Fundação Ellen MacArthur/ Divulgação
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'É perverso colocar o consumidor como potência da mudança ambiental'

Diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur destaca importância do conceito de economia circular

Entrevista com

Luísa Santiago, diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Luísa Santiago, diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina, defende o conceito de economia circular, que se baseia em eliminar a noção de resíduo e poluição, manter materiais em uso e regenerar sistemas vivos. Nesta entrevista ao Estadão, ela aponta Colômbia e Chile como países que têm boas práticas em termos de políticas públicas na América Latina. No Brasil, diz Luísa, é preciso fomentar cadeias produtivas locais com produtos para se manterem na economia, e não descartáveis. A Fundação Ellen MacArthur trabalha com empresas e governos para acelerar processos de uma economia circular.

Como você definiria economia circular e quais países têm as melhores práticas?

A lógica de uma economia circular congrega a ideia de geração de valor econômico com um ambiente saudável e benefícios para a sociedade e empresas. Ela se baseia em três princípios: eliminar a noção de resíduo e poluição, manter materiais em uso e regenerar sistemas vivos. Difere-se radicalmente de como a economia funciona hoje, de maneira linear, em que você extrai recursos da natureza, consome e descarta.

Em termos de países que têm boas práticas em termos de políticas públicas, na América Latina, você tem a Colômbia e o Chile como expoentes. A Colômbia foi o primeiro a lançar uma estratégia nacional para economia circular, que significa olhar a nova onda de prosperidade no país não mais olhando para o extrativismo, como sempre foi na economia latino-americana, mas sim olhar o valor das riquezas naturais que existem na região. É um ponto de partida diferente da Europa, que tem recursos escassos e pouco espaço. O Chile está desenvolvendo uma estratégia de economia circular.

O que o Brasil precisa fazer?

O Brasil, assim como a América Latina, entrou no processo de industrialização tardia e também tem essa visão extrativista linear. Nas últimas décadas, ao PIB do País se baseou amplamente em extração de recursos minerais e também uma agricultura extrativista, ou seja, que extrai recurso do solo em vez de usar a produção alimentar para regeneração constante do solo. É uma agricultura monocultora, de larga escala, exportadora, que não produz alimento. É um país que se baseia em uma mentalidade extremamente linear para gerar riqueza. No boom das commodities, o Brasil extraiu mais e mais minérios para mandar para a China poder produzir e depois comprarmos os produtos deles. Isso funcionou muito a curto prazo, mas logo na primeira década deste século já se mostrou ineficaz para funcionar no longo prazo.

Para o Brasil ter um protagonismo, precisamos olhar para os nossos recursos de forma a agregar valor. Como eu posso olhar para uma bioeconomia de forma a regenerar sistemas? Como olhar para a agricultura de forma a gerar alimentos e regenerar o solo, e não de forma que demande cada vez mais insumos para a agricultura. Quando a gente olha para o ciclo técnico, com recursos finitos, você olha para o ciclo produtivo muito mais localizado. Incentivar não só que o Brasil extraia os seus recursos naturais, bote em um navio e envie para outro país, mas sim fomentar cadeias produtivas locais de maneira a pensar o design de produtos para se manterem na economia, e não descartáveis. Pensar em remanufatura, e não só reciclagem. Demandar menos extração de materiais.

Com a queda do consumo individual, as empresas terão queda em suas receitas? O que mostra a experiência internacional?

Na economia linear, você precisa de um ser humano consumindo a todo momento. Mas isso não vai funcionar por muito tempo, porque, ao descartar, a gente descarta também muito dinheiro. As empresas perdem muito. Por exemplo, uma empresa que produz um cosmético ou um produto de limpeza está vendendo para o consumidor uma embalagem com o cosmético ou com o produto de limpeza. A embalagem não é o que o consumidor quer, ele joga aquilo fora. Agora, quando você pensa em uma economia circular, você tira o consumidor do papel de consumidor e o coloca no papel de usuário.

Quando você prolonga o material em uso, as empresas mantêm o valor daquele material e o usuário deixa de perder o valor do material, porque ele passa a usar o material quando é interessante para ele. A Philips, por exemplo, está vendendo estações de luz em vez de vender lâmpadas; a Coca-Cola criou as garrafas universais que se baseiam na ideia de retornabilidade. O consumidor vai pagar menos ao comprar a bebida retornável, em vez de comprar uma embalagem com a bebida e jogar fora.

Qual é o papel do governo nas mudanças?

A construção de uma economia circular é uma mudança sistêmica. É preciso o envolvimento de governos, empresas, academia. É a ideia de transdisciplinaridade, porque políticas de governo dessa lógica não vão sair necessariamente do Ministério do Meio Ambiente. Em geral, os países que estão fazendo transições robustas estão partindo do Ministério da Economia. Ele não morre dentro de um organismo, é uma política interministerial. As regras do jogo para a nova economia precisa construir conjuntamente.

Muitas vezes, a máxima do discurso ambientalista colocou no consumidor a potência da mudança. Mas isso é muito perverso. Na realidade, o consumidor ocupou esse papel a partir da organização do sistema industrial. Para a construção de um sistema em que ele possa ser um usuário de produtos e serviços, ele vai participar de novas estratégias, mas as indústrias vão ser os protagonistas na mudança, porque foram elas que criaram a economia linear.

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