Felipe Rau/Estadão - 21/03/2022
Felipe Rau/Estadão - 21/03/2022

Dia Mundial da Água: Unesco alerta para uso sustentável de águas subterrâneas

Órgão da ONU lança relatório destacando necessidade de proteção do recurso natural para superar crise hídrica

Emilio Sant'anna, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2022 | 15h00

Relatório da Unesco lançado nesta terça-feira, 22, Dia Mundial da Água destaca o uso sustentável da água subterrânea, que representa 99% de todo o recurso disponível na Terra, como um dos caminhos para que o mundo supere a crise hídrica. Eventos extremos como secas mais severas e prolongadas tendem a se tornar cada vez mais comuns em diversas regiões do mundo, o Nordeste e o Centro-Oeste do Brasil entre elas, de acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da ONU.  

As águas subterrâneas são resultado da infiltração da chuva no solo formando lençóis freáticos e aquíferos, como o Guarani, que se estende do Paraguai, Uruguai e Argentina a boa parte das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil. São mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados e reservas estimadas de quase 40 mil quilômetros cúbicos de água. Esse verdadeiro mar embaixo da terra ainda fica atrás de outro aquífero em território nacional, o  Sistema Aquífero Grande Amazônia, com mais de 1,3 milhão de km² de extensão e cerca de 162 mil km³ de reservas.

Segundo o Relatório Mundial da ONU sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2022, com mais investimentos em conhecimento, infraestrutura e capacitação de profissionais, as reservas subterrâneas podem ser catalisadoras do crescimento econômico em todo o mundo. Hoje, essas fontes do recurso fornecem metade do volume da água captada para uso doméstico pela população mundial e cerca de 25% de toda a água captada para irrigação, abastecendo 38% das terras irrigadas do mundo. 

Entretanto, diz a Unesco, apesar  da enorme importância, muitas vezes esse recurso natural é mal compreendido e, consequentemente, desvalorizado, mal administrado e até mesmo super-explorado. “No contexto da crescente escassez de água em muitas partes do mundo, o vasto potencial da água subterrânea e a necessidade de administrá-la com cuidado não podem mais ser negligenciados”, afirma o relatório apresentado nesta terça na cerimônia de abertura do 9º Fórum Mundial da Água, em Dacar, no Senegal.

A projeção do órgão da ONU é que o uso da água irá crescer em cerca de 1% ao ano nos próximos 30 anos. Nesse contexto, é esperado que a dependência dos reservatórios subterrâneos aumente à medida que a disponibilidade de água superficial se torne cada vez menor devido aos efeitos das mudanças climáticas.

“A tendência é aumentar essa captação, principalmente nos países emergentes e em desenvolvimento cujas economias estão se expandindo, as sociedades estão consumindo mais e requerendo mais recurso, enquanto nos países desenvolvidos o uso atingiu uma tendência de estabilização”, diz Glauco Kimura, Oficial de Projetos de Ciências Naturais da Unesco no Brasil.     

Alguns de seus usos futuros são a agricultura irrigada, a agropecuária e outras atividades agrícolas, incluindo o processamento de alimentos. “A fim de atender às demandas globais de água e agricultura até 2050, incluindo um aumento estimado de 50% da demanda por alimentos, rações e biocombustíveis em relação aos níveis de 2012, é de vital importância aumentar a produtividade agrícola por meio da intensificação sustentável da captação de águas subterrâneas, e ao mesmo tempo reduzir as pegadas hídricas e ambientaisda produção agrícola”, afirma o relatório.

“É fundamental aumentar a produtividade agrícola por meio da intensificação sustentável da captação de águas subterrâneas. A contribuição econômica desse recurso na agricultura foi estimada em até U$ 230 bilhões por ano no mundo”, diz o Oficial de Projetos de Ciências Naturais da Unesco no Brasil.

O documento, no entanto, afirma que a poluição agrícola e as leis brandas são ameaças a esse processo de transição. “A agricultura supera a contaminação de assentamentos humanos e de indústrias como o principal fator na degradação das águas interiores e costeiras”, diz a Unesco. O nitrato, proveniente de fertilizantes químicos e orgânicos, é o contaminante  predominante nas águas subterrâneas em todo o mundo. Os inseticidas, herbicidas e fungicidas, usados ou descartados de forma indevida, podem poluir as águas subterrâneas com substâncias causadoras de câncer e outros contaminantes.

Ainda que esteja atrás das atividades agropecuárias, os assentamentos urbanos e as indústrias também são ameaças a essas reservas. Num cenário em que a estimativa é de que quase 50% da população urbana mundial seja abastecida por fontes de água subterrâneas e atividades de manufatura, mineração, petróleo e gás, eletricidade, engenharia e construção têm alta dependência dessa fonte do recurso, consequências como a poluição por coliformes fecais e o esgotamento das reservas ameaçam a utilização futura racional do recurso.

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