Entre o medo de jacarés e a devastação do álcool

É madrugada em Parintins (AM). Às 5 horas, deixamos o cais numa voadeira alugada. O Amazonas, com águas paradas, é dourado nas primeiras horas do dia

Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2011 | 23h59

Depois de 40 minutos, passamos pela comunidade Imaculada Conceição, também na margem esquerda, formada por dez casas de madeira ao redor de uma igreja. Mais à frente, fica a comunidade Menino Deus. Um menino rema com a canoa. A voadeira para ao lado de uma embaúba, árvore tomada de formigas. Ricardo de Souza Ramos, de 12 anos, está na 6.ª série. Acordou às 4 horas. Com malhadeira, pegou tambaquis e curimatãs. Geralmente, captura de 10 a 15 peixes por dia.

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Uma mulher e uma menina pequena remam ali perto da comunidade. Os raios do sol iluminam a proa da canoa. A criança, uma menina morena, de cabelos amarrados, joga o remo para a frente. Dá uma curvada com os braços e mergulha o remo na água, como se fosse gente grande. Chama-se Jocinara e tem apenas 6 anos.

 

Jocinara ajuda a mãe a remar a canoa perto do povoado de Menino Deus. FOTO: CELSO JUNIOR/AE

 

Laudicéia Silva Ribeiro, de 24 anos, é mãe de Jocinara e de outras duas meninas, Jociane, de 4 anos, e de Graziela, de 3. Conta que a escola da filha fecha em toda cheia do rio. Quando o nível do rio sobe, além de as crianças perderem aula, o alimento fica escasso, a vida, mais difícil. “No verão é só trabalho. A gente planta melancia, feijão e milho na várzea. E arrenda terras dos outros para aumentar a roça. Metade da plantação fica para a gente e metade para o dono da terra.” O plantio começa em agosto, quando o nível do rio está baixo.

 

Laudicéia diz temer os grandes jacarés. Recentemente, moradores da comunidade mataram um animal de 6 metros de comprimento. Há três anos, um jacaré cortou a “cana” do braço de um menino.

O temor dos répteis já tinha sido registrado numa das descrições mais antigas da vida na Amazônia. No século 18, o padre João Daniel anotou em seu Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas que, para os nativos, “o jacaré é a pior cousa que cria o Amazonas”.

 

“Se não matar, ele fica ajeitando, a gente tem de ter a prudência de matá-lo”, diz Laudicéia. “Um casco como este em que estamos não é nada para ele.”

 

Cunhado. Em minutos, a ribeirinha toma confiança e começa a falar de um drama que a assusta até mais que os grandes jacarés: o alcoolismo, que atinge várias famílias locais. Laudicéia conta que o pai abandonou sua mãe por causa da bebida. “Aqui, na comunidade, não se vende bebida. Mas quem gosta não acha distância. A bebida persegue a comunidade.”

 

“A gente não está com o coração bom para suportar essas coisas. Um cunhado há pouco tempo saiu para pescar e morreu afogado”, conta. “Tinha bebido. Um homem não morre afogado quando está bom da cabeça.” O cunhado, Raimundo Graça Pantoja, tinha 31 anos. Deixou quatro filhos.

 

Laudicéia diz que o marido, Graciélio, de 28, não bebe. Ele, porém, sofre com o alcoolismo do pai. “Meu sogro é boa pessoa. Quando bebe aparece com um terçado querendo matar todo mundo. Não sabe o que está fazendo. A gente fica com medo. Graças a Deus, meu marido não bebe. Ele tem raiva do pai.”

As mulheres e os líderes das comunidades da região não sabem como lidar com o problema, diz Laudicéia. “Quando falta dinheiro e começa o desespero, os homens tomam óleo diesel dos tambores nos barcos.”

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