El Niño se intensificou nos últimos 6 mil anos, aponta estudo

El Niño se intensificou nos últimos 6 mil anos, aponta estudo

Com modelos computacionais, cientistas americanos investigaram mudanças na intensidade do fenômeno nos últimos 21 mil anos

FÁBIO DE CASTRO, O ESTADO DE S. PAULO

28 Novembro 2014 | 09h19

SÃO PAULO - Para descobrir se futuras manifestações do El Niño serão mais fortes ou mais fracas, um grupo de cientistas decidiu investigar o passado do fenômeno, que é considerado a principal causa de flutuações climáticas há milhares de anos. Utilizando modelos computacionais, os pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos,concluíram que o El Niño se intensificou nos últimos 6 mil anos. 

O El Niño se caracteriza por um enfraquecimento dos ventos alísios - que sopram na faixa equatorial no sentido leste-oeste - e pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico, que provoca mudanças nas correntes atmosféricas, afetando todo o clima global. O estudo foi publicado na edição desta semana da revista Nature.

Liderados por Zhengyu Liu, do Departamento de Ciências Oceânicas e Atmosféricas, os cientistas estudaram os fatores que influenciaram a ocorrência do El Niño nos últimos 21 mil anos, para entender como pode ser o futuro e traçar políticas de adaptação à mudança climática. Segundo Liu, o objetivo das pesquisas é compreender como o El Niño responderá às mudanças climáticas globais. 

"Não podemos observar o futuro, então o que nos resta é examinar os dados do passado e com isso fazer projeções. Estamos interessados em saber se o El Niño ficará mais forte ou mais fraco no futuro. Isso exige o desenvolvimento de modelos matemáticos, para que possamos simular a história do fenômeno no passado", disse Liu. 

Utilizando modelos computacionais de alta tecnologia desenvolvidos no Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica do Colorado, os pesquisadores  concluíram que o fenômeno se intensificou nos últimos 6 mil anos, corroborando dados obtidos em estudos anteriores. Aqueles estudos tinham base na análise de sedimentos da costa da América Central e nas mudanças observadas em corais fossilizados. 

Nos anos de El Niño, mais quentes e chuvosos, os sedimentos costeiros apresentam cores mais claras. Essa "assinatura" permite identificar a intensidade do fenômeno. 

"As observações anteriores indicavam que o El Niño passou por mudanças de intensidade, aumentando em um período de 5 mil a 7 mil anos atrás. Mas, ao contrário daqueles estudos, que faziam um retrato estático de momentos do fenômeno, o novo modelo fornece uma visão contínua da longa história do El Niño", disse Liu.

Segundo Liu, o modelo computacional utiliza dados como presença de dióxido de carbono na atmosfera, derretimento das calotas polares e mudanças na órbita da Terra.

De acordo com Liu, no início do período Holoceno - há cerca de 12 mil anos - o fim da glaciação provocou picos de degelo que provocaram alterações no El Niño. A partir daí, porém, mudanças na órbita da Terra foram a principal influência na intensificação do fenômeno.

"Essas mudanças de órbita modificaram a interação entre o oceano e a atmosfera, tornando-a mais expressiva", disse Liu. 

O estudo, entretanto, tem limitações, de acordo com o cientista. Os dados observacionais que alimentam o modelo são esparsos e têm baixa resolução, o que limita o registro de mudanças mais sutis no El Niño ao longo dos milênios.

"Vamos precisar de mais dados observacionais para refinar o modelo, como mais amostras de corais e medições de sedimentos em diferentes locais do Pacífico central. A ciência está em constante aprimoramento", declarou Liu.

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