Empregos 'verdes' estão chegando aos cargos executivos

Jornal americano mostra que diretor de sustentabilidade já é profissional frequente em empresas dos EUA

Tiffany Hsu, do Los Angeles Times

30 Dezembro 2009 | 17h20

Durante suas mais de três décadas no ramo imobiliário, David Pogue atuou em muitos papéis, mas especialista em meio ambiente nunca foi um deles. Isso não impediu a sua empresa, uma imobiliária de Los Angeles chamada CB Richard Ellis, de nomeá-lo o guru da empresa para todos os assuntos 'eco-friendly' - ou ecologicamente corretos - quase dois anos atrás.

 

De repente, Pogue se viu encarregado de fazer a companhia e seus projetos ganharem maior eficiência energética e se tornarem ambientalmente conscientes, uma mudança abrupta nas suas responsabilidades anteriores de gestão.  "Eu sou um leigo, um cara do ramo imobiliário tentando se tornar um ambientalista",diz Pogue, diretor nacional de sustentabilidade na empresa. "Mas eu acredito no que eu faço, que é algo maior do que eu." 

 

Conforme as empresas precisam lidar com as alterações climáticas, tentar atrair clientes com consciência ambiental e desenvolver agendas alternativas de energia, ao mesmo tempo que obedecer a regulamentação, um novo tipo de administrador está surgindo para para ajudar os executivos das empresas. 

 

Os agentes de sustentabilidade e supervisores 'verdes' são os sucessores para os gestores de diversidade e os especialistas em inovação dos anos 90 - e têm foco dividido entre a responsabilidade das empresas, as relações públicas e o lucro. "Nossos clientes esperam isso", disse Pogue. "Empresas do nosso tamanho

não podem se dar ao luxo de não participar."

 

Depois de assistir a uma série rigorosa de conferências e seguir horas da leitura sobre a chamada indústria verde, Pogue se estabilizou na posição. Seus esforços incluem conectar a CB Richard Ellis a programas como o Energy Star da Agência de Proteção Ambiental e do Departamento de Energia dos Estados Unidos,  além do programa americano de Liderança em Energia e Design Ambiental do Green Building Council.

 

Empegos como o de Pogue são muitas vezes colocados em altos escalões das empresas, onde são altamente visíveis e diretamente supervisionado pelos executivos. Na Coca-Cola e na Mitsubishi Motors da América do Norte, os executivos-chefes Muhtar Kent e Ryoichi Ueda, respectivamente, adotaram também o título de chefes da sustentabilidade. 

 

Outras empresas lidam com obrigações extras, tais como lidar com a cadeia de abastecimento. Na Levi Strauss, Michael Kobori atua com padrões trabalhistas e questões ambientais como vice-presidente social e de sustentabilidade ambiental. "Há dez anos, a minha posição não existia", diz Kobori. "Agora, estamos vendo uma nova geração de líderes empresariais cresceram com a sustentabilidade. Há realmente uma carreira nesta área para alguém em uma empresa."

 

No ano passado, menos de 200 posições dedicadas para a sustentabilidade estavam distribuídas entre mais de 1.200 empresas, de acordo com a consultoria empresa Hudson Gain Corp. "Com um pool de talentos muito limitado de executivos experientes em sustentabilidade", muitas empresas remanejaram candidatos internos que eram bem vistos em outras áreas para o papel, segundo o relatório. 

 

No ensino superior, cerca de 80 funções diferentes existiam no ano passado: 82% deles em tempo integral, de acordo com a Associação para o Desenvolvimento da Sustentabilidade no Ensino Superior. Os salários variavam de menos de US$ 20.000 para quase US$ 160.000. 

 

Administradores 'verdes' também estão surgindo no governo. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama assinou uma ordem executiva em outubro exigindo que cada agência federal designasse um funcionário para a sustentabilidade. 

 

Algumas empresas, ansiosas para lucrar com esse entusiasmo ambientalista, foram acusadas de contratar agentes de sustentabilidade 'de fachada'. Em vez criar planos de negócios mais ecológicos e inspirar a equipe, esses executivos acabam isolados, ineficazes ou sobrecarregados. "Há um perigo na criação de um executivo de sustentabilidade, porque atribui toda a responsabilidade dessa questão para uma só pessoa", lembra Kobori. "Nós só seremos bem sucedidos quando a sustentabilidade estiver embutida em todos os papéis da empresa." 

 

Na Levi Strauss, Kobori trabalha com os produtores de algodão, fábricas de tecidos, linhas de transporte, lojas de varejo e consumidores. Segundo ele, são feitos muitos esforços, por exemplo, para que toda a equipe tenha padrões elevados de qualidade da água, para que o esgoto tratado nas fábricas parceiras na China e no México seja até mais limpo do que a água que as abastece. 

 

A rede de supermercados amereicana Wal-Mart espera reduzir as emissões de gases de efeito de estufa em 20% até 2012 e parar de enviar resíduos sólidos para aterros até 2025, de acordo com o vice-presidente de sustentabilidade no varejo, Matt Kistler. Em um fórum sobre sustentabilidade no mês passado, ele discutiu planos para oferecer produtos feitos localmente, usar alimentos de pesca certificada e acompanhar a proveniência de diamantes, ouro e prata usados na produção de jóias. Entre outras coisas, o Wal-Mart está usando iluminação de Leds em muitas das prateleiras para alimentos refrigerados e congelados. 

 

Depois que o Bank of America anunciou, em 2007, US$ 20 bilhões em um compromisso de dez anos com operações, produtos e serviços sustentáveis, surgiram vários empregos 'verdes'. Entre eles, um gerenciador de certificados em padrões de construção sustentável, que trabalha no cumprimento da legislação ambiental, e muitos estrategistas de investimento focados nas alternativas de energia renovável. "Não se trata apenas de fazer o bem, isso representa oportunidade de negócios convincente para os nossos clientes", afirma Richard Cohen, diretor-gerente de investimentos estratégicos em meio ambiente no gigante bancário. 

 

De acordo com o relatório do Hudson Gain, esses funcionários 'verdes' são provenientes de diversas áreas profissionais, incluindo engenharia, pesquisa, finanças, recursos humanos, direito e relações públicas. O vice-presidente e chefe de sustentabilidade da empresa de construção de materiais Owens Corning, Frank O'Brien-Bernini, por exemplo, estudou a sustentabilidade na universidade e pesquisou sobre energia solar para o seu mestrado em engenharia mecânica. "Foi uma carreira e uma paixão",diz ele. "Eu estou nisso há muito tempo."

 

No entanto, uma grande parte dos profissionais ainda é inexperiente, como James J. Gowen, da Verizon Communications. Segundo Gowen, que já estava à frente de operações da cadeia de abastecimento quando foi reaproveitado em setembro para servir também como chefe de sustentabilidade, a Verizon tem um histórico de eficiência energética. "Nós estamos lidando com questões de sustentabilidade há algum tempo, embora sem usar este nome", diz. 

 

Na Ford Motor, Susan Cischke luta pelo verde com uma equipe de quase 300 pessoas. O grupo fabrica veículos Ford mais leves para melhorar a eficiência do combustível, desenha carros elétricos e híbridos e reduz os impactos ambientais das fábricas da empresa, entre outras coisas. Como vice-presidente do grupo de sustentabilidade, meio ambiente e engenharia de segurança, Cischke trabalha em estreita colaboração com o ambientalista e presidente executivo William Clay Ford Jr. "Isso não é apenas um trabalho secundário", defende. "Ele realmente influencia tudo o que fazemos. Ele vai além da conformidade e diz respeito a um planejamento de longo alcance para preparar a empresa para uma visão mais ampla." 

 

Mas, de acordo com Pogue, em uma época na qual a economia é instável, alguns funcionários de sustentabilidade acreditam que precisam encontrar novas abordagens e investimentos ambientalistas. "Os últimos meses foram a busca por sobrevivência, e não por sustentabilidade", afirma.

 

Ainda assim, para Pogue, mesmo resistente, o mercado terá de acomodar a demanda por produtos e práticas verdes, e abrir espaço para as pessoas que podem fazer isso acontecer. "O mercado imobiliário é um negócio conservador, e nós lidamos com um monte de pessoas que acreditam que não há nenhum problema ecológico", lembra. "Mas eles são práticos. Se outros acreditam que é bastante importante, então é importante."

 

(Com informações do Los Angeles Times)

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