Paulo Giandalia / AE
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Despoluindo o espírito

Frei Betto conta o que faz para preservar o meio ambiente

Karina Ninni, O Estado de S. Paulo

29 Junho 2011 | 00h06

O frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, de 66 anos, nasceu em Belo Horizonte e cresceu entre montanhas, como dizem as orelhas de algumas de suas obras infantis. Autor de 51 livros (ganhou dois prêmios Jabuti), é teólogo, jornalista, filósofo e antropólogo. Assessor do ex-presidente Lula, ajudou na coordenação do Programa Fome Zero. Com seu histórico de contestador, diz que a questão ambiental é fundamental para a mudança do modelo de sociedade, que dá prioridade à acumulação e a concentração da riqueza.

Frei Betto usa termos pouco comuns no discurso ambiental, como ecobionomia, para explicar sua concepção de harmonia entre ambiente, homem e espiritualidade. “A ideia é aprender a lidar com as poluições espirituais, como ira, mágoa, desejo de vingança, ambições desmedidas... É muito importante que cada um saiba despoluir sua subjetividade e sua consciência”, diz, para em seguida enumerar iniciativas nessa direção, como superar sentimentos negativos, evitar emoções deletérias, cultivar amizades e usufruir de espaços dedicados à meditação e à oração. “Ajudam a melhorar a qualidade de vida.”

No livro A Arte de Semear Estrelas, Frei Betto propõe que o homem preserve o corpo e seus órgãos vitais, no que chama de ecobiologia interior. “Não tomo refrigerante e cuido da alimentação, para não sobrecarregar meu sistema digestório. Quando almoço, não janto. Se vou jantar, não almoço”, diz, citando a máxima de Gandhi, que sugeria “mastigar o sólido como se fosse líquido e o líquido como se fosse sólido.”

Para o teólogo, ecologia é uma palavra equivocada. “Eco significa casa. Logia, conhecimento. Mas não se trata apenas de conhecer a casa. É preciso cuidar da casa. Gosto de ecobionomia, que seria administrar a vida na casa. Mas sei que o termo nunca vai pegar.”

Convento sustentável. Para o frade, a preocupação com as gerações futuras deve se traduzir no equilíbrio entre o consumo e a preservação. “Não conheço ninguém que tome banho mais rápido que eu. Tenho mania de andar com sacola na mão e raramente uso sacolas plásticas. Acho que toda cidade deveria bani-la, como fez BH.”

O convento onde Frei Betto vive, em Perdizes, zona oeste de São Paulo, tem coleta de lixo reciclável. Restos de frutas, verduras e legumes são aproveitados na compostagem da horta de onde vêm as verduras consumidas no local.

Lá, também há preocupação com o gasto de energia elétrica. “A TV e a geladeira são coletivas. Só tenho um rádio de pilha, do tamanho de um celular, que levo para todos os cantos.”

O ESPECIALISTA

Para a nutricionista Maria Cristina Boog, é saudável não “sobrecarregar o sistema digestório”, como diz Frei Betto, mas com bom senso. Pular refeições, por exemplo, faz baixar a glicemia (taxa de açúcar) do sangue, reduzindo a concentração e os reflexos. “Quem não tem tempo para o café da manhã deve acordar 10 minutos mais cedo.”

Como o frade, Maria Cristina acha bom evitar refrigerantes – pouco nutritivos, eles vêm em garrafas PET, poluentes. Nutrição à parte, concorda quanto à necessidade de fortalecer o lado espiritual. “É fundamental para resistir a apelos consumistas.”

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