Distorções do tempo no embate do clima

Se a conferência fosse interpretada por uma ótica cronológica, e não geopolítica, talvez fosse mais fácil lidar com as dificuldades

Anand Giridharadas, The New York Times

23 Dezembro 2009 | 11h22

Imaginem que a 15ª Conferência do Clima, em Copenhague, encerrada no último sábado, não fosse um encontro entre nações. Imaginem uma reunião de delegados de muitas idades de uma única nação. As falhas geológicas não seriam Índia e China contra os países ricos do mundo, mas China 1800 contra China 1978 contra China 2100.

 

Seria uma negociação não entre diferentes terras, mas entre diferentes fatos históricos, diferentes níveis de “sobrevivencialismo”.

 

O encontro de Copenhague é uma negociação extremamente complexa entre países; as dificuldades enfrentadas por eles para chegar a uma ampla aprovação de um acordo global são imensas. Mas se a conferência fosse interpretada por uma ótica cronológica, e não geopolítica, talvez essas dificuldades pudessem ser mais bem focalizadas – como uma disputa entre idéias rivais de vida e obrigação que sociedades possuem em diferentes momentos de suas odisséias modernizadoras.

 

Sentadas de um lado da mesa de negociação estão as potências ocidentais na margem pós moderna da modernização. No lado oposto estão as nações em desenvolvimento que estão décadas, séculos até, atrás dos países ricos em termos de afluência, nutrição, alfabetização e urbanização; batalhando para se aproximar das outras, elas estão menos entusiasmadas em prejudicar o crescimento econômico para esfriar um planeta que está aquecendo.

 

Mas esperem. Dois países em desenvolvimento – Índia e China – também possuem, pelo tamanho, o status de grande potência. Nunca antes, talvez, houve duas nações tão poderosas em termos de renda agregada que fossem tão pobres em relação a outras num nível per capita. A China é a terceira nação mais rica no total, mas é mais pobre que 132 países em termos per capita; a Índia é a quinta mais rica no total, mas mais pobre que outras 166 considerando a renda per capita. Juntas, isso representa um poder de US$ 11,3 trilhões sendo gerido, dividindo-se a renda pela população, por uma mentalidade de US$ 4.500 por ano.

 

O resultado é que tanto a Índia como a China enfrentam uma enorme pressão para pensar como as grandes potências ocidentais de 2009 e, simultaneamente, pensar como aquelas grandes potências pensaram há cem anos, quando estavam muito mais concentradas no seu desenvolvimento econômico e muito menos interessadas em justiça global.

 

Em questões geopolíticas como a das mudanças climáticas, Índia e China são encorajadas a equilibrar seus deveres internos como países em desenvolvimento com suas responsabilidades externas como gigantes emergentes. Elas são conclamadas a dar um curto-circuito na História, a evitar táticas de crescimento que o Ocidente hoje vê como erros, assumir obrigações que países ricos assumiram somente quando se tornaram muito mais ricos.

 

Por vezes, elas resistem a essa pressão. Por vezes, abrandam com ela, como se viu nos esforços da China para tranqüilizar o mundo de que seu ambicioso programa de energia nuclear cumpre padrões de segurança sofisticados. E quando elas vendem tecnologia de ponta ou disputam para receber a Olimpíada, Índia e China querem que sua fase da história seja ignorada. Aí elas querem simplesmente “pular carniça”.

 

Essa pressão para seguir as regras globais – sejam elas fornecidas por conversações sobre o clima ou por pressões culturas mais sutis da televisão via satélite – podem provocar curiosos resultados. O sonho de “pular carniça” pode tentar países a se engajar num desenvolvimento kitsch, a imitar maneiras modernas sem construir estruturas para sustentá-las. Se cumprir as regras globais significa sacrificar o ecologismo pelo crescimento, isso envolve também concessões penosas em outras esferas.

 

Em países em desenvolvimento, uma nova visão globalizada (e essencialmente ocidental) da relação entre pais e filhos está chegando, na qual o propósito de cada geração é seguir seu próprio caminho, deixar os ancestrais com seus dispositivos, encontrar sua própria verdade.

 

Mas a ideia pode parecer de segunda mão. Ela vem de lugares cujas estruturas a sustentam: lugares com creches, previdência social, banheiros para deficientes. Ela chega a lugares sem esse suporte. Assim, os jovens se torturam com suas obrigações para com os idosos e os idosos definham, apanhados entre um mundo antigo que se foi e um novo que ainda não se estabeleceu.

 

Os líderes da Índia tentam lidar com isso criminalizando a negligência com os próprios pais. Valores globalizados também encorajam a liberdade sexual. A cultura do “ficar” chega a sociedades sem as instituições que a tornam segura e possível alhures: acesso fácil a contraceptivos, clínicas de aborto regulamentadas, pais tolerantes, policiais dispostos a investigar casos de estupro.

 

Essa pressão para ser global moderno e, contudo, simultaneamente, do próprio lugar é descrita em termos perfeitos por Seyran Ates, uma escritora alemã-turca cujo livro recente se intitula Islam Needs a Sexual Revolution (O Islã Precisa de uma Revolução Sexual). Nele, a autora detalha amaneira como muitas jovens muçulmanas, sem haver  derrubado o patriarcado, “pularam carniça” sobre ele. Muitas se engajam em sexo anal, ela contou à revista alemã DerSpiegel, para preservar o hímen e, com ele, a ilusão de virgindade.

 

Graças a esse “pular carniça”, a cultura global é cada vez mais simultânea na superfície. Mas há uma “falta de simultaneidade”, como Ates a coloca, na realidade subjacente. Essa miragem de simultaneidade pode iluminar o desafio que os Estados Unidos enfrentam no Afeganistão. A linguagem que políticos americanos usam para sua agenda ali é a linguagem que os americanos usam para eles próprios: o Afeganistão precisa de governança, um exército leal, a eliminação da corrupção, centralização.

 

Mas os críticos acusam os americanos de cometer um erro psicológico básico: “imagem especular”, ou seja, julgar os outros por onde se está e não por onde eles estão.

 

Os críticos dessa imagem especular nos lembram que os que agora recomendam a modernidade para o Afeganistão conquistaram lentamente a sua. Eles escravizaram, depois emanciparam; segregaram, depois integraram; regularam, depois desregularam. Eles travaram guerras religiosas e ideológicas, depois aprenderam, a duras penas, a não travá-las. O que eles não fizeram, os que percorreram antes esse caminho, foi copiar as respostas da contracapa dos livros.

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