Gabriela Biló/Estadão - 27/8/2019
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Desmate na Amazônia tem queda de 28% em julho, a primeira em 14 meses

Apesar disso, alertas do sistema de monitoramento do Inpe devem fechar os 12 meses com mais de 9.170 km², ante 6.844 km² observados entre agosto de 2018 e julho de 2019, alta de 34%; vice-presidente adiantou dado em rede social

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 17h46
Atualizado 07 de agosto de 2020 | 10h40

Houve redução de 28% nos alertas de desmatamento em julho, na comparação com o mesmo mês de 2019, após 14 meses sucessivos de alta. Os números serão anunciados hoje pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mas foram em parte adiantados pelo vice-presidente Hamilton Mourão nas redes sociais. Apesar disso, os alertas do Deter devem fechar em mais de 9.170 km² para o período de agosto de 2019 a julho de 2020, ante 6.844 km². O valor fechado dos 12 meses, calculados sempre de agosto a julho, deve indicar avanço de 34% no desmate, o maior desde 2016.

O cálculo foi feito pelo Estadão com base em um gráfico que Mourão, que coordena o Conselho da Amazônia, publicou em sua conta do Twitter na quarta-feira, 5. Responsável pela Operação Verde Brasil 2, que combate desde maio crimes ambientais na Amazônia Legal, ele destacou o primeiro número positivo de 2020. Desde o ano passado, o governo é cobrado internacionalmente para reduzir o desmatamento.

Por 14 meses consecutivos – desde maio do ano passado –, os alertas feitos pelo Deter foram maiores do que os registrados nos mesmos meses do ano anterior. Julho passado, segundo Mourão, foi o primeiro a trazer alguma queda. Segundo o gráfico divulgado pelo vice-presidente, o mês teve alertas de desmatamento de 1.622,64 km², ante 2.255,33 km² em julho de 2019. “A diminuição do desmatamento no #BiomaAmazônia ficou caracterizado pelo início da inversão de tendência como mostra o gráfico abaixo, revelando resultados positivos da #OperaçãoVerdeBrasil2”, escreveu Mourão no post.

Apesar da melhora, trata-se do segundo pior julho da série histórica do Deter, de cinco anos. Julho do ano passado teve o pior dos registros, considerado catastrófico por especialistas – 200% acima do pior valor até então (julho de 2016). 

Procurado pela reportagem, o Inpe não confirmou nem negou os dados e disse que mantém o calendário de divulgação nesta sexta. Mas explicou que órgãos de fiscalização, como o Ibama, o ICMBio e as secretarias estaduais, além de dirigentes, têm acesso diário aos dados para ajudar na fiscalização.

Como ocorre o monitoramento

O Deter é um sistema rápido de monitoramento da Amazônia por satélite, com função primordial de alertar os órgãos ambientais onde um desmatamento pode estar em curso, a fim de ser contido. Mas sua visibilidade pode ser afetada se houver muitas nuvens no período. Por isso, ele pode não ver coisas em um dado mês que vão aparecer somente no seguinte.

O próprio Inpe não costuma recomendar que seja feita uma comparação mês a mês, mas por períodos mais longos. Além disso, o intervalo de agosto de um ano a julho do seguinte é o chamado ano de referência para os dados de desmatamento. É nesse intervalo que será medida a taxa anual e oficial da perda da Floresta Amazônica por outro sistema do Inpe, o Prodes.

O Deter, porém, funciona como um bom indicativo do que o Prodes vai mostrar depois. No ano passado, quando o Deter relatou 6.844 km² de alertas, o Prodes cravou que foram desmatados entre agosto de 2018 e julho de 2019 10.129 km², um aumento de 34% em relação aos 12 meses anteriores.

Foi a maior taxa de devastação da Amazônia desde 2008. Agora o Deter deve fechar julho com mais de 9 mil km² para os últimos 12 meses, o que indica que o Prodes também deve vir ainda mais alto quando for divulgado, normalmente em novembro.

Medidas emergenciais

O pesquisador Raoni Rajão, da UFMG, que recentemente rastreou quanto do desmatamento ilegal em propriedades privadas na Amazônia pode estar ligado a soja e gado exportados, afirmou que, apesar de o número de julho ainda ser muito alto, pode representar “uma quebra de tendência do aumento constante” dos últimos meses. “Mas isso ainda não significa que está sob controle. Não é uma vitória. Uma pequena batalha foi ganha, mas tem agora de aprofundar as ações, engajar de maneira mais séria.”

Para outros especialistas em Amazônia, a situação preocupa. “Confirmando esses números, o Inpe estará mostrando que o desmatamento está fora de controle, que é o que vemos todos os dias”, afirma Márcio Astrini, secretário executivo da rede Observatório do Clima. “É uma situação muito complicada, porque em outros momentos de grandes crises na Amazônia, os governos procuraram agir. Na década de 1990, o governo Fernando Henrique aumentou o tamanho da Reserva Legal (área de propriedades privadas que tem de ser protegida) para 80% na Amazônia. Nos anos 2000, foi criado o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm).”

Na quinta-feira, 6, um grupo de 62 organizações da sociedade civil, do qual o Observatório do Clima faz parte, enviou uma carta para o Congresso brasileiro recomendando cinco medidas emergenciais para conter a crise aguda da Amazônia. 

O grupo sugeriu que seja adotada uma moratória de cinco anos para o desmatamento na Amazônia; o endurecimento das penas a crimes ambientais; a retomada imediata do PPCDAm; a demarcação de terras indígenas, quilombolas e criação, regularização e proteção de Unidades de Conservação; além da reestruturação do Ibama, do ICMBio e da Funai.

Mourão

A vice-presidência foi procurada pela reportagem para fornecer os dados completos e para comentar a alta nos 12 meses, mas não se manifestou até 20 horas de quinta.

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