'Entendemos a preocupação de vocês porque desmataram suas florestas', diz Guedes a americanos

'Entendemos a preocupação de vocês porque desmataram suas florestas', diz Guedes a americanos

Ministro da Economia fez afirmação no evento Aspen Security Forum, organizado pelo centro de estudos de Washington. "Vocês mataram seus índios, não miscigenaram”, afirmou

Eduardo Rodrigues e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 17h03

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, subiu o tom ao ser questionado sobre a política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro. “Entendemos a preocupação de vocês (norte-americanos), porque vocês desmataram suas florestas. Vocês querem nos poupar de desmatar a floresta, como vocês desmataram as suas. Sabemos que vocês tiveram guerras civis, também tiveram escravidão, e só pedimos para que vocês sejam amáveis como somos amáveis. Vocês mataram seus índios, não miscigenaram”, afirmou, no evento Aspen Security Forum, organizado pelo Aspen Institute, um think tank (centro de estudos) de Washington. 

O think tank americano é conhecido por reunir personalidades de todo o mundo em eventos como o que teve a participação de Guedes, tendo como público investidores, empresários, diplomatas e acadêmicos. O Aspen Security Forum teve três dias de eventos com autoridades do governo americano, diplomatas e representantes do alto escalão de organismos multilaterais, como Tedros Adhanom Ghebreyesus, da Organização Mundial da Saúde (OMS), e de governos de outros países, como China e Singapura. Em razão da pandemia, o fórum foi online e gratuito.

Guedes foi preparado para responder sobre economia, mas foi questionado sobre o combate à corrupção no governo Bolsonaro, sobre a condução da crise sanitária e sobre o desmatamento nas florestas brasileiras. O ministro respondeu calmamente a uma das primeiras perguntas – sobre a declaração do senador Flavio Bolsonaro  ao jornal O Globo dizendo que o ministro teria que arrumar “um dinheirinho” para obras. “Políticos sempre pedem dinheiro, sem problema”. 

Começou, porém, a perder o controle quando questionado pelo repórter da revista The Atlantic sobre a saída do ex-ministro Sérgio Moro do governo e suas declarações de que Bolsonaro não combate a corrupção. Chegou a ser cortado em sua resposta final, quando lançou o argumento da soberania nacional para dizer que a Amazônia é um assunto que diz respeito ao Brasil. “Os militares estão dizendo, obrigado pela preocupação, mas essa é nossa terra. Não precisamos desmatar a Amazônia para produzir produtos agrícolas”, acrescentou. 

O ministro citou até o general norte-americano George Armstrong Custer, que morreu enfrentando índios nativos nos Estados Unidos. "O presidente Bolsonaro, o vice-presidente, o ministro da Defesa... O treinamento deles é ir para a floresta e ficar três, quatro, cinco anos. Eles adoram a selva. Não são como o general Custer, que foi remover os índios do Black Hill (região montanhosa isolada, localizada no interior das Grandes Planícies americanas, no estado de Dakota do Sul)  e foi morto em Little Bighorn (batalha que ocorreu em 1876 e se tornou o mais famoso incidente e a maior derrota do exército americano nas guerras indígenas). Isso não aconteceu aqui. É um povo gentil. As grandes histórias de como matamos nossos índios são falsas".

O Brasil vem sendo pressionado por investidores internacionais e grandes empresas a tocar uma agenda ambiental e enfrentar o desmatamento, uma demanda que também vem de uma sociedade cada vez mais consciente.

Em outro evento, mais cedo, Guedes reclamou de críticas de países europeus à política ambiental do governo de Jair Bolsonaro. “França, Holanda e Bélgica usam desculpa ambiental para impedir o Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). É como acusarmos a França de queimar catedrais góticas, foi um acidente”, afirmou, em referência ao incêndio da Catedral de Notre-Dame, em Paris, no ano passado.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla do inglês Food and Agriculture Organization), na Europa, quase 42% do território são cobertos por florestas, a maior parte de projetos de reflorestamento iniciados depois da Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, 32% do território são de florestas, que cresceram quase 3% nos últimos 30 anos.

Já no Brasil, as florestas, que representavam 69% do território em 1985, passaram a ocupar 59% em 2018, segundo dados do MapBiomas, iniciativa de universidades, empresas de tecnologias e organizações não-governamentais que mapeia todas as mudanças na cobertura e no uso da terra no País.

No evento organizado pelo Aspen, com a voz elevada, Guedes citou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse que ele estava “apertando as mãos do Obama” e navegando em águas tranquilas porque havia corrupção e "compra" de pessoas no Brasil. A alteração de Guedes fez a moderadora, a diretora do Aspen Strategy Group, Anja Manuel, interromper a conversa e convidar o ex-embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel, a fazer uma pergunta sobre a China. O tema, porém, não foi suficiente para apaziguar os ânimos. 

O ministro disse que os Estados Unidos gastaram demais financiados pelas bolhas da China e vem dançando “bochecha com bochecha” com os chineses. “Nem um brasileiro bêbado ousaria alavancar o sistema bancário 36 vezes como os EUA”, completou, em referência à crise bancária de 2008.   

Os Estados Unidos são o terceiro maior comprador de produtos brasileiros, de acordo com os dados da balança comercial do primeiro semestre, atrás da China e da União Europeia. Os americanos responderam por 10% de tudo que foi exportado pelo Brasil. Por causa da pandemia, houve uma queda de 31,% na venda de produtos para os Estados nos primeiros seis meses do ano.

Contrariado por perguntas sobre a política brasileira, Guedes respondeu que o Brasil tem uma democracia vibrante e respeita o Estado de Direito. “Nós gostamos da democracia, ao contrário do que os perdedores da última eleição têm dito pelo mundo”, completou.

Diversos veículos de imprensa internacionais publicaram longos artigos e reportagens com duras críticas à resposta do presidente Jair Bolsonaro à crise gerada pelo novo coronavírus e à política ambiental do governo.

Combate à corrupção

Guedes negou que a saída do governo do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, tenha enfraquecido o combate à corrupção no Brasil.  “Eu convidei Sérgio Moro para o governo, uma semana depois da eleição. Eu era um grande admirador de Moro, somos todos favoráveis à operação Lava Jato. Não se pode falar que Bolsonaro foi eleito por causa do Moro, não teve esse efeito”, afirmou. 

Segundo o ministro, o presidente Jair Bolsonaro continua lutando contra a corrupção sem Moro no governo. “Hoje você não consegue governar se não se identificar com o establishment de alguma forma. O presidente Bolsonaro apoia o processo de desestatização do Brasil que estamos fazendo. A corrupção já diminuiu, mas só vai acabar quando alterarmos o modelo econômico do Brasil”, afirmou. 

Guedes lembrou que qualquer ministro, inclusive ele, pode ser substituído pelo presidente. “Houve um problema de interpretação entre Bolsonaro e Moro, assim como com o ministro da saúde (Luiz Henrique Mandetta)”, completou.

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