Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Entidades do agronegócio se organizam para responder estudo da revista Science

Segundo a publicação, cerca de 20% da soja e pelo menos 17% da carne exportadas para a Europa estariam 'potencialmente contaminadas' com o desmatamento ilegal no Brasil

Isadora Duarte, Letícia Pakulski, Tânia Rabello e Ariosto Mesquita, especial para a Agência Estado, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 17h09

Entidades do setor produtivo estão se mobilizando para responder ao estudo publicado na revista científica Science de que cerca de 20% da soja e pelo menos 17% da carne produzidas na Amazônia e no Cerrado e exportadas para a União Europeia estariam "potencialmente contaminadas" com o desmatamento ilegal. Na quinta-feira, 16, associações que representam o setor de soja criticaram o estudo por gerar uma "visão distorcida" da produção.

No trabalho, um grupo de pesquisadores do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha  cruzou dados de satélite sobre a perda de floresta, com informações de registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Os cientistas estimam que, embora somente 2% das propriedades  na Amazônia e no Cerrado sejam responsáveis por 62% do desmate ilegal na região, uma parte dessa devastação está ligada a commodities agrícolas de exportação.  O trabalho foi liderado por Raoni Rajão, coordenador do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais, da Universidade Federal de Minas (UFMG).

Em nota, o Ministério da Agricultura afirmou que a agropecuária não pode ser "vilanizada" e que os dados da amostra do estudo demonstram que mais de 90% dos produtores rurais não estiveram envolvidos com qualquer tipo de desmatamento ilegal. O Ministério afirmou que vai convocar um grupo de cientistas para avaliar detalhadamente cada conclusão do artigo. Segundo a assessoria de imprensa da pasta, a ministra Tereza Cristina não vai comentar.

A Confederação da Agricultura de Pecuária do Brasil (CNA) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a entidade está avaliando a questão e um possível posicionamento. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) disse, também por intermédio de sua assessoria de imprensa, que ainda está analisando a metodologia adotada pela revista, principalmente no que diz respeito à confirmação se as áreas destacadas realmente correspondem a desmatamentos e queimadas ilegais.

A Abiove apontou, também em nota, que o estudo da Science gera um valor elevado de soja associada a desmatamento "de forma equivocada", uma vez que "não indica quanto das áreas identificadas com desmatamento ilegal já estão efetivamente embargadas pelas autoridades competentes" e "não demonstra as áreas de desmatamento legal e ilegal em que há produção de soja, optando por demonstrar o imóvel como um todo". A associação disse que é responsabilidade da indústria verificar se a soja a ser originada foi produzida de acordo com a legislação vigente.

Para o diretor-geral da Anec, Sergio Mendes, não é possível atribuir à soja mais do que 1,5% do desmatamento de área na Amazônia com base em levantamentos por satélite. "Se há algum setor que tem se reunido de forma sistemática de 2006 para cá com as ONGs para resolver esse problema e punir as pessoas que desmatam, ao não comprar desses agentes, esse setor é o da soja", disse Mendes.

A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) disse, em comunicado, que "não concorda com os dados divulgados pelo estudo, pois ele apresenta inconsistências". Consultada, a Embrapa Territorial, que tem análises sobre a ocupação e uso das terras no Brasil, informou que não vai comentar o estudo.

Quanto ao segmento de carnes, a indústria também não se pronunciou. Em webinar nesta semana, antes da divulgação do estudo, a diretora executiva da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) Liège Nogueira, afirmou que a agroindústria exportadora de carne bovina trabalha com sustentabilidade. "Temos demanda do mercado externo e do consumidor daqui e de fora para sermos sustentáveis e rastrearmos a compra dos animais, cuidar do desmatamento ilegal, entre outras exigências", disse.

Liège declarou, entretanto, que, além de a indústria legalizada ter de lidar com três tipos de fiscalização nos abates - nas esferas federal, estadual e municipal -, tem de conviver também com os fornecedores ilegais de animais, aqueles não fiscalizados, que produzem o que ela chama de "boi pirata", além do desmatamento ilegal. "Mesmo que nós façamos tudo corretamente, temos de olhar para este problema também, porque ele afeta a imagem da cadeia como um todo", observou. "A imagem que vai para fora é aquela de quem cria mal bovinos; a imagem de quem paga impostos ninguém tem interesse em divulgar", criticou.

O diretor técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Francisco de Sales Manzi, criticou o estudo da Science. "É impressionante: qualquer pau serve para bater em produtor rural", disse. Segundo ele, a atividade pecuária hoje está focada em tecnificação e em contínuos aumentos de produtividade, com a intensificação da atividade - redução da área de pasto concomitantemente com o aumento de produção de arrobas por hectare, além de queda na idade média de abate dos animais. "Somente nos últimos dez anos em Mato Grosso o total de animais abatidos antes de completar dois anos pulou de 2% para 20%. Será que este bovino pastoreia em área de desmatamento? Faz sentido?", questiona ele.

Para o diretor da Acrimat, o questionamento da atividade no Brasil ocorre no momento em que o setor vem se capitalizando e sustentando parte da economia brasileira. Ele admite, entretanto, que irregularidades existem e lamenta a existência de "alguns porcarias" no segmento. Mas alerta para o risco de generalização e de uma consequente demonização do produtor rural.

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