Em região afetada por Chernobyl, natureza dá sinais de adaptação

Algumas espécies de pássaros parecem ter se adaptado ao ambiente radioativo criando uma proteção a danos genéticos

HENRY FOUNTAIN, New York Times

08 Maio 2014 | 19h00

NOVOSHEPELYUCHI, UCRÂNIA - O som do detector de radiação de Timothy Mousseau lentamente aumentou quando ele caminhava pela floresta, a alguns quilômetros da usina nuclear de Chernobyl.

Quando parou para examinar uma teia de aranha no tronco de uma árvore o mostrador do aparelho apontou 25 microsieverts por hora. O que, segundo Mousseau, é normal nessa área não muito distante de Novoshepelychi, uma das centenas de vilarejos abandonados depois da contaminação radioativa causada pela explosão de um reator, em 1986, da usina que tornou grande parte desta região inabitável.

Os níveis de radioatividade aqui são bem menores do que aqueles ainda sentidos em partes do abrigo em deterioração que cobre o reator destruído - que em 2017 será coberto por uma enorme arca cuja finalidade é eliminar a ameaça de nova contaminação radioativa.

Mas os níveis de radiação nesta clareira numa região mais baixa, onde acácias e pinheiros se intercalam com estábulos destruídos, são mais do que normais. Aqui, em 10 dias uma pessoa ficaria exposta a um nível de radiação similar à que um americano nos Estados Unidos receberia de todas as fontes num ano. O que a torna uma área proibida, exceto no caso de rápidas incursões, mas um bom lugar para estudar os efeitos a longo prazo da radiação sobre os organismos.

"Este nível de exposição crônica está acima do que muitas espécies podem tolerar sem mostrar alguns sinais, seja em termos de tempo de vida ou no número de tumores que podem ter, ou mesmo mutações genéticas e cataratas", disse o biólogo. "É um laboratório perfeito."

Mousseau, biólogo da Universidade da Carolina do Sul, vai à área contaminada em torno de Chernobyl, conhecida como zona de exclusão, desde 1999. A lista de criaturas que estudou é longa: pássaros, insetos, aranhas e morcegos; pequenos roedores. Depois das fusões nucleares em Fukushima, no Japão, há três anos, ele realizou uma pesquisa similar ali também.

Em dezenas de documentos escritos durante anos, o biólogo e seus colegas reportaram evidências dos danos da radiação: aumento na frequência de tumores e anormalidades físicas como bicos deformados de pássaros comparado com aqueles de áreas não contaminadas, por exemplo. E um declínio nas populações de insetos e aranhas com a crescente intensidade de radiação.

Mas suas mais recentes conclusões, publicadas no mês passado, trouxeram algo novo. Algumas espécies de pássaros, ele e colegas reportaram na revista Functional Ecology, parecem ter se adaptado ao ambiente radioativo produzindo altos níveis de antioxidantes como proteção, com menos danos genéticos. Para esses pássaros, segundo o biólogo, a exposição crônica à radiação parece ser uma espécie de "seleção não natural" impelindo a mudança evolucionária.

Transformar em íon a radiação, como aquela produzida pelo césio, estrôncio e outros isótopos radioativos, afeta os tecidos vivos de várias maneiras. Uma delas é destruindo os filamentos de DNA. Uma dose suficientemente alta - milhares de vezes mais alta do que os níveis normais na floresta - pode causar doenças ou a morte.

Foi o que ocorre com dezenas de técnicos e bombeiros na central nuclear de Chernobyl quando o reator da Unidade 4 explodiu em 26 de abril de 1986. Eles ficaram expostos a doses letais, em muitos casos em poucos minutos, e seus órgãos e tecidos ficaram tão danificados que morreram em questão de semanas.

Doses relativamente baixas de radiação, contudo, mesmo que durante um longo tempo, podem ter pouco, ou nenhum, efeito. Mas as doses menores podem causar mutações genéticas, provocando cânceres e outros problemas físicos que podem surgir depois de períodos mais longos e afetar a reprodução e a longevidade. Estudar os efeitos nos animais e insetos pode ajudar a compreender melhor o impacto sobre os indivíduos também.

Alguns pesquisadores contestaram os estudos do Dr. Mousseau e seus colaboradores, afirmando que é difícil mostrar que níveis de radiação na zona de exclusão, que abrange cerca de dois mil e seiscentos metros quadrados, tiveram um efeito muito mais perceptível. Houve também notícias não científicas sobre enormes populações de animais na zona, sugerindo que a ausência de atividade humana fez com que a área se tornasse um refúgio para a vida selvagem.

Mousseau descarta a ideia de que a zona seja uma espécie de Eden pós-apocalíptico. Mas o mais recente estudo o surpreendeu, disse, porque mostra o tipo de adaptação que permite que algumas criaturas, como o tentilhão, embora o mesmo não valha para andorinhas e pintarroxos, se desenvolvam na zona. Contudo é preciso ver se estas espécies estão realmente se desenvolvendo, afirmou.

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