TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Esforço coletivo recupera áreas degradadas e turbina nascentes na Serra da Mantiqueira

Mais de 400 municípios estão envolvidos em programas de restauração florestal e melhora da qualidade da água 

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

30 de março de 2022 | 05h00

Você viu a transformação na fazenda vizinha? E os resultados interessantes da experiência em Extrema? Depois de um ou dois anos, a qualidade das águas das nascentes melhorou!

O boca a boca do programa Conservação das Águas, idealizado pelo município de Extrema, no sul de Minas Gerais, em 2005, não para de ganhar escala. Tanto que um novo programa inspirado no primeiro surgiu, há mais de 5 anos, para atender toda a região da Serra da Mantiqueira. Agora, são mais de 400 municípios envolvidos. 

“Não há dúvida de que a crise hídrica de 2015 aumentou a sensibilidade dos produtores. Na verdade, no início, quando a gente chegava para conversar nas propriedades rurais, todos nos diziam que o problema era excesso de água, e não falta”, afirma o biólogo Paulo Pereira, idealizador do programa Conservação das Águas e que hoje ajuda aos novos interessados a organizar suas próprias iniciativas em outras cidades, dentro do Conservação da Mantiqueira. “Nenhum produtor quer ficar sem água”, afirma.

O funcionário da prefeitura de Extrema, que ocupou o cargo de secretário do Meio Ambiente do município entre 1995 e 2020, não tem dúvidas de que a articulação feita em nível municipal a favor da restauração florestal é o grande trunfo dos programas de conservação de água na região. “Na ausência de uma política em nível federal ou estadual, cabe a gente fazer esse trabalho”, afirma Pereira.

As ações de restauração em curso em municípios de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro são um trabalho de formiguinha, que envolve o poder público, um total de sete ONGs e os produtores rurais. Cada ator entra com a sua experiência. “Hoje são mais de 100 municípios mobilizados para que a iniciativa seja contemplada em uma lei. Quem não terminou esse processo está em fase de conclusão”, afirma Pereira. O gestor continua interagindo quase todos os dias com os municípios da região interessados em colocar a restauração para andar.

“É um trabalho em que os resultados aparecem com uma certa rapidez. Em questão de um ano e meio ou mais, a qualidade de água das nascentes, por exemplo, já melhora. Quando o produtor vê isso no vizinho, ele também passa a se interessar pelo tema”, afirma Rafael Bitante, gerente de restauração da ONG SOS Mata Atlântica. 

O efeito cascata responsável pela ampliação do número de hectares voltados para a restauração é muito positivo, explica Bitante. “Com o trabalho atingindo mais áreas, podemos literalmente atuar em toda a paisagem e não agir de forma isolada. Conseguimos, por exemplo, desenhar corredores ecológicos, que são fundamentais para a manutenção da biodiversidade”, explica o gerente da SOS. Algumas áreas receberam até a visita do lobo guará.

Dentro do programa, a SOS está concentrando esforços no trabalho de restauração propriamente dito. Além da identificação das áreas que podem ser recuperadas, são feitos estudos técnicos detalhados sobre quais tipos de espécies devem ser utilizadas em cada área. “Costumo dizer que é uma ação que envolve, antes de mais nada, a restauração da mente das pessoas”, explica Bitante, no sentido de que é preciso ser criada toda uma mobilização a favor das florestas e, depois, a estruturação de uma cadeia de produção desde os viveiros até a plantação das mudas. 

No caso específico dos municípios de São Sebastião do Paraíso, Capetinga e Monte Santo de Minas, área sob o foco da SOS Mata Atlântica, atualmente, 80 mil mudas de espécies nativas de Mata Atlântica foram plantadas em menos de cinco meses. “Essa região está toda voltada para a produção de café. A restauração, via de regra, ocorre nas áreas de proteção permanente”, explica Bitante.

A qualidade das florestas e a consequente melhora na produção de água das nascentes são apenas parte das vantagens acumuladas pelos proprietários que estão restaurando parte de suas terras na região da Mantiqueira. Em tempos de mudanças climáticas, como explica Adriana Kfouri, gerente regional da Mantiqueira da ONG TNC, o contexto do mercado de carbono não pode ser ignorado no desenho das ações de restauração florestal. 

Cada vez mais, os produtores da Mantiqueira poderão pleitear esse tipo de financiamento. Alguns deles, entretanto, vêm sendo remunerados pelos serviços ambientais que estão prestando, a partir do momento que optaram pelo investimento no crescimento das matas novamente. “Nosso trabalho funciona baseado em três pilares. O apoio das políticas públicas, a capacitação dos atores e a construção das governança locais”. 

Segundo Adriana, a renda auferida pelo pagamento de serviços ambientais é importante não porque vai ser o principal ganho do produtor, mas porque poderá ajudá-lo a financiar as próprias ações envolvidas com a conservação. “A remuneração do produtor é importante, porque o ônus (das ações de preservação) não pode ser dele”, explica a representante da TNC.

Se primeiro foi Extrema, depois a Serra da Mantiqueira e a Zona da Mata Mineira, agora, o modelo de conservação de recursos naturais nascido no Sudeste do Brasil está preparado, na avaliação de Adriana, para dar um passo ainda mais ousado em um futuro próximo. 

“Estamos trabalhando para consolidar ações que envolvam toda a Mata Atlântica, ampliando ações que existem em estados como Santa Catarina, Espírito Santo e Sul da Bahia. Além de chegar em todo o bioma da Mata Atlântica”, projeta Adriana.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.