Ricardo Moraes / Reuters
Ricardo Moraes / Reuters

Desmatamento na Amazônia em junho é maior em 5 anos, apesar de ação militar e pressão externa

Alertas do Inpe indicam a perda de 1.034,4 km² no mês de junho, alta de 10,65% em relação a junho do ano passado, quando os alertas apontaram desmate de 934,81 km². É o mês de junho com maior devastação dos últimos cinco anos

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 09h06
Atualizado 10 de julho de 2020 | 21h29

SÃO PAULO - O desmatamento da Amazônia manteve o ritmo de alta no mês de junho, mesmo com uma ação de militares na região desde maio e com a pressão que vem sendo feita por investidores estrangeiros para que o governo controle o problema.

Alertas feitos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam a perda de 1.034,4 km² no mês de junho, alta de 10,65% em relação a junho do ano passado, quando os alertas apontaram desmate de 934,81 km². Em apenas um mês, foram derrubados na Amazônia o equivalente à área da cidade de Belém (Pará).

É o mês de junho com maior devastação dos últimos cinco anos. Já são 14 meses consecutivos de alta no corte da floresta em relação aos mesmos meses do ano anterior. Em oito desses meses, as taxas bateram os recordes do registro desde 2015. No acumulado desde agosto (quando se inicia o calendário anual para fins de detecção do que ocorre na floresta), o Deter indica a devastação de 7.566 km², ante 4.589 km² no período de agosto de 2018 a junho de 2019. O aumento para esse período é de 65%.

O valor até o momento já é maior do que o acumulado de todos os alertas dos 12 meses entre agosto de 2018 e julho de 2019: 6.844 km². Somente nos primeiros seis meses deste ano, foram mais de 3 mil km² de florestas perdidos, o equivalente a duas vezes a área da cidade de São Paulo.

A Amazônia está na estação seca, justamente quando o desmatamento se intensifica. No início de maio, o presidente Jair Bolsonaro decretou uma nova Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para atuar na região na chamada Operação Verde Brasil 2. Fiscais do Ibama foram subordinados aos militares na hora de decidir as ações. Foi previsto o investimento de R$ 60 milhões, mas como revelou o Estadão, apenas 0,7% disso já foi usado.

Nesta quinta-feita, 9, o vice-presidente Hamilton Mourão, que coordena o Conselho da Amazônia e também a Operação Verde Brasil 2, liderou uma reunião de ministros com investidores estrangeiros a fim de tentar melhorar a imagem do País no exterior, que vem sendo cobrando para reduzir a destruição da Amazônia.

Ele procurou retirar qualquer responsabilidade do governo sobre o avanço do desmatamento e declarou que as críticas internacionais sobre a derrubada da floresta no País refletem interesses comerciais e disputa geopolítica, por causa da força do Brasil no agronegócio.

Mourão não explicou, porém, por que, apesar de os militares estarem atuando na região, o desmatamento continua subindo. As queimadas também estão em alta. Em junho, o número de focos foi o mais alto para o mês desde 2007. Nesta sexta, em entrevista à coluna de Lauro Jardim, do Globo, Mourão minimizou os dados: "Só no ano que vem, quando vai passar o satélite de novo, vamos poder comprovar que nossos esforços para reduzir o desmatamento surtiram efeito. Até lá, é conversa de bêbado. Eles dizendo uma coisa e nós argumentamos outra."

O vice-presidente demonstra desconhecimento sobre como funciona o monitoramento da região. Os satélites usados pelo sistema Deter fazem a varredura da região constantemente e enviam todos os dias para o Ibama dados sobre onde estão ocorrendo desmates a fim de orientar a fiscalização em campo. O que os dados mostram está acontecendo agora.

O Estadão também vem questionando desde a semana passada o Ministério da Defesa e desde esta quinta a Vice-Presidência sobre o motivo para as altas consecutivas, mas ainda não obteve resposta. O ministério indicou, somente, resultados materiais da operação. Em nota enviada na semana passada, disse que foram apreendidos 25 mil m³ de madeira, 156 veículos, 180 embarcações e que houve o embargo de 31.880 hectares.

"Foram efetuadas 146 prisões, apreensão de 372 kg de drogas; aplicação de 1.026 termos de infração (R$ R$ 213.013.211,21 em multas); e 11.859 patrulhas navais e terrestres, vistorias e revistas. Militares e integrantes de agências ainda inspecionaram 73 madeireiras, apreenderam 9.452 litros de combustível, 70 maquinários de mineração e 55 tratores. Também foram inutilizados 27 tratores, 25 motores de garimpo e 10 balsas", disse o ministério.

Relatos de campo

Diversos fiscais do Ibama ouvidos pelo Estadão em condição de anonimato revelam, no entanto, que faltam planejamento para as ações em campo. Eles relatam que em muitas situações, somente depois de já estarem há alguns dias na região, que eram decididos os locais onde iriam atuar. Segundo eles,  os especialistas em fiscalização, principalmente em técnicas de geolocalização e de inteligência, não têm sido consultados.

"É como se colocassem o craque do time na reserva numa final após marcar 3 gols na semifinal. O Exército já trabalhou em parceria com o Ibama diversas vezes, mas essa relação em que eles definem prioridades, áreas de atuação é algo inédito. O Exército tem muitos homens para executar e obedecer, mas estão longe de ter o mesmo treinamento. Os fiscais são biólogos, engenheiros florestais, agrônomos, geógrafos, engenheiros ambientais, muitos com mestrado e doutorado na área ambiental, com um conhecimento gigantesco dos biomas e suas especificidades, não militares que, teoricamente, são formados para uma guerra", disse um deles. 

"O Ibama tem um centro especializado em sensoriamento remoto, tem um canal de comunicação estabelecido com o Inpe, tem setores de inteligência e de denúncias que coletam informações diariamente, sistemas de controle de produção e comércio de madeira, trabalha há 30 anos na floresta no combate à ilícitos e reúne todo ano os fiscais para planejar o combate do próximo ano (o PNAPA – Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental). Todas operações do Ibama levam em consideração esses fatores, elencando as regiões onde o desmatamento está ocorrendo agora e os alvos identificados, priorizando eficácia e a eficiência. Um fiscal sai de seu escritório e, literalmente, atravessa o Brasil, com objetivos determinados e em campo só são feitas pequenas adaptações. Na GLO nada disso é levado em consideração", afirmou outro fiscal.

"Estão trocando o pneu com o carro em movimento. Existe um esforço em articular a troca de informações, mas algo sem planejamento e desorganizado, pois a movimentação só foi feita após o decreto. Temos homens no campo esperando instruções e 'voos de reconhecimento' para encontrar algo, um gasto absurdo. Ao mesmo tempo, usam os dados positivos das operações comandadas pelo Ibama (dentro do planejamento da instituição) para inflar os números da caríssima GLO, como já foi feito no combate de incêndios do ano passado. O importante para a GLO é o controle da narrativa, mesmo que os fatos mostrem o contrário", continuou. Reportagem do Estadão confirmou que dados da Operação Verde Brasil 2 são inflados

Os fiscais contam que houve casos em que se optou por embargar madeireiras, em vez de combater o desmatamento em curso. A chegada dos militares sobrevoando as regiões também já dão a pista para os criminosos fugirem. "Madereira seria interessante fazer, mas o Exército sobrevoou a cidade uma semana antes das ações. Quando chegamos, as toras estavam espalhadas nas vizinhanças. O Ibama não usa helicóptero para operações surpresas há muito tempo. Não é efetivo", disse um terceiro fiscal.

“O que a gente escuta é que a presença dos militares está mais gerando confusão do que ajudando no combate. Tem toda uma questão de inteligência de monitoramento, de comando e controle, que são os órgãos ambientais que fazem. Quando a liderança passa para o Exército, isso está gerando uma inoperância, uma falta de efetividade, que refletem nos números de desmatamento e queimadas”, afirmou ao Estadão Edegar Rosa, diretor do WWF-Brasil para Conservação e Restauração.

“Quando se olha todo o contexto, as falas desde o começo do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, questionando terras indígenas, promovendo o garimpo, desmontando a fiscalização. Na reunião ministerial usaram a pandemia como distração para passar medidas que facilitam o impacto ambiental. Com isso tudo, não dá para acreditar nas falas do governo agora de que existe preocupação efetiva”, complementa.

Ele lembra que não existe um plano estabelecido para o combate ao desmatamento. “O Brasil tem histórico de controlar o desmatamento. A gente já conseguiu fazer isso. Mas as falas deles ainda são de negar o problema. E os investidores veem isso.”

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima também criticou o governo. "Enquanto o Planalto se esforça para tentar enganar o mundo de que preserva a Amazônia, a realidade dos números revela que o governo Bolsonaro está colaborando na destruição da maior floresta tropical do planeta”, disse em nota distribuída pela rede de ONGs. “Sob Bolsonaro, vivemos o pior momento da agenda ambiental de nosso país”, complementou.

Para o Greenpeace, Mourão falhou, e a reação do governo às pressões é de "esconder o problema atrás de uma cortina feita de campanha publicitária, viagens e ações de fachada".

Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia da organização, disse por meio de nota que para mitigar e reverter os danos à  floresta e à  imagem do País é preciso mais. "Precisamos de resultados concretos, e para isso será necessário um plano robusto para conter tamanha destruição, na linha do que foi o PPCDAM (plano de combate ao desmatamento que vigorou nas últimas gestões),  a começar por ações de comando e controle em caráter permanente e executadas por órgãos competentes e bem aparelhados. Este é um caminho, já conhecido, que este governo insiste em ignorar”, disse. 

Ela cita que cerca de 67% do garimpo realizado na Amazônia em junho ocorreu em áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas): foram desmatados 387 hectares para realização de garimpo em Terras Indígenas e 1.021 hectares em Unidades de Conservação.

Devastação em alta desde o ano passado

O desmatamento disparou na Amazônia a partir de maio do ano passado. Foi quando os alertas do Deter começaram a ser destacados na imprensa estrangeira que o presidente Jair Bolsonaro começou a colocar em dúvida os dados do Inpe. Ele chegou a dizer que os números eram mentirosos e que o então diretor do instituto, Ricardo Galvão, estaria "a serviço de alguma ONG". Ao Estadão, Galvão acusou Bolsonaro de ser "pusilânime e covarde" e acabou exonerado alguns dias depois.

O Deter é um sistema mais dinâmico, que fornece em tempo real alertas para orientar a fiscalização em campo. Mas normalmente a tendência que ele indica, seja de alta ou de baixa, é depois confirmada pelo Prodes, o sistema que fornece a taxa oficial anual do desmatamento da Amazônia.

O Prodes entre agosto de 2018 e julho de 2019 foi o mais alto desde 2008 e superou pela primeira vez no período a faixa dos 10 mil km². Em números absolutos, a Amazônia perdeu 10.129 km². O valor representa uma alta de 34,41% em relação aos 12 meses anteriores. Entre agosto de 2017 e julho de 2018, a perda havia sido de 7.536 km².

Por causa das altas que vêm sendo indicadas pelo Deter desde agosto do ano passado, especialistas já estimam que o Prodes deste ano deve trazer uma alta ainda maior que a de 2019. Ainda falta terminar o mês de julho para fechar a conta, mas no ritmo apresentado até então, especialistas veem poucas chances de o problema se reverter.

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