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El Niño transforma rotina de comunidades ao redor do mundo

Em algumas partes, o problema foi a pouca quantidade de chuva; em outras, o excesso; entenda o fenômeno e suas implicações

Henry Fountain, The New York Times

31 Março 2016 | 03h00

Em aldeias rurais da África e da Ásia e em bairros urbanos da América do Sul milhões de vidas foram transformadas pelas alterações climáticas ligadas ao mais forte El Niño da última geração.

Em algumas partes do mundo, o problema foi a pouca quantidade de chuva; em outras, o excesso. As tempestades foram tão fortes na capital do Paraguai, Assunção, que as favelas se mudaram para as ruas da cidade, cheias de famílias expulsas de onde moravam pela inundação. Mas fazendeiros na Índia tiveram o problema oposto: a redução nas chuvas de monções os obrigaram a sair do campo e arrumar outros trabalhos.

Na África do Sul, a seca atingiu tão fortemente os agricultores que o país, que poucos anos atrás exportava milho para os mercados asiáticos, agora terá que comprar milhões de toneladas métricas desse produto do Brasil e de outros países da América do Sul.

“Eles realmente vão ter que importar, o que é raro”, diz Rogerio Bonifacio, analista de clima do Programa Mundial de Alimentos, uma agência das Nações Unidas. “Está sendo uma grande seca.”

A Organização Mundial de Saúde estima que, em todo o mundo, situações climáticas relacionadas ao El Niño estejam deixando 60 milhões de pessoas correndo risco de desnutrição e doenças transmitidas pela água, por mosquitos e outras causas.

Os cientistas começaram a relatar os primeiros sinais das condições do fenômeno no início do ano passado, baseados em mudanças na temperatura das águas da superfície e da pressão atmosférica no Pacífico Equatorial. No meio do ano, a Organização Meteorológica Mundial declarou que o El Niño estava acontecendo e possivelmente seria o mais forte desde 1997-98.

O fenômeno El Niño acontece em média a cada dois a sete anos, quando a água quente do Pacífico se desloca para o leste, criando uma imensa zona aquecida nas partes central e oriental do oceano. Isso faz com que o ar fique mais quente e úmido, condensando mais alto na atmosfera e soltando uma energia que afeta os ventos de grande altitude, conhecidos como correntes de jato, que circundam o planeta. Quanto mais quente o oceano, mais energia pode potencialmente ser liberada.

Um efeito da energia é que ela altera o curso da corrente de jato. No hemisfério norte, isso pode trazer mais tempestades de inverno para o sul dos Estados Unidos, incluindo o sul da Califórnia.

Mas toda essa energia na atmosfera superior também é capaz de fazer com que a corrente de jato fique ondulada o que pode afetar as condições climáticas em todo o mundo. “É como mexer com um remo para frente e para trás num córrego e gerar ondas atmosféricas em escala planetária”, explica Michael McPhaden, cientista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

Isso leva a padrões de chuvas, ou da falta delas, que podem aparecer em regiões distantes em momentos diferentes - chuvas fortes no centro-sul da América do Sul de setembro a janeiro, seca cada vez mais intensa na América Central na maior parte no ano e redução do verão de monções na Índia, entre outros efeitos.

Como esses padrões muitas vezes se repetem em anos diferentes do El Niño, os efeitos podem ser previsíveis. Ainda assim, testam a capacidade de resposta dos governos e das agências de apoio.

O fenômeno frequentemente atinge partes da Etiópia, por exemplo, e dessa vez não foi exceção. O país está entre os mais afetados pela seca, conta Bonifacio, com mais de dez milhões de pessoas precisando de ajuda para se alimentar. Ainda assim a Etiópia está lidando com o problema quase sozinha. “Eles tomaram a decisão de se esforçar para resolver a situação”, conta Bonifacio.

Mas até agora, como demostra a falta de chuvas prolongadas no sul da Califórnia neste inverno, os efeitos do El Niño ainda podem ser difíceis de prever.

Bonifacio observa, por exemplo, que a região do Sahel na África geralmente sofre com secas nos verões do El Niño mas, no ano passado, depois de um junho seco, a chuva veio. “De julho em diante, as coisas mudaram completamente”, conta.

O El Niño não afeta apenas as pessoas. A NOAA afirmou este mês que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera - uma importante medida de mudança climática - teve o maior crescimento ano a ano em quase seis décadas, e que o aumento aconteceu parcialmente por causa do efeito climático relacionado com o El Niño sobre a vegetação. Tempo mais seco, por exemplo, significa menor crescimento de plantas que absorvem o dióxido de carbono do ar.

 

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