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Elefantes distinguem vozes humanas por sexo, idade e etnia, diz estudo

Animais desenvolveram boa audição para sobreviver em territórios marcados por conflitos com seres humanos

Amina Khan, Los Angeles Times

11 Março 2014 | 18h57

Os elefantes podem ser conhecidos por sua memória, mas também são ouvintes incríveis. Elefantes africanos que escutam vozes humanas podem distinguir entre diferentes sexos, idades e até grupos étnicos, segundo um novo estudo publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences. Estes ouvidos aguçados são necessários na tentativa de sobreviver em territórios marcados por conflitos entre humanos e elefantes.

Os elefantes africanos que vivem no Parque Nacional Amboseli no Quênia dividem o espaço com o povo masai, que cria e arrebanha gado. Os dois grupos entram esporadicamente em conflito sobre recursos como água e pastagens. Ocasionalmente, um elefante ataca uma rês ou mesmo um humano, e caçadores masai lanceiam um elefante em resposta. Mas estes ataques são aleatórios, de uma perspectiva de elefante - e, portanto, saber qual humano é mais propenso a atacá-lo é uma habilidade útil.

"Os elefantes não podem prever onde as pessoas vão estar porque elas se espalham por estas áreas grandes pastoreando seu gado", disse Graeme Shannon, um ecologista comportamental na Colorado State University, que codirigiu o estudo. "Portanto, a ameaça é muito variável tanto espacial como temporalmente - e por isso eles precisam reagir de maneira apropriada."

Vozes oferecem uma rica variedade de pistas auditivas, e ouvir alguém a distância pode dar uma vantagem crucial no jogo de sobrevivência. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que os elefantes sabem o número e o sexo de leões com base em seus rugidos, e os cientistas especularam se o mesmo valia para outro grande predador dos elefantes, os seres humanos.

Os pesquisadores pegaram um alto-falante, camuflado por uma tela de folhas de palmeiras trançadas e a colocaram a cerca de 50 metros de onde esperavam a chegada de elefantes. Eles gravaram chamados de moradoress locais, incluindo homens, mulheres e meninos masai, dizendo, "Olha, olha ali: um grupo de elefantes está chegando".

Para comparar com os masai, eles incluíram também chamados do povo conhecido como camba. Como os cambas são agricultores e não criadores de gado, e os elefantes têm facilidade de evitar suas terras cultivadas, eles entram em muito menos conflito com elefantes.

Experiência. Os cientistas ficaram em um Land Rover a cerca de 150 metros do alto-falante e filmaram em vídeo suas respostas às vozes gravadas. A experiência demorou dois anos para ser completada, em parte porque os cientistas precisavam espaçar as sessões para os elefantes não ficarem habituados ao experimento. Às vezes, os pesquisadores enfrentavam problemas: ocasionalmente, um leão chegava perto demais e disparava os alarmes do grupo antes de o experimento ser realizado.

Shannon disse que acionou acidentalmente o comando "shuffle" (ordem aleatória de execução) em seu iPod em vez de tocar as vozes gravadas - e o alto-falante começou a berrar o clássico "Money for Nothing" dos anos 80 do Dire Straits. Os elefantes não ficaram impressionados. "Eles nem ligaram", ele disse. "Deram uma olhada para o alto-falante e se afastaram."

Às vozes de homens masai eles rapidamente se aglomeraram, protegendo os filhotes, e ergueram as trombas para farejar qualquer cheiro humano no ar. Gravações de mulheres e meninos masai não obtiveram nada parecido com esse tipo de reação. Tampouco as vozes de homens camba.

Isto porque os homens masai são os mais propensos a caçar um elefante, disseram os cientistas. As mulheres não se envolviam na caça, os meninos são jovens demais, e os agricultores camba geralmente não precisam competir com elefantes por recursos.

Os homens camba falavam uma língua diferente dos masai, de modo que é provável que os elefantes estivessem captando pistas linguísticas e não algumas diferenças subjacentes, herdadas, em suas vozes. Mas os cientistas não têm certeza de exatamente como os elefantes poderiam distinguir as vozes do homem adulto masai das vozes de mulheres e meninos. Quando eles remixaram as vozes de homens para soarem mais parecidas com as de mulheres e vice-versa, os animais não foram enganados. Desvendar esse mistério será o trabalho de pesquisas futuras, segundo Shannon.

Tradução de Celso Paciornik

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