The Economist
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'The Economist' diz que Brasil tem poder de salvar ou destruir a Amazônia

Em reportagem de capa, revista afirma que 'mundo deveria deixar claro a Bolsonaro que não tolerá seu vandalismo'

Célia Froufre, correspondente em Londres

01 de agosto de 2019 | 17h05

LONDRES - Tema polêmico dentro do País, que esteve na pauta das negociações comerciais para um acordo do Mercado Comum do Sul (Mercosul) com a União Europeia (UE) e em conversas entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e líderes europeus no G-20, o futuro da Amazônia está na capa da revista britânica The Economist. Para a publicação, o Brasil tem o poder de salvar ou destruir a maior floresta da Terra. Clique aqui para acessar a tradução da reportagem completa.

Após traçar um histórico da relação da humanidade com as florestas, o texto ressalta que elas ainda são um meio de subsistência para 1,5 bilhão de pessoas e um amortecedor frágil contra as mudanças climáticas. Agora, aponta a publicação, secas, incêndios florestais e outras mudanças induzidas pelo homem estão aumentando os danos causados pelas motosserras.

"Nos trópicos, que contêm metade da biomassa florestal do mundo, a perda de cobertura florestal se acelerou em dois terços desde 2015; se fosse um país, o encolhimento faria da floresta tropical o terceiro maior emissor de dióxido de carbono do mundo, depois da China e dos Estados Unidos", comparou.

Na sequência, a reportagem fala da Bacia Amazônica, que contém 40% das florestas tropicais da Terra e abriga de 10% a 15% das espécies terrestres do mundo.

"A maravilha natural da América do Sul pode estar perigosamente próxima do ponto de inflexão além do qual sua transformação gradual em algo mais próximo do estepe não pode ser impedida ou revertida", trouxe o semanário.

Para a revista britânica, Bolsonaro  está apressando o processo - em nome, afirma, do desenvolvimento. "O colapso ecológico que suas políticas podem precipitar seria sentido com mais intensidade nas fronteiras de seu País, que circundam 80% da bacia - mas também irá muito além delas", trouxe a Economist, acrescentando que isso deve ser evitado.

Escala

A revista lembra que os humanos têm cavado a floresta amazônica desde que se estabeleceram lá, há mais de dez milênios, mas que nos anos 1970 isso passou a ocorrer em escala industrial. O texto afirma que o Brasil diminuiu 17% da extensão original da floresta, mais do que a área total da França, para a construção de estradas e barragens, extração de madeira, mineração, agricultura de soja e pecuária. A publicação continua, dizendo que após um esforço do governo durante sete anos para retardar a destruição, ela voltou a crescer em 2013 por causa do enfraquecimento da fiscalização e da anistia ao desmatamento no passado.

A recessão e a crise política, segundo o texto, reduziram ainda mais a capacidade do governo de aplicar regras. Embora o Congresso e os tribunais tenham bloqueado alguns dos esforços do presidente para tirar partes da Amazônia de seu status protegido, Bolsonaro deixou claro que os infratores de regras não têm nada a temer, apesar do fato de ele ter sido eleito para restaurar a lei e a ordem. A análise prossegue enfatizando que, como de 70% a 80% da extração madeireira na Amazônia é ilegal, a destruição aumentou para níveis recordes.

"Desde que assumiu o cargo em janeiro, as árvores estão desaparecendo a uma taxa de mais de duas vezes o tamanho de Manhattans por semana", alertou.

A Economist salientou que a Amazônia recicla grande parte de sua água, mas que, conforme diminui de tamanho, também reduz essa reciclagem.

"Num certo limiar, isso faz com que mais da floresta se reduza, de modo que, em questão de décadas, o processo se retroalimente. A mudança climática também está aproximando esse limiar a cada ano à medida que a floresta se aquece. Bolsonaro está empurrando-o para a borda."

A revista salienta que os pessimistas temem que o ciclo de degradação descontrolada possa acontecer quando outros de 3% a 8% da floresta desaparecerem - o que, sob o governo de Bolsonaro, de acordo com a publicação, pode acontecer em breve. Há sinais de que os pessimistas podem estar corretos, conforme o veículos britânico, citando que, nos últimos 15 anos, a Amazônia sofreu três secas severas e que os incêndios estão em ascensão.

Negócio do Brasil

"O presidente do Brasil descarta tais descobertas, já que ele faz ciência mais amplamente", ironizou. Bolsonaro acusa estrangeiros de hipocrisia - e, às vezes, de usar o dogma ambiental como pretexto para manter o Brasil pobre. "A Amazônia é nossa", esbravejou o presidente recentemente. "O que acontece na Amazônia brasileira, ele pensa, é negócio do Brasil. Não é", afirmou o semanário.

A morte da floresta prejudicaria diretamente os outros sete países com os quais o Brasil compartilha a bacia do rio. Isso reduziria a umidade canalizada ao longo dos Andes até o sul de Buenos Aires. Para a Economist, se o Brasil estivesse represando um rio, e não o "sufocando", nações poderiam considerar se tratar de um ato de guerra. O texto ressaltou ainda que o mundo poderia aquecer até 0,1°C até 2100 - pode não parecer muito, mas a meta principal do Acordo de Paris permite um aquecimento adicional de apenas 0,5°C.

Os outros argumentos de Bolsonaro também são falhos, segundo a reportagem.

"Sim, o mundo rico acabou com suas florestas. O Brasil não deve copiar seus erros, mas aprender com eles como, por exemplo, a França, reflorestando enquanto ainda pode", apontou, acrescentando que o desmatamento não é um preço necessário para o desenvolvimento.

A produção brasileira de soja e carne bovina subiu entre 2004 e 2012, quando a derrubada de florestas diminuiu em 80%. De fato, além da própria Amazônia, a agricultura brasileira pode ser a maior vítima do desmatamento. A seca de 2015 fez com que os produtores de milho no Estado de Mato Grosso perdessem um terço da sua colheita.

Mundo não tolerará vandalismo de Bolsonaro

"Por todas estas razões, o mundo deveria deixar claro a Bolsonaro que não tolerará seu vandalismo", enfatizou o texto.

Companhias de alimentos, pressionadas pelos consumidores, deveriam rejeitar a soja e a carne produzidas em terras amazônicas ilegalmente exploradas, como aconteceu em meados dos anos 2000. Os parceiros comerciais do Brasil devem fazer acordos contingentes ao seu bom comportamento. O acordo alcançado em junho pela UE e o Mercosul já inclui dispositivos para proteger a floresta tropical.

"É esmagadoramente do interesse das partes aplicá-las", disse a Economist.

O mesmo vale para a China, que está preocupada com o aquecimento global e precisa da agricultura brasileira para alimentar seu gado. Os ricos signatários do Acordo de Paris, que se comprometeram a pagar os que estão em desenvolvimento para plantar árvores que consomem carbono, deveriam fazê-lo. O desmatamento responde por 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas atrai apenas 3% da ajuda destinada ao combate às mudanças climáticas.

Se há uma briga verde nas táticas de Bolsonaro em relação à floresta tropical, é que elas tornaram a situação da Amazônia mais difícil de ignorar - e não apenas para estrangeiros. A ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina, pediu que Bolsonaro permanecesse no Acordo de Paris - o desmatamento descontrolado pode acabar prejudicando os agricultores brasileiros se isso levar a boicotes estrangeiros de produtos agrícolas do País.

Os brasileiros comuns devem pressionar seu presidente para reverter o curso da situação. Eles foram abençoados com um patrimônio planetário único, cujo valor é intrínseco e sustentador da vida, tanto quanto é comercial. Deixá-lo perecer, finalizou a revista, seria uma catástrofe desnecessária.

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