ROGERIO FLORENTINO / EFE
ROGERIO FLORENTINO / EFE

Em 15 dias, fogo no Pantanal é quase o dobro do registrado em agosto de 2019

Em apenas 15 dias, agosto deste ano já tem o maior número de queimadas para o mês desde 2005, quando houve 5.993 focos ao longo de todo o período, e é o segundo pior da série histórica

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2020 | 17h01
Atualizado 16 de agosto de 2020 | 20h14

As queimadas que atingem intensamente o Pantanal desde julho, já alcançaram, em apenas 15 dias, quase o dobro do número de focos registrados em todo o mês de agosto no ano passado. Entre o dia 1º e 15 deste mês, o bioma que se estende pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul teve 3.121 focos, ante 1.690 focos observados em todo agosto de 2019.  Ao longo do ano, já foram registrados 7.339 focos, alta de 131% em relação ao registrado nos primeiros oito meses do ano passado.

Agosto de 2019 (assim como praticamente todo o ano passado) já havia sido particularmente quente no Pantanal, com o maior número de focos desde 2012. Em apenas 15 dias, agosto deste ano, porém, já tem o maior número de queimadas desde 2005, quando houve 5.993 focos ao longo de todo o mês, de acordo com dados captados pelo Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Aquele foi o maior valor histórico de queimadas para o bioma em um único mês. No ritmo apresentado até agora, este mês pode passar a ocupar esse lugar. 

Julho deste ano já teve o maior registro para o período deste que o Inpe começou a compilar esses dados, em 1998. Foram 1.684 focos no mês passado. Até então, o maior valor tinha sido também de 2005. Julho daquele ano teve 1.259 focos, uma alta de 34%.

O recorde também se dá para os primeiros sete meses do ano. Entre janeiro e julho foram registrados 4.218 focos de calor em todo Pantanal, o maior número para o período da série histórica de dados do Inpe. Até então, o cenário mais intenso de focos nesse mesmo período tinha ocorrido em 2009, com 2.527 focos.

O Pantanal é considerado a maior planície inundável do planeta e mantinha mais de 80% de sua vegetação nativa. A região, que ocupa 1,76% do território brasileiro, abriga grande diversidade de espécies de fauna e flora.  A situação está dramática nos dois Estados, com o fogo atingindo áreas de reservas da vida selvagem, como a Estrada Parque Transpantaneira e o Sesc Pantanal.

O governo do Mato Grosso, que é coberto por Floresta Amazônica, Pantanal e Cerrado, estabeleceu uma moratória de queimadas no dia 1º de julho, mas a determinação não está sendo cumprida. Também há uma determinação do governo federal neste sentido para todo o País. Na semana passada, a capital Cuiabá amanheceu vários dias coberta de fumaça.

De acordo com levamento do Instituto Centro de Vida (ICV), nos primeiros 10 dias de agosto, foram registrados 1.074 focos de calor na porção mato-grossense do Pantanal, alta de 62% do que foi contabilizado em julho inteiro, com 662 focos. Em relação a todo o mês de agosto do ano passado, que teve 184 focos de calor, a alta é de 484%.

Segundo o ICV, há algumas explicações a alta deste ano. O primeiro é que os registros de chuva tiveram uma queda de 50% em relação a média histórica, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). "Um indicador disso é que o nível do rio Paraguai é o mais baixo desde os anos 60", aponta o ICV em nota técnica.

"Estudos apontam que com a aceleração do desmatamento da Amazônia, ao longo dos anos, o período de chuvas tem encurtado e as secas se tornaram mais severas na região central e sudeste do país. Pois esse desmatamento afeta duramente o fenômeno conhecido como 'rios voadores', no qual a umidade da floresta origina uma grande coluna de água, que é transportada pelo ar a vastas regiões da América do Sul", continua a nota.

Por causa da seca, diz o ICV, as áreas queimadas para fins agropecuários, principalmente para renovação e formação de pastagens, "fugiram de controle, tornando-se incêndios de grandes proporções". Segundo o instituto, 86% dos focos de calor foram detectados em imóveis rurais, sendo 52% em imóveis já inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e 34% em imóveis ainda não cadastrados.

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