Entre os caiçaras e a conservação

Adriana Mattoso defende populações tradicionais enquanto briga para criar unidades de proteção

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

01 Outubro 2008 | 20h35

O que no começo era só uma empreitada contra um grupo que destruía seu paraíso ecológico de férias acabou se tornando um projeto para uma vida inteira. Assim poderia ser resumida a história de Adriana Mattoso, hoje gerente de Unidades de Conservação da Fundação Florestal, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, que iniciou sua carreira defendendo caiçaras de Trindade, uma vila de pescadores em Parati (RJ), e se transformou numa das responsáveis pela criação e gerenciamento de unidades de conservação de SP. Ela é uma das mães, por exemplo, do plano de manejo do Parque Estadual da Serra do Mar.   Apaixonada desde criança pela natureza, Adriana viu, no fim da adolescência, em meados da década de 70, um trecho de mata atlântica ser destruído com a construção da Rodovia Rio-Santos. "Foi uma coisa chocante. Primeiro pelo impacto ambiental da abertura da estrada e depois pela especulação imobiliária absurda que se seguiu, com espertalhões comprando terra de caiçara para depois fazer empreendimentos. Era um lugar ao qual só se chegava por estrada de terra que, de repente, e de um modo muito brutal, foi desbravado."   Diante de um grupo estrangeiro que queria expulsar a população para construir um condomínio de luxo, ela, um grupo de visitantes assíduos e os moradores formaram uma das primeiras ONGs socioambientais do Brasil - a Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro.   Juntos organizaram exposições fotográficas mostrando o que estava acontecendo. Ela, depois, fez um documentário sobre o problema. Eles foram à Justiça e os caiçaras conquistaram o direito de ficar na região.   DA ONG AO GOVERNO   Essa batalha, que durou até o começo dos anos 80, chamou a atenção do governador André Franco Montoro (1983-1987), que convidou parte da ONG para formar uma equipe de resolução de conflitos de terra.   "Naquela época a gente tinha de brigar a tapa com os que excluem o homem totalmente da questão ambiental. Mas percebi que os maiores conflitos ocorriam onde ainda havia áreas naturais, nas fronteiras do Estado, às vezes dentro de parque ou em área que iria virar parque. Quando a gente defende o caiçara, o caboclo, o caipira é porque o poder de destruição deles é menor."   A ambientalista e arquiteta de 52 anos conta que aprendeu ainda pequena a respeitar as relações entre comunidades e o ambiente ao visitar um sítio em uma comunidade alemã em Joinville (SC). "Era a casa dos pais da minha babá. Eles eram imigrantes e moravam em uma colônia onde se produzia de tudo. Com aquilo eu entrei em contato com a natureza mesmo: cacei tatu, derrubei palmito, arei, plantei, dei comida pra vaca, tive convivência próxima com a natureza e com o pequeno produtor. Isso me ensinou a respeitar quem vive na roça e da roça."   Pouco tempo depois, em 1986, surgiam "casados", como brinca Adriana, dois ícones daquela mudança de paradigma que se anunciava: a ONG SOS Mata Atlântica e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. "A turma que criou a ONG, da qual eu fiz parte, foi a mesma que exigiu do governo a criação da secretaria.   Estávamos na Ilha do Cardoso, na reunião que criaria a SOS, e o Montoro passou de helicóptero para assinar um convênio entre São Paulo e Paraná para proteger a região do Lagamar. Desceu para nos fazer uma visita, aí a gente segurou o governador lá até ele se comprometer com isso. Foi no mesmo período em que lutamos pela criação da Estação Ecológica da Juréia."   Hoje gerente das 32 unidades de conservação do Estado, Adriana sente falta do tempo de ativista e de estar no meio do mato, enquanto resolve uma burocracia ou outra de sua sala no Horto Florestal. Mas acredita que, no governo, pôde fazer mais pelo ambiente e pelas populações tradicionais. Uma inovação, por exemplo, foi estabelecer, no plano de manejo do Parque Estadual da Serra do Mar, que entrou em vigor em 2007, uma área especial para abrigar caiçaras ou quilombolas. A zona-histórico-cultural-antropológica permite a presença de moradores tradicionais que já estejam há muitas gerações no local.   Preserva seu lado "bicho-do-mato" no sítio na Serra da Bocaina, onde planta palmito juçara - espécie das mais ameaçadas da mata atlântica. "A gente só come pupunha. O juçara fica para as aves comerem as sementes e ajudarem na recuperação."

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