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E as abelhas continuam morrendo

A Comissão Europeia em Bruxelas tomou uma decisão que aguardávamos há seis anos sobre a luta contra a mortalidade das abelhas

Gilles Lapouge , colunista

28 de agosto de 2019 | 03h00

Está na moda censurar a União Europeia por sua inércia, seus encargos, sua lentidão, suas inúteis palavras paralisantes entre nações. Este mês, no entanto, ela fez um esforço.

Em 17 de julho, no meio das férias de verão, a Comissão Europeia em Bruxelas tomou uma decisão que aguardávamos há seis anos sobre a luta contra a mortalidade das abelhas. Qual a decisão? Bruxelas desistiu de atualizar os princípios de avaliação de risco dos pesticidas responsáveis pelas mortes de abelhas. Ela pediu à Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) que analisasse o assunto. Portanto a decisão foi adiada até o verão de 2O21, o que permitirá que sejam realizados novos “testes com abelhas”. Como as abelhas cumpriram esse novo prazo das autoridades europeias? Resignadas, diríamos.

A decisão de Bruxelas prolonga o infortúnio das abelhas (e o da Terra, uma vez que a polinização realizada por esses insetos é totalmente ligada à vegetação, aos campos, às florestas, aos jardins e, portanto, aos homens). Mas há trinta anos os homens assistem, perplexos à morte maciça de abelhas (lembro-me de ter escrito um artigo no Estado de S. Paulo). Desde então, o desastre foi confirmado. O desaparecimento de insetos, incluindo abelhas, está se acelerando. A revista científica PloS One informa que, desde 1989, a quantidade de insetos voadores caiu 75% em sessenta “áreas protegidas” na Alemanha.

A ciência se indagou se tal morte de insetos poderia ser explicada pelo clima. No entanto, essa hipótese foi rejeitada: nem calor, nem frio, nem iluminação, nem nitrogênio no solo, nada disso fornece uma explicação coerente para esse colapso da população de insetos. Portanto, não se trata de uma causa natural, mas uma causa externa, uma manipulação dos homens.

Pela lógica, a diminuição dos insetos voadores deve ter efeitos fatais para aves, cuja alimentação é parcialmente vinda desses insetos. De fato, em 2018, o CNRS e o Museu de História Natural de Paris semearam consternação ao anunciar que 30% da população de aves selvagens desapareceu na França em quinze anos (e encontramos os mesmos resultados em quase toda a Europa) Até os caminhantes, mochileiros, amantes, poetas, ficam impressionados com a escassez dos pássaros e seus cantos.

O ministro da Ecologia da França, o notável Nicolas Hulot, com o qual Macron havia obtido seu “álibi ecológico”, anunciara esse desastre em 2 de março de 2008 frente à Assembleia Nacional com as seguintes palavras: “Tenho vergonha”. Alguns meses depois, ele renunciou, deixando Macron, no domínio ecológico, entregue às suas habilidades e retórica.

Essa “vergonha” significa: foi provavelmente uma das muitas dificuldades que Nicolas Hulot encontrou à frente durante sua presença no ministério francês. Não há dúvida de que, no caso das abelhas, como no caso dos glifosatos, e em outras batalhas, Nicolas Hulot encontrou os mesmos silvicultores das finanças e trevas, os mesmos pelos quais Hulot, com sua ineficaz espada teve que voltar. Ele foi derrotado: os fabricantes de produtos mortais, que se contorciam como vermes, ou melhor, como escorpiões, montavam barricadas sempre que um de seus atraentes venenos corria o risco de ser denunciado pelos cientistas. E, como essas empresas poderosas, essas “hidras”, com dez mil braços, dispõem, na falta de moralidade, de enormes estoques de prata que sua química lhes dá, eles conseguem facilmente convocar batalhões de cientistas, pesquisadores, prontos para adiar indefinidamente as decisões drásticas que devem ser tomadas.

Foi o que aconteceu em Bruxelas: os países membros, camuflados por trás da Comissão, rejeitaram a decisão sobre os principais inseticidas neonicotinóides e, tanto pior se enquanto isso, as colônias se obstinassem em morrer, como elas têm o costume de fazer.  /Tradução de Claudia Bozzo

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