Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Desmatamento no Cerrado recua, mas em 7 anos é 60% maior que perda da Amazônia

A devastação no bioma por onde mais se expande o agronegócio no País foi 80.114 km² entre 2010 e 2017; nos últimos dois anos taxa caiu em relação aos valores de 2015

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2018 | 11h36

O desmatamento no Cerrado apresentou uma queda de 38% no ano passado, na comparação com 2015, até então o último dado disponível, mas o bioma perdeu em 2016 e 2017 mais de 14 mil km² – quase a mesma área devastada na Amazônia no período, ou mais de 9 vezes a área da cidade de São Paulo. De 2010 para cá, o avanço da motosserra sobre a savana foi 60% maior que sobre a floresta. No total, estima-se que metade da vegetação já desapareceu.

Os dados, divulgados na manhã desta quinta-feira, 21, pelo Ministério do Meio Ambiente, fazem parte do chamado Prodes do Cerrado, monitoramento por satélite feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que em 2016 começou a ser feito anualmente nos mesmos moldes do que já ocorre para a Amazônia. 

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O levantamento também traz pela primeira vez dados da série histórica, a partir de 2010, com valores refinados e atualizados. E revela que a devastação no bioma por onde mais se expande o agronegócio no País foi maior do que o estimado. Para 2015, por exemplo, a estimativa preliminar divulgada no ano passado apontava uma perda de vegetação de 9.483 km². Agora se vê que foram cortados 11.881 km² de vegetação, uma taxa 25% maior.

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Entre 2010 e 2017 o Cerrado perdeu 80.114 km². No mesmo período, a Amazônia viu sumirem 49.939 km² de floresta. A diferença é mais gritante até 2015 (veja gráfico abaixo). Nos últimos dois anos os dois biomas tiveram perda de área similar.

“Considerando que a área do Cerrado é metade da Amazônia e tem 49,9% de remanescentes, enquanto a Amazônia tem 85%, a savana consolida-se como bioma mais ameaçado do Brasil atualmente”, comentou, por meio de nota, o Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam).

Para o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, os acordos comerciais e moratórias (como da soja e da pecuária) que ajudaram a conter a perda da Amazônia podem ter acabado vazando para o Cerrado. 

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O governo divulgou os números ressaltando as reduções mais recentes nas taxas. Se 2014 e 2015 tiveram, respectivamente, uma perda de 10.761 km² e 11.881 km²; em 2016 e 2017 o desmatamento caiu para 6.777 km² e 7.408km², redução de 43% e 38% em relação a valor de 2015.

Em coletiva à imprensa para a divulgação dos dados, Claudio Almeida, pesquisador do Inpe responsável pelo levantamento, afirmou que é mais ao norte do bioma – em especial no chamado Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), por onde avança a fronteira agrícola –, onde se concentrou o desmatamento nos últimos dois anos. No período, os quatro Estados responderam por 61,9% da perda.

Jair Schmitt, diretor do Departamento de Florestas e Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, alerta, porém, que não é só o Matopiba o problema. “No ano passado, 11,3% da perda ocorreu em Goiás, 16,9% no Mato Grosso. Isso é fora do Matopiba, o que mostra que o desmatamento é pulverizado, não está concentrado.”

Sobre a comparação com a Amazônia, o diretor lembra que o desmatamento no Cerrado é historicamente mais antigo. “O processo de ocupação é muito anterior que o da Amazônia. Por isso o quantitativo é alto. Perder mais de 14 mil km² em dois anos não é motivo de euforia, não nos deixa confortáveis, mas é uma queda importante considerando esse histórico”, diz.

Meta climática

Duarte lembrou a importância do bioma para a produção de água, a conservação da biodiversidade e a redução da emissão dos gases de efeito estufa que causam mudança no clima. “Portanto, combater o desmatamento desse bioma é estratégico. E é um grande salto que estamos dando na política de combate ao desmatamento”, disse em relação ao fato de que a partir de agora os dados do monitoramento estarão disponíveis em base diária.

O Cerrado terá um sistema de alertas semelhante ao Deter para a Amazônia, que envia informações sobre onde pode estar ocorrendo algum desmatamento para orientar a fiscalização a agir de modo mais rápido. 

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O governo destacou que, com esses números, o Brasil já alcançou uma meta estabelecida pela Política Nacional sobre Mudança do Clima, de 2009, de redução de 40% do desmatamento do Cerrado até 2020, em relação ao desmatamento médio observado entre 1999 a 2008. Os dados de 2017 apontam que já houve uma redução de 53%.

“Esses números são expressivos, mas não representam conformismo em relação ao que estamos fazendo. É um indicativo de que precisamos continuar com o que estamos fazendo e ampliando ainda mais as nossas ações para continuar ampliando a redução de desmatamento no Cerrado”, complementou Duarte.

Segundo ele, a próxima etapa agora do programa de combate ao desmatamento do Cerrado prevê a intensificação dos diálogos com o setor produtivo, em especial com dois setores – a cadeia da carne e a da soja. “Estamos dialogando nos moldes do diálogo já bastante avançado há anos na Amazônia.”

Também devem ser anunciados nas próximas semanas o lançamento de recursos financeiros para auxiliar na recuperação da vegetação de áreas desmatadas e uma força-tarefa entre Ministério Público, Ibama e ICMBio de ações civis públicas contra desmatadores ilegais.

Durante o evento o governo não anunciou quanto do desmatamento registrado ocorreu de modo ilegal. Pelo Código Florestal, proprietários rurais podem desmatar até 80% da vegetação de suas propriedades (65% se elas estão na Amazônia Legal). Mas Schmitt estima que pelo menos metade deve ter alguma autorização atualmente.

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