Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Empresas europeias condicionam investimento e compra no Brasil a fim do desmatamento

Preocupação do grupo é que os contínuos aumentos da produção de soja possam colocar ainda mais em risco a maior floresta do mundo

Célia Froufe, Correspondente

10 de dezembro de 2019 | 16h26
Atualizado 11 de dezembro de 2019 | 16h39

LONDRES - Um grupo de 87 companhias europeias, que juntas administram ativos superiores a 2,5 bilhões de libras, escreveu uma carta para o governo brasileiro pedindo a interrupção do desmatamento na Amazônia para a produção de soja. Entre elas estão alguns dos maiores produtores de alimentos, gestores de ativos e redes de supermercados do continente, como Tesco, Aldi, Asda e Carrefour. O documento pede a extensão da moratória da soja na Amazônia (ASM, na sigla em inglês), acordo assinado em 2006 pelas empresas para impedir o uso de novas terras para a produção de commodity, que é usada como alimento para humanos e é matéria-prima para ração de gado.

"Queremos poder continuar a buscar ou investir na indústria brasileira de soja, mas se a ASM não for mantida, isso colocará em risco nossos negócios com a soja brasileira", destaca a carta, à qual o Broadcast teve acesso, e que foi coordenada pela Iniciativa de Risco e Retorno de Investimento em Animais Agrícolas.

A maior preocupação do grupo é de que os contínuos aumentos da produção de soja possam colocar ainda mais em risco a maior floresta do mundo. Nesta terça-feira, 10, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou novas estimativas para a produção da oleaginosa. Se os números da entidade forem confirmados, no início de 2020 a oferta brasileira de soja superará pela primeira vez a norte-americana - a produção dos Estados Unidos é afetada pela guerra comercial com a China e também por questões climáticas.

Bolsonaro x Macron

Por causa do avanço agrícola sobre áreas nativas, o Brasil tem sido foco de observação internacional e, com os incêndios na Amazônia em agosto, o País ficou ainda mais na berlinda. O assunto acabou indo parar no grupo das sete maiores economias do globo (G-7) e criando um mal-estar entre os presidentes Jair Bolsonaro e o francês Emmanuel Macron. A floresta também é um dos pontos de maior discussão atualmente na COP-25, que ocorre em Madri, na Espanha, pois é vista como uma ferramenta vital para equalizar as emissões de carbono. E sua preservação, como uma arma para a continuação da humanidade.

Atuações como a da AMS pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), no entanto, são elogiadas no exterior. A entidade afirma que vem renovando a AMS e que conta com o apoio de Bolsonaro para a tarefa, ainda que o presidente não esconda sua avaliação de que a Amazônia tenha de ser um local para desenvolvimento econômico do País. Havia também a previsão de que no mês passado fosse realizado, em Londres, o lançamento internacional da moratória da soja para o cerrado pela Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), com a presença do príncipe Charles, mas o evento acabou sendo cancelado.

"O objetivo da carta foi o de assegurar aos nossos membros que a moratória da Amazônia não vai acabar", explicou ao Broadcast a consultora de políticas de sustentabilidade Leah Riley Brown, do Consórcio Britânico de Varejo (BRC, na sigla em inglês e que reúne 70% do setor no Reino Unido). O documento foi enviado no dia 2 para o embaixador do Brasil em Londres, Fred Arruda. "Queremos ter a resposta segura do governo brasileiro de que a aceleração do desmatamento na Amazônia não vai continuar", continuou.

A resposta do embaixador foi dada dois dias depois ao grupo, sendo considerada "muito rápida". No retorno, Arruda informou que dividiu as preocupações dos signatários com autoridades domésticas e salientou que o Brasil desenvolveu uma estrutura legal, além de políticas concretas, para mapear a produção e garantir a proteção da vegetação nativa, que cobre 66% do território nacional. "No Brasil, todos os níveis de governo e a sociedade como um todo compartilham o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal e promover cadeias de suprimento sustentáveis", explicou.

O grupo ficou satisfeito com o fato de o embaixador ter dito que levaria a questão às autoridades brasileiras, mas não mencionou quais, segundo Leah. O Broadcast apurou que o documento foi enviado para representantes dos ministérios de Relações Exteriores e de Agricultura, além de associações do setor privado. "Como representantes de grandes varejistas, queremos trabalhar juntos nessa questão", afirmou a consultora do BRC.

Futuro desconhecido

Sobre as relações comerciais futuras com o Brasil, Leah salientou que apenas depois de o Brexit (como é chamada a saída do Reino Unido da União Europeia) ser realmente colocado em prática, ainda que não se saiba até o momento se será uma retirada ordenada ou sem acordo entre as partes, é que se saberá como as negociações poderão se dar. "Isso, por enquanto, é algo desconhecido. No BRC, trabalhamos de forma estreita com o governo para mostrar o posicionamento dos varejistas e ter certeza de que estão fazendo as coisas da forma certa,", disse. Da mesma forma, ela afirmou que o acordo comercial do Mercosul com a União Europeia também está em suspenso no caso britânico porque ainda não se sabe o rumo do Reino Unido dentro do bloco.

Além das empresas citadas acima, também assinaram a carta ao governo brasileiro redes de supermercados como Sainsbury, Islândia, Marks & Spencer, Waitrose e Morrisons; grandes produtoras de alimentos, como a Mars; e as gestoras de ativos holandesa Robeco e BMO Global Asset, entre outras.

Associação quer fim da moratória 

A manifestação europeia ocorre em meio a um movimento no Brasil que pede o fim da moratória. O pedido é encabeçado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), que diz contar com apoio de pelo menos um representante do governo federal. Em novembro, representantes do setor de produção receberam sinalização positiva do secretário especial da Casa Civil para Relacionamento Externo, Abelardo Lupion, na articulação para tentar rever a moratória.

O presidente da Aprosoja Brasil, Bartolomeu Braz, afirmou ao Estado em novembro que os produtores já cumprem as regras. “Não há produção de soja no mundo próxima da sustentabilidade que tem a nossa, que protege Reserva Legal e Área de Preservação Permanente. Não precisamos de mais imposição”, disse Braz. Para ele, segundo destacou na oportunidade, se a Europa não quiser mais soja da Amazônia, há o mercado asiático. 

O governo federal está atento às ameaças de investidores. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem conversado com outros ministérios sobre o tema. O receio é o de que as ameaças, que têm se avolumado, tornem-se boicotes reais. Publicamente, no entanto, o Planalto tem dobrado a aposta na defesa de que o Brasil preserva as suas florestas e é alvo de ataques especulativos.

Em nota, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) ressaltou a importância da moratória, que tem sido "fundamental para atender às exigências dos mercados consumidores quanto à sustentabilidade da soja brasileira e garantir o reconhecimento internacional do agronegócio brasileiro". " A moratória não prejudicou o desenvolvimento da cultura da soja na região e promove segurança para a manutenção do mercado internacional, principalmente o europeu, que representa metade das exportações brasileiras do farelo de soja", acrescentou.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reafirmou nesta terça-feira, 10, na plenária da Conferência do Clima da ONU, em Madri, o posicionamento para tentar mostrar que o Brasil é um país comprometido com as questões ambientais. /COLABORARAM MATEUS VARGAS, GIOVANA GIRARDI E MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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