Roque de Sá / Agência Senado
Roque de Sá / Agência Senado

'É preciso investir na preservação e restauração de sistemas degradados', diz brasileira do IPCC

Professora da Universidade de Brasília destaca medidas para conter mudanças climáticas em painel da ONU

Entrevista com

Mercedes Bustamante

Emilio Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 21h40

Professora da Universidade de Brasília e uma das autoras do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), das Nações Unidas, Mercedes Bustamante vê a situação do Brasil ante o processo em marcha de mudanças climáticas de forma, por vezes, paradoxal. Ao mesmo tempo em que nosso maior ativo, as florestas, proporciona  possibilidades de mitigação das emissões de carbono com geração de renda, manter esse ativo em pé e funcional parece um trabalho tão árduo quanto o de países que precisam investir no desenvolvimento de novas tecnologias para isso.

O relatório do IPCC, divulgado nesta segunda-feira, 4, aponta que a janela para a adoção de medidas práticas e duradouras está se fechando. O documento mostra que para se manter o aumento da temperatura global abaixo do 1,5ºC até o final do século, 2025 é o limite para que a média anual global das emissões de gases do efeito estufa alcance seu ponto de inflexão e passe a cair.

Mercedes vê o desafio de forma proporcional às possibilidades. O relatório não se foca em países e sim em grandes regiões, mas para o Brasil ela diz que os investimentos para manter nossas florestas em pé e retirar carbono da atmosfera abre possibilidades de geração de renda e desenvolvimento.

No entanto, a professora lembra que políticas públicas devem guiar esse modelo, assim como espera que o setor financeiro transforme em ações e investimentos o potencial econômico de se manter a floresta em pé. Principalmente por uma questão de sobrevivência, de todos. "Hoje, o ‘business as usual’ (a forma de fazer negócios tradicional sem se importar com as características das circunstâncias) se tornou perigoso". Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

O relatório fala em investimentos e desenvolvimento de tecnologias para a mitigação das emissões de gases geradores de efeito estufa. Qual o papel do Brasil nesse contexto?

O IPCC não olha países, olha para regiões, mas a gente consegue ver quais são as nossas características. Quando você olha para o perfil de emissões do País fica claro que são dois pontos: o desmatamento e a agricultura. Esse setor que trabalhei tem relevância enorme para o Brasil, é onde tem recursos para fazer as remoções. Não é uma tecnologia de captura de carbono que será testada e comprovada lá na frente. A fotossíntese (realizada pela cobertura vegetal das florestas) já é uma estratégia de remoção de carbono eficiente e pode ser usada em escala. E há uma outra contribuição desse setor que é poder substituir produtos que são intensivos nas emissões de carbono, como o setor de energia e construção civil, Isso mostra que para os países que têm ainda grandes extensões de sistemas naturais ainda protegidos, investir na preservação e restauração de sistemas já degradados (é a saída). Com a bioeconomia, temos tanto a possibilidade de produzir biomassa como inovar com novos materiais de origem renovável.

Por exemplo?

O plástico. Pode ser substituído o material com base no carbono fóssil por outro com base no carbono renovável. Temos uma diversidade muito grande de materiais e microorganismos como fonte. Isso mostra a importância da inovação. Assim como foi importante, por exemplo, no setor de energia, pode ser importante em outros setores. Na questão do metano, recentemente o assunto dos fertilizantes ressurgiu, há um campo enorme para ser desenvolvido.

Apesar de nosso baixo investimento em ciência, a Embrapa sempre foi um símbolo de desenvolvimento científico no campo. Ainda temos capacidade para fazer essas inovações?

Temos que olhar sempre para a cadeia. Uma coisa é desenvolver no laboratório, mas há todo um caminho de políticas para desenvolver isso, que facilitem a adoção dessas tecnologias. Isso depende também de incentivos públicos. Não adianta ter o produto na prateleira e não ter políticas que incentivem a adoção dessa tecnologia. 

O relatório aponta a importância do setor financeiro no processo de mitigação.

É um dos pontos mais críticos desse relatório, uma forma de estimular que essas transformações que já estão em curso ocorram.

Por que continua a ser um ponto crítico, já que há interesse comercial?

Temos a possibilidade de diminuir as emissões a metade até 2030 em todos os setores, usando diversas tecnologias, algumas delas com custo relativamente baixo. Mas ainda não tem um fluxo de recursos direcionado para isso. Liquidez existe. Novamente, há duas frentes. O que é dinheiro público, as políticas públicas precisam estabelecer o que é prioridade para fazer esse investimento. A outra é o setor privado, onde você já começa a ver a preocupação para onde esse dinheiro vai. Então é começar a garantir esses investimentos em setores para onde a própria economia vai nas próximas décadas. Uma das mensagens do relatório  é que em muitas dessas áreas os benefícios econômicos são maiores do que o próprio custo de implementação. E ainda há a possibilidade dessa transição gerar empregos.

Qual a relação desse desenvolvimento e investimentos com a justiça social?

Os dois pontos estão interligados. Quando você olha as populações mais vulneráveis são aquelas mais dependentes de recursos naturais, vivendo em áreas suscetíveis aos desastres dos eventos extremos. Essas vulnerabilidades vão se adicionando.

Na COP-26 um dos pontos mais esperados foi a regulamentação do mercado de crédito de carbono. Na ausência de um marco legal entre os países, ele foi se desenvolvendo. Agora, a senhora vê esse mercado como uma realidade ou ainda um potencial no Brasil?

Essa é uma das ferramentas. Enquanto você está montando as peças do quebra-cabeças v vai usando, mas vai chegar um momento em que a ideia é que se reduzam as emissões em todos os setores. A ideia do mercado de carbono é que os setores que conseguem reduzir mais possam liberar os que fazem isso de forma mais lenta, mas a tendência com o tempo é que também consiga abater nesses setores. Então, não é uma panaceia, não é a única ferramenta, e a ideia é que a partir de um momento em que se desenvolva uma ampla economia de baixas emissões, a gente precisa pensar que papel esse mercado vai ter. Ele vai facilitar a transição, mas não vai ser para sempre isso. 

Qual sua avaliação sobre o desenvolvimento de economias de baixo carbono nesse grupo de países com grandes extensões de florestas da qual o Brasil faz parte?

O  IPCC não fala sobre países. Há, por exemplo, uma situação muito diferente entre o Brasil e o Congo. Nós temos o manual de como fazer, sabemos como implementar e fizemos isso enquanto a economia estava crescendo. São opções viáveis, não são freios ao desenvolvimento. Mas precisamos lembrar que os sistemas naturais também respondem às mudanças climáticas. Ou seja, temos que monitorar como eles respondem. Lentamente a floresta vai perdendo sua capacidade de resiliência. Podemos estar queimando um ativo que será importante lá na frente para o País.

Se temos ainda esse ativo, a missão do Brasil nesse contexto é mais fácil do que a de países como os EUA e a China, principais emissores de gases do efeito estufa? 

Bom, já temos impactos sobre os sistemas naturais. Passar de um aumento de 1,5ºC ainda que temporariamente (como mostra um dos cenários do relatório do IPCC) vai  aumentar muito esse impacto, com a perda de eficiência desses “drenos naturais” de carbono que são os ecossistemas. Temos aqui a pressão de vetores globais e locais das mudanças climáticas e já deveríamos estar diminuindo um desses vetores. Dá para reverter, é urgente, tem que ser drástico e bem conduzido. Hoje, o “business as usual” se tornou perigoso. 

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