Egito e seus sedentos vizinhos disputam o Nilo

Sete países a montante do rio questionam os direitos especiais de egípcios e sudaneses sobre o rio, herdados do colonialismo britânico

Thanassis Cambanis*, The New York Times

04 Outubro 2010 | 15h08

Para começar a compreender o motivo pelo qual o Egito, país abrasado pelo sol, quase rompeu as relações com seus vizinhos localizados a montante no Nilo, vale a pena conhecer o caso de Mohammed Abdallah Sharkawi. Nos campos em que cultiva algodão e milho, a água do rio chega até o tornozelo e ele não paga nada pelo precioso recurso que inunda sua fazenda.“Dou graças a Deus”, disse Mohammed levantando as mãos ao céu, referindo-se ao Nilo. Em seguida, apontando para o funcionário do governo que visita suas terras: “Tudo vem de Deus. E do ministério."

 

Mas talvez essa situação não dure mais muito tempo. Os países próximos às nascente do rio, que anseiam pela correção de erros segundo eles históricos, uniram-se na tentativa de quebrar o quase monopólio da água que mantêm o Egito e do Sudão, e ameaçam desencadear uma crise que, de acordo com especialistas egípcios, poderia, na pior das hipóteses, levar até a uma guerra.

 

“Não só o Egito é fruto do Nilo, como depende quase exclusivamente dos seus recursos hídricos”, afirmou um porta-voz do Ministério do Exterior egípcio, Hossam Zaki. “Temos uma população que aumenta continuamente e necessidades crescentes. Não podemos aceitar esse tipo de ameaça”.

 

Desde que a civilização surgiu nestas paragens, os egípcios ocuparam as margens do Nilo ricas em limo. Quase todos os 80 milhões de pessoas que vivem a poucos quilômetros do rio, e produtores agrícolas como Sharkawi, praticamente não mudaram os métodos de cultivo em quatro milênio. No entanto, a população do Egito cresce sem parar e até 2017, a se manterem as atuais taxas de uso, a água do rio mal bastará para atender às necessidades básicas do Egito, segundo o Ministério da Irrigação.

 

E isso supondo que o fluxo do rio não diminua. Durante o governo colonial britânico, um tratado de 1929 reservava 80% de toda a sua água para o Egito e o Sudão, na época governados como um único país. O tratado foi reconfirmado em 1959. Em geral, os países localizados a montante controlam o fluxo de um rio, como o Tigris e o Eufrates, cujo fluxo já está bastante reduzido quando entram no Iraque, procedentes da Turquia e da Síria. O caso do Nilo é inverso, porque os colonizadores britânicos que governavam a região queriam garantir o uso de suas águas para a agricultura egípcia.

 

Para os sete países a montante Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda o tratado é um vestígio injusto do colonialismo.O Egito, de seu lado,afirma que esses outros países são ricos em recursos hídricos, enquanto ele depende de um único rio.

 

Nos dias de hoje, o confronto se desenrola em câmara lenta. Em abril, as negociações entre os nove países banhados pelo rio foram interrompidas porque Egito e Sudão se recusaram a ceder. Os outros países da bacia rapidamente se uniram e, em maio, apresentaram uma fórmula que lhes permitiria construir seus próprios projetos de irrigação e barragens, reduzindo o fluxo até o Lago Nasser, a imensa represa entre o Egito e o Sudão.

 

Até o momento, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia e Ruanda assinaram o novo acordo da bacia do Nilo, que exigiria apenas uma maioria simples de países membros para a aprovação de novos projetos. O Egito quer manter seu poder de veto sobre os projetos de qualquer país, e afirma, com o Sudão, que as principais cláusulas do tratado da era colonialista devem ser preservadas.

 

Congo e Burundi ainda não decidiram de que lado ficar. Egito e Sudão têm até maio para retomar as negociações, ou os países a montante farão vigorar o novo tratado.

 

Árabes e chineses

 

A ameaça de perder a água do Nilo assustou o Egito, que até pouco tempo ignorava praticamente os outros países da bacia. O Cairo levou um novo susto alguns meses atrás, quando a Etiópia inaugurou uma hidrelétrica de US$ 520 milhões sobre um tributário do Nilo, como parte de um projeto iniciado há uma década para criar uma moderna infraestrutura destinada à produção de eletricidade. Segundo a imprensa etíope, Itália, Etiópia e o Banco Europeu de Investimentos financiaram o projeto.

 

A urgência é ainda maior, afirmam diplomatas e especialistas em recursos hídricos do Egito, porque investidores chineses e da região do Golfo Pérsico manifestaram interesse em participar de enormes projetos agrícolas em Uganda e na Etiópia, que usariam a água do Nilo.

 

Atualmente, são várias as nações a montante, inclusive Etiópia e Uganda, que planejam a construção de hidrelétricas. Contudo, se esses países agirem lentamente e encherem os reservatórios ao longo de um período de 5 a 15 anos, as autoridades egípcias admitem que as hidrelétricas não afetarão o consumo do seu país de maneira significativa.

 

Além disso, elas acreditam que o Banco Mundial, doador tradicional de recursos para a construção de barragens, não aprovará estes projetos em razão das objeções movidas pelo Cairo, embora continuem preocupadas com a possibilidade de os governos e os investidores privados se considerarem livres para emprestarem os recursos.

 

Determinados projetos agrícolas, que poderão ser muito mais prejudiciais para o Egito, são outra questão. Não só reduziriam permanentemente a quantidade de água que chega às fronteiras do Egito, como também já despertaram o interesse de nações árabes ricas e dos chineses, que avaliaram os enormes lucros em potencial.

 

Especialistas egípcios afirmaram que os países a montante desperdiçam quantidades colossais de água que escorre para os pântanos sem ser utilizada. Por sua vez, os países apontam para os métodos agrícolas do Egito, caracterizados pelo desperdício, afirmando que 75% da água usada e destinada à agricultura, na maior parte é desperdiçada por causa de práticas antiquadas e ineficientes.

 

“Acho que estamos todos loucos”, disse Diaa el-Quosy, um especialista que estudou nos Estados Unidos, assessor do ministro da Irrigação do Egito. “Todos querem a sua parte e muito mais.”  Na sua opinião, quando as tensões políticas se abrandarem, os nove países da bacia do Nilo poderão encontrar “soluções criativas” para administrar o fluxo do rio de maneira eficiente. “Há água suficiente para todos”, afirmou.

 

No entanto, no Egito, décadas de belicosa retórica sobre o Nilo tornaram a água do rio uma questão explosiva. “A violação da cota de água do Nilo que cabe ao Egito constitui um genocídio contra 80 milhões de pessoas”, escreveu o comentarista egípcio Hazem el-Beblawi, no Al Masry Al Youm, um jornal egípcio.

Os especialistas afirmam que o Egito pouco fez para reduzir o seu mau uso do recurso.

 

Apesar dos esforços periódicos do governo para combater o desperdício, a água para irrigação ainda flui em grande parte de canais sujos, muitas vezes asfixiados pela vegetação aquática. Antes de chegar às culturas, grande parte dela se infiltra no solo.

 

“O Egito não age como um país morto de sede”, comentou Dan Morrison, autor do livro The Black Nile (O Nilo Negro), no qual faz o relato de sua viagem desde as nascentes do rio até a embocadura no Mediterrâneo, e encontrou o maior desperdício no Egito. Enquanto os agricultores não precisarem pagar pela água, disse Morrison, não haverá nenhum incentivo para conservá-la.

 

Uma solução proposta por ele prevê a importação pelo Egito de alimentos produzidos pelas nações a montante do rio, que podem cultivar a terra de maneira mais eficiente com a água do Nilo.

 

Isam Abdurahman, supervisor para a exploração agrícola do Ministério da Agricultura, informou que o governo está adotando medidas visando a conservação da água, que incluem a pavimentação de alguns canais de irrigação e uma administração mais rigorosa dos métodos usados pelos agricultores. Este ano, por exemplo, em razão dos baixos níveis do rio, o cultivo do arroz foi totalmente proibido nestas áreas, e a cota de algodão foi extremamente reduzida. Sharkawi pôde plantar apenas um campo de algodão e não os quatro de costume.

 

E em algumas áreas desérticas como Toshka, perto da fronteira sudanesa, o Egito realizou algumas experiências com a moderna irrigação por gotejamento em larga escala. Mas a ampla maioria dos agricultores é composta por donos de minifúndios, como Sharkawi, que cultiva milho, algodão e alfafa no delta.

 

Ele não tem condições de investir em irrigação por cotejamento ou em sistemas de sprinklers, que fazem com que se perca menos água com a evaporação. Além disso, como a maioria dos produtores agrícolas que pratica uma economia de subsistência, ele é favorável a culturas que gastam mais água, como arroz, milho e algodão, em vez de produtos hortifrutícolas que usam menos água.

 

Os líderes dos países a montante do rio, como o primeiro-ministro da Etiópia, alertam que o uso da água do Nilo “não é um jogo de soma zero”(nem todo mundo se beneficia), mas na região do delta do rio é exatamente assim que milhões de agricultores veem a situação. Se tivesse de pagar pela água que utiliza, Sharkawi diz que simplesmente perderia sua terra.

 

“Desde os antigos egípcios”, observa, “sempre vivemos assim. Foi assim comigo e assim será para os meus filhos.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É JORNALISTA E ESPECIALISTA EM ORIENTE MÉDIO

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