Nacho Doce/Reuters
Nacho Doce/Reuters

Desmate de florestas libera 20% mais CO2 do que se pensava

Estudo mostra que emissões foram subestimadas porque áreas de borda de fragmentos liberam mais carbono que o calculado por IPCC

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

07 Outubro 2014 | 15h19

SÃO PAULO - O desmatamento de florestas tropicais tem emitido pelo menos 20% mais dióxido de carbono do que se acreditava anteriormente, de acordo com um novo estudo liderado por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP). O trabalho, publicado na revista Nature Communications, foi feito em parceria com cientistas do Hemholtz Centre for Environmental Research (UFZ), da Alemanha, e da Universidade de Toronto (UofT), no Canadá. 

O estudo  abordou todas as florestas tropicais do planeta, com foco especial na Mata Atlântica e na Amazônia. A principal conclusão é que a perda de biomassa nas bordas dos fragmentos não vinha sendo calculada, levando a uma subavaliação dos efeitos da degradação florestal. "Quando consideramos os efeitos da fragmentação e das bordas, estimamos que as emissões de dióxido de carbono são bem maiores do que se previa antes", disse um dos autores, Milton Ribeiro, do Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação da Unesp em Rio Claro. 

Segundo os autores, o estudo é o primeiro a apresentar uma estimativa global para as emissões de carbono em decorrência dos efeitos da fragmentação florestal. Para calcular as emissões adicionais de carbono nas bordas florestais, os cientistas desenvolveram uma nova abordagem que integra os resultados de sensoriamento remoto, ecologia de paisagens e modelagem de dinâmica florestal. 

De acordo com os cientistas, nas áreas de borda as condições microclimáticas se alteram: a incidência solar é maior, enquanto as temperaturas aumentam e flutuam mais, acentuando os ventos. Isso resulta em aumento do estresse das árvores, aumentando a mortalidade. As grandes árvores são as mais afetadas. “A mortalidade das árvores em condições de borda aumenta muito, então essas áreas não armazenam tanto carbono quanto as regiões mais centrais da floresta”, comentou Sandro Pütz, pesquisador da UFZ que liderou o estudo. 

A modelagem da perda de carbono levou em consideração o tamanho dos remanescentes. "Fragmentos menores apresentam maior proporção de áreas de borda, quando comparados aos fragmentos maiores e as áreas de matas contínuas. Ao usar o tamanho dos fragmentos para prever a perda de carbono, estamos apresentando estimativas mais precisas", disse Ribeiro. Segundo os pesquisadores, as florestas tropicais - a Mata Atlântica e a Amazônia em especial - são importantes para fornecer diversos serviços ambientais e um dos mais relevantes é a manutenção dos estoques de carbono, por meio da biomassa. 

Os pesquisadores utilizaram imagens de satélite para analisar como as florestas tropicais estão espacialmente distribuídas e quais são os impactos dessa distribuição nos estoques de carbono. No caso da Mata Atlântica, que é muito fragmentada, foram utilizadas imagens de 30 metros de resolução. Com isso, foi possível mapear fragmentos de tamanhos bastante reduzidos. Na Amazônia foram utilizadas imagens de 250 metros de resolução espacial. 

De acordo com o coautor Alexandre Camargo Martensen, pesquisador brasileiro da Universidade de Toronto, mais de 90% por cento dos remanescentes florestais no Brasil são menores que 100 hectares. "Aproximadamente 45% do que sobrou da Mata Atlântica está a menos de 100 m das bordas, o que compromete grandemente a sua função como reservatório de carbono", disse.  O artigo aponta que mais de 68 milhões de toneladas de carbono deixam de ser estocadas todos os anos exatamente nessas áreas apenas na Mata Atlântica. “Essa é uma enorme perda para a Mata Atlântica, que está diretamente relacionada ao seu elevado estado de degradação”, disse Pütz. 

Por outro lado, na Amazônia brasileira, as áreas de borda correspondem a somente 7% de toda a área florestal, acarretando uma emissão adicional de 600 milhões de toneladas em 10 anos, motivada apenas pela fragmentação florestal, sem considerar as emissões pela conversão da floresta em pastagens e campos agrícolas. 

Além disso, o estudo aponta que a porcentagem de perda de carbono diminui conforme aumenta o tamanho do remanescente florestal. Somente em fragmentos com área acima de 10 mil hectares a porcentagem de perda pela fragmentação diminui para quase zero, dependendo do nível de conservação do interior desses fragmentos.

Um quarto das emissões mundiais tem origem no desmatamento. Segundo os pesquisadores, como as emissões podem ser até 20% maiores do que o atualmente calculado, devido aos efeitos da fragmentação florestal, é possível que as emissões sejam subestimadas em muitas das avaliações científicas existentes. “Esse aspecto não tem sido incluído nos cálculos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), e consideramos que as emissões de carbono devido à fragmentação florestal devam ser urgentemente incluídas nas estimativas oficiais", disse Putz.

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