda, morador da região há 15 anos, relata que são os próprios moradores que limpam a praia. “Nunca vi essa praia ficar tanto tempo com essa bandeira de imprópria, estamos assustados”, relata. Sua amiga e vizinha Wanda Vezzoni partilha do mesmo sentimento. “Minha neta está em casa e não permito que ela vá à praia com as amiguinhas por medo e cuidado com a saúde delas”, reclama.

Atualização

A Cetesb informou na tarde desta sexta-feira, 18, que autuou a proprietária do hotel, sob a infração de lançamento de “esgotos sem tratamento adequado em corpo d'água classe 2, com a presença de espumas e odor, podendo tornar as águas impróprias a seus usos, nocivas ou ofensivas à saúde, prejudiciais à segurança, ao uso e gozo da propriedade, bem como às atividades normais da comunidade, causando inconvenientes ao bem-estar público.”

Na penalidade de advertência, a agência fixou o prazo de 30 dias para que o hotel realize as adequações necessárias no sistema de tratamento do empreendimento, de modo a atender a legislação ambiental estadual. No caso de não atendimento, o empreendimento poder sofrer novas penalidades.

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