Werther Santana
Geração Ecotrônicos, empresa que fica em Osasco Werther Santana

Geração Ecotrônicos, empresa que fica em Osasco Werther Santana

‘Direito de consertar’ ganha força na Europa e EUA, mas caminha lentamente no Brasil

Movimento é uma tentativa de tornar o consumo mais consciente e transparente, reduzindo o impacto ambiental

João Prata , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Geração Ecotrônicos, empresa que fica em Osasco Werther Santana

O "direito de consertar" é um movimento que tem ganhado força na Europa e nos Estados Unidos nos últimos anos, mas ainda caminha lentamente no Brasil. Sua intenção é oferecer dispositivos legais ao consumidor para ter acesso ao reparo e também ter mais informações sobre a vida útil do produto. É uma tentativa de tornar o consumo mais consciente e transparente, reduzindo o impacto ambiental.

O Brasil ainda carece de leis específicas por encontrar obstáculos semelhantes ao de outros países em desenvolvimento. "Existe uma questão cultural de descartar o que é velho e comprar o novo. Na Europa você vê uma pessoa usar o mesmo casaco até não poder mais. Aqui é diferente, há uma valorização do novo", afirmou Cristina Helena Pinto de Mello, economista da ESPM e pesquisadora de consumo e desenvolvimento econômico.

Outra dificuldade é que o brasileiro, por questões econômicas, costuma procurar o caminho mais curto e simples quando encontra defeito em um produto. Assim como em outros países latinos, existe um mercado informal de reparo muito forte, com assistências técnicas nem sempre licenciadas.

"De certa maneira, a informalidade inibe um movimento mais organizado que poderia contribuir para melhorar a informação sobre os produtos", afirmou Fernanda Iwasaka, analista de conteúdos e metodologias do Instituto Akatu, organização sem fins lucrativos que trabalha pelo consumo consciente.

Existe ainda uma cadeia produtiva que obriga o consumidor a trocar o produto, conhecida como obsolescência programada, um conceito antigo que já é criminalizado em alguns países europeus. Por exemplo, uma empresa cria um software novo que torna o produto mais lento ou que compromete seu uso e obriga a compra de um novo. "A obsolescência programada virou uma estratégia de algumas marcas para criarem seus próprios mercados. Isso acontece também no mercado de peças", diz Cristina.  

No Código de Defesa do Consumidor (CDC) existe apenas um item que trata do assunto, que determina a obrigatoriedade de serem disponibilizadas peças de reposição para o reparo de produtos por um período razoável, mesmo após o produto não estar mais disponível no mercado. No entanto, não há uma definição sobre o que é período razoável.

A França, em 2015, criou uma lei que combate a obsolescência programada, que pune empresas que criam um produto intencionalmente com vida útil reduzida a fim de elevar sua taxa de substituição. A medida obriga as empresas a colocar informações sobre a disponibilidade de peças de reposição e exibição da vida útil do produto.

Nos Estados Unidos, desde 2012, existe uma lei do setor automobilístico que obriga as empresas fornecerem peças e informações de reparos aos consumidores. Há pelo menos 20 Estados americanos com projetos de lei para adotar medidas relacionadas ao direito de consertar.

Um estudo do principal órgão de proteção ambiental da Alemanha, o Umweltbundesamt, mostrou que o primeiro serviço de vida útil da maioria de eletrodomésticos e eletroeletrônicos diminuiu nos últimos anos. A primeira vida útil é definida como o período em que um produto é usado pelo primeiro consumidor. Para grandes eletrodomésticos, como geladeira e máquina de lavar, a primeira vida útil declinou de 14,1 anos em 2004 para 13 anos em 2012/13. O estudo descobriu que uma parcela crescente de eletrodomésticos é substituída ou descartada antes de atingirem uma média de primeira vida útil de 5 anos.

Riscos ambientais

Uma regulamentação sobre o direito de consertar, com mais informações sobre a vida útil de um produto, gera economia financeira e menor impacto ambiental, pois diminuirá o uso de recursos naturais e também gerará menos lixo eletrônico. "É um componente importante na transição para uma economia mais circular em um momento que existe preocupação com a diminuição das emissões de gases por causa do aquecimento global", afirmou Iwasaka.

Um smartphone, por exemplo, possui cerca de 70 elementos químicos diferentes. Soma-se isso a notebooks, rádios, geladeiras, micro-ondas, baterias... Uma pesquisa de 2017 da ONU apontou que o Brasil é o sétimo maior produtor de lixo eletrônico no mundo. O País gera em média 1,5 milhão de toneladas por ano.

Segundo lei brasileira de 2009, a responsabilidade pela destinação final do lixo eletrônico "é solidária entre as empresas que produzam, comercializem ou importem produtos e componentes eletroeletrônicos". Ou seja, era para os produtores se responsabilizarem pelo descarte, mas pouca gente sabe disso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Iniciativas do mercado tentam diminuir impacto ambiental dos lixos eletrônicos

Empresas recolhem produtos quebrados, consertam e revendem, quando é possível, ou desmontam e vendem as peças para empresas que reciclam

João Prata, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 15h00

A cooperativa Geração Ecotrônicos nasceu para tentar solucionar o problema do descarte do lixo eletrônico. A instituição fica em Osasco e é responsável por recolher produtos quebrados. Eles consertam e revendem, quando é possível, ou desmontam e vendem as peças para empresas que reciclam.  

"O que mais vem é computador. Muita CPU. Antes da pandemia chegava até 30 por mês. Às vezes aparece rádio, liquidificador, geladeira. A gente criou até um pequeno museu de antiguidades", conta o gestor ambiental Jaquiel Oliveira, coordenador da cooperativa.

A Ecotrônicos possui parceiros como o Colégio Ser e a casa de construção Village Home Center. Eles atendem também a demandas pelas redes sociais ou pelo site. Por causa da pandemia, o serviço caiu bastante nos últimos meses e a cooperativa tem encontrado dificuldade para buscar produtos em regiões muito distantes. "Dependendo do lugar, hoje, não está compensando, porque o que a gente vai ganhar com a venda é menor do que o gasto com transporte", diz Oliveira. Sua expectativa até o final do ano é retomar o volume de trabalho de antes do coronavírus, assim conseguir mais parceiros e aumentar os pontos de coleta.

A Trocafone também nasceu para atender essa demanda de mercado e trabalha com o recomércio de smartphones e tablets seminovos. Já são mais de 1,5 milhão de smartphones usados que foram vendidos desde sua fundação, em 2014. "No início tivemos muita dificuldade para conseguir peças originais, as grandes empresas abriam mão do reparo. Só depois que crescemos, que viramos assistência autorizada para Apple e Samsung, que tivemos mais acesso ao reparo", conta Guille Freire, CEO e fundador da Trocafone.

No Brasil, segundo Freire, 50 milhões de pessoas compram smartphone todos os anos. E 100 milhões de pessoas ainda não tem esse tipo de aparelho. "Quem compra, muitas vezes, guarda o telefone antigo. Queremos integrar esses dois grupos e fazer desse mercado, que ainda é super informal, mais eficiente."

Tudo o que sabemos sobre:
computadorlixosmartphone

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Venda de produtos usados evita o aquecimento global

Estudo revela que transações feitas em 2019 pouparam a emissão de 6 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera

João Prata, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 15h00

O CEO da OLX Brasil, Andries Oudshoorn, acredita que o brasileiro está mudando o comportamento em relação aos itens usados. A plataforma de compra e venda de produtos está há dez anos no País e vê uma transformação na mentalidade da população mais por motivos econômicos do que pela preocupação ambiental.

"Não fazia parte da cultura brasileira comprar produtos usados quando viemos para cá há dez anos", conta o holandês que já fala português fluente - com sotaque, é verdade. "Até então somente 10% dos brasileiros tinham vendido algo online. Agora já são 50%. Na cultura latina havia certo preconceito com produtos usados. No Brasil existe um maior motivador econômico, mas está mudando, tomando consciência sobre a sustentabilidade. Vejo na Europa que não é pelo dinheiro, mais pela satisfação", acrescentou.

Independentemente da motivação, o fato é que a compra e venda de produtos usados está ajudando o meio ambiente. Estudo da Second Hand Effect, encomendado pela OLX Brasil, divulgado em julho, revelou que as transações feitas em 2019, por meio da plataforma, pouparam a emissão de 6 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera.

O volume representa o mesmo que parar completamente o tráfego de veículos na cidade do Rio de Janeiro por 14 meses ou interromper 5,4 milhões de voos de ida e volta entre a capital fluminense e Nova Iorque, nos Estados Unidos.

O estudo leva em consideração estatísticas de vendas por meio da OLX Brasil, pesquisas com usuários, informações sobre o consumo de energia da operação da empresa nos escritórios do Rio de Janeiro e de São Paulo, o consumo dos servidores e a quantidade de viagens a trabalho de carro e avião realizadas pelos funcionários.

O CEO da OLX acha que o Brasil precisa dar maior importância para o movimento de consertar. "Poderia ajudar muito ter produtos desenhados com vida útil prolongada. A gente está focado mais no comportamento do consumidor. Na OLX há muitos casos de a pessoa comprar o produto quebrado para consertar."

Apesar da pandemia, a venda de usados está em expansão no Brasil. Oudshoorn espera nos próximos anos conquistar a outra metade da população que ainda não faz vendas online. Para isso, a empresa aposta em um novo serviço onde as pessoas não precisam mais se encontrar fisicamente. É tudo realizado dentro da plataforma, com a possibilidade de pagamento parcelado, garantia de só debitar após a confirmação da chegada do produto.

Tudo o que sabemos sobre:
OLXatmosfera terrestremeio ambiente

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.